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Jornalista, escritor, editor e consultor cultural.

Na Cultura todo investimento é lucro

Última atualização em junho de 2014

Movimento “Parque Newton Mendonça”
recebe apoio de ilustres personalidades da
Cultura Fluminense e Brasileira

Os músicos e compositores Sérgio Ricardo, Roberto Menescal, Tito Madi, Cristóvão Bastos, Maurício Carrilho, Luciana Rabello e Paulo Aragão; o grande poeta e letrista da Música Brasileira, Paulo César Pinheiro; o pianista, compositor e maestro Eduardo Lajes, “o maestro de Roberto Carlos”; o roqueiro Frejat e a cantora Cris Delanno; as pianistas clássicas, Maria Tereza Madeira e Sônia Vieira, os premiados cineastas Nelson Pereira dos Santos e Walter Lima Júnior; o artista plástico de fama internacional Eduardo Sued, e o consagrado arquiteto Marcos Konder Neto; os jornalistas e historiadores Ruy Castro, Tárik de Souza, Ricardo Cravo Albin, Joaquim Ferreira dos Santos, Zuza Homem de Mello e Artur Xexéo – estas são algumas das importantes personalidades do mundo artístico e cultural que já formalizaram seus apoios incondicionais, adesões irrestritas à proposta do jornalista e consultor cultural Marcelo Câmara ao Governo do Estado do Rio de Janeiro, para que seja denominado PARQUE NEWTON MENDONÇA, o Parque da Bossa Nova, na Zona Sul carioca. A denominação é uma homenagem à arte e à memória do pianista de vanguarda e genial compositor, falecido em 1960, primeiro e fundamental parceiro de Tom Jobim, com quem formou a mais importante parceria da Bossa Nova. Marcelo Câmara, biógrafo de Newton Mendonça idealizou a homenagem e lidera o Movimento “Parque Newton Mendonça”. A proposta da denominação PARQUE NEWTON MENDONÇA ao Governo Estadual foi feita por Marcelo Câmara em outubro de 2009, diretamente ao então Governador Sérgio Cabral, e, também, através da Secretária Estadual de Cultura, Adriana Rattes. Porém, até hoje, não obteve uma resposta do Poder Executivo Estadual.

O carioca Newton Ferreira de Mendonça (*14.2.1927, Cachambi, Rio de Janeiro, RJ – †22.11.1960, Vila Isabel, Rio de Janeiro, RJ), na opinião de Câmara, é “o principal compositor da Bossa Nova”, estética que abalou o país na segunda metade dos anos 1950, “quem, verdadeiramente, mais ousou, transgrediu, estruturou o estilo em termos composicionais”. Segundo Marcelo Câmara, “Newton compôs as canções adequadas e perfeitas para o novo ritmo e estilo criados por João Gilberto, a maneira de tocar e cantar do músico baiano, que foi o criador e é o maior intérprete do gênero”. Newton Mendonça deixou 35 músicas: 19 de autoria exclusiva (onze continuam inéditas), 15 com Tom (treze gravadas) e 1 com Fernando Lobo. Newton é o criador, com Tom, de clássicos como Desafinado, Samba de uma nota só, Meditação, Discussão, Caminhos cruzados, Foi a noite, Só saudade, O domingo azul do mar, entre outros, além de obras-primas de criação exclusiva como Você morreu pra mim, Verdadeiro amor, Seu amor, você (uma das finalistas do Festival do Rio - As mais belas canções de amor, 1960), Canção do azul, Nuvem, O mar apagou, Canção do pescador (vencedora do primeiro festival de música popular brasileira de âmbito nacional, promovido pela Record, em 1960, no Guarujá, SP) e Quero você, principal tema da trilha do filme Os desafinados, de Walter Lima Júnior. Das sete músicas de Tom Jobim com mais de dois milhões de execuções no mundo, três são resultado de uma parceria de apenas sete anos com Newton Mendonça, três são de autoria exclusiva de Tom e uma foi feita com Vinicius de Moraes.

Falecendo, inesperada e prematuramente, aos 33 anos, em 1960, Newton Mendonça – em virtude de sua origem pobre, órfão na infância, seu temperamento tímido e difícil, suas ideias socialistas, a omissão e covardia de artistas, seus contemporâneos, alguns vivos –, foi condenado a um criminoso esquecimento, a uma inexplicável injustiça de décadas, que somente, nos últimos anos, vem sendo reparada, especialmente pelo trabalho incansável de Marcelo Câmara de dignificação da sua memória, de reconhecimento da sua importantíssima obra para a Música Brasileira.

O Parque da Bossa Nova é um projeto do arquiteto Jayme Lerner, espaço cultural a ser construído no bairro do Leblon, na Zona Sul carioca, e que irá abrigar cinema, teatro, jardins, restaurante, cafés e um amplo estacionamento para veículos. Marcelo Câmara argumenta que, enquanto Antônio Carlos Jobim (*25.1.1927, Tijuca, Rio de Janeiro, RJ, 25.1.1927 – †Nova Iorque, EUA, 8.12.1994) dá nome ao Aeroporto Internacional da cidade, ao entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas, a diversas instituições da Arte e da Cultura no Estado e no País, ao contrário, o seu parceiro Newton Mendonça jamais foi lembrado para nomear um logradouro, um espaço, qualquer entidade, sequer uma sala de aula na sua cidade natal, o Rio de Janeiro que tanto amou. Marcelo Câmara aguarda, confiante, uma resposta positiva do Governo do Estado, “pois a homenagem, apesar de tardia, é justíssima e perfeita”.

ADESÕES E REPERCUSSÃO

Convidado a apoiar o Movimento Parque Newton Mendonça, em setembro de 2010, o jornalista Ruy Castro, após receber as informações pertinentes enviadas por Marcelo Câmara, o fez, imediata e diretamente, ao próprio Marcelo, via e-mail. Na mesma semana, Ruy publicou artigo na sua prestigiosa coluna na Folha de São Paulo aderindo à ideia e à proposta de Marcelo Câmara. O texto de Ruy Castro, reproduzido no blog de Luís Nassif, pode ser lido clicando-se no link:

http://www.brasilianas.org/blog/luisnassif/os-50-anos-da-morte-de-newton-mendonca

Dias depois, após receber a convocação e informações de Marcelo Câmara sobre as razões e objetivos do Movimento, o jornalista Nelson Motta, em sua famosa coluna, no Jornal da Globo, mesmo não se referindo explicitamente ao Movimento PARQUE NEWTON MENDONÇA foi incisivo e claro ao afirmar que, ao contrário de Tom Jobim, Newton nunca teve a sua arte revolucionária reconhecida, a sua memória cultuada, o seu nome lembrado em qualquer homenagem. A denúncia, corajosamente dita em rede nacional de televisão, com grande repercussão, constituiu um valiosíssimo apoio ao Movimento. O vídeo com a matéria de Nelson Motta pode ser acessado através do link:

http://g1.globo.com/videos/jornal-da-globo/v/newton-mendonca-foi-o-lado-b-de-tom-jobim/1357466/

A propósito da matéria de Nelson Motta, Marcelo Câmara comenta que, “pela primeira vez, a Rede Globo de Televisão, no texto e na voz de um jornalista da sua equipe, identifica, corretamente, Newton Mendonça como pianista de vanguarda e genial compositor, ousado, promotor de rupturas. Criador de canções, inventor e principal estruturador de uma estética, Newton Mendonça, apesar de escrever letras e partituras, sozinho e com Tom Jobim, jamais foi um letrista. Newton foi músico, exclusivamente músico. Violinista, gaitista, pianista, viveu absoluta e plenamente a música, mesmo tendo a fotografia, o cinema e a política como outros universos de interesse e exercício” – esclarece Marcelo Câmara.

Em novembro de 2010, em mensagem dirigida às personalidades que se manifestaram publicamente apoiando a proposta da homenagem, o neto de Newton Mendonça, o jovem Victor Lopes de Mendonça, e sua mãe, Rosália Lopes de Mendonça, em nome da família do compositor, agradeceram o valioso apoio daqueles artistas, historiadores e jornalistas. O neto e a nora de Newton escreveram aos apoiadores: “A campanha, promovida e liderada por Marcelo Câmara, emociona, nos honra e enche de orgulho os familiares de Newton Mendonça, cinquenta anos após a sua morte, especialmente ao receber a sua distinta e prestigiosa adesão, quando o seu nome jamais foi gravado em qualquer logradouro, espaço ou instituição pública ou privada, apesar dos esforços anteriores do próprio Marcelo Câmara.” Victor e Rosália Mendonça destacam que, “desde 1994, ininterruptamente, o historiador e crítico Marcelo Câmara se dedica à missão de elevar e divulgar a música e a vida de Newton Mendonça, a Bossa Nova e a Música Brasileira, estando à frente de todas as iniciativas e empreendimentos artístico-culturais neste sentido”.

A família registra que, em 1996, Marcelo Câmara eternizou no bronze o nome de Newton Mendonça no local onde existia o seu apartamento na Rua Prudente de Moraes, em Ipanema, onde Newton compôs grande parte de sua obra exclusiva e em parceria com Tom Jobim. No ano seguinte, o jornalista escreveu, dirigiu e apresentou, em Ipanema, o primeiro show sobre a trajetória e a obra do compositor, com os filhos de Newton – Fernando (1959-1999) e Renato Mendonça – e Antônio Nastari. Em 2001, Marcelo Câmara escreveu o livro Caminhos cruzados – a vida e a música de Newton Mendonça (Mauad) a primeira e única biografia do artista. Idealizou e produziu, no ano seguinte, o CD Caminhos cruzados – Cris Delanno canta Newton Mendonça (Ilha Verde/Albatroz), primeiro e único registro fonográfico, com parte da obra exclusiva de Newton e raridades da parceria New-Tom. Em 2008, roteirizou, escreveu, produziu, dirigiu e apresentou, no Vinicius Bar Show, em Ipanema, o espetáculo Caminhos cruzados – a música de Newton Mendonça, primeiro e único show profissional que divulgou a vida e as músicas de Newton Mendonça, estrelado por Alan Vergueiro, sobrinho de Newton. Por fim, a família do compositor enfatiza que “Marcelo Câmara tem sido o estudioso, o guardião e arauto, quase que quixotescamente, do pequeno e fundamental patrimônio de vanguarda e beleza deixado por Newton Mendonça para a Música e a Cultura Brasileira. Sempre, sob qualquer suporte, formato ou mídia – jornal, revista, livro, rádio, TV, cinema, vídeo, Internet, palestra, conferência, debate ou workshop – quando Newton Mendonça é lembrado, defendido e dignificado, se evidencia o trabalho de Marcelo Câmara”.

 


Em 2012, um total de 50 formados
nos Cursos de Degustador de Cachaças

Com a realização, em 2012, da quarta e quinta edição do Curso de Formação Básica de Degustador de Cachaças – Amador e Profissional, Marcelo Câmara totaliza meia centena de pessoas formadas, de diversos Estados e do exterior, que adquiriram os conhecimentos fundamentais, teóricos e práticos, para degustar, analisar e julgar cachaças. A partir de junho de 2012, o especialista deixou de organizar este e os outros Cursos que criou, passando a ministrá-los como serviços, dirigidos e vendidos a empresas, instituições e grupos de pessoas interessados. Os Cursos continuam a ser realizados, agora promovidos pelos adquirentes, no Hotel Vermont, em Ipanema, na Cidade do Rio de Janeiro, ou nos locais indicados por eles no Grande Rio e municípios do Estado do Rio de Janeiro.



2011:
mais um tempo de ousadia e progressos

Consultoria em Cultura. Consultoria Legislativa. Consultoria em Cachaça. Redação, Revisão e Edição. Dessas quatro consultorias que, regular e profissionalmente, presta a empresas, instituições, eventos e pessoas físicas – os trabalhos técnicos no universo da Cachaça, como tem acontecido nos últimos anos, foram os que ocuparam mais o tempo de Marcelo Câmara. Além das Análises Sensoriais e das Análises de Produto, do Treinamento Profissional em hotéis, da Elaboração de Cartas de Cachaças para restaurantes e de Textos, inclusive para sites da web, atendendo a agentes da produção e do comércio do destilado – para o jornalista e consultor cultural, as duas grandes realizações em 2011 do seu escritório foram: a criação do Curso de Formação Básica de Degustador de Cachaças – Amador e Profissional, o primeiro do mundo, e a extensa consultoria que vem prestando visando à exportação de quatro cachaças de excelência sensorial para os EUA, as primeiras a serem comercializadas naquele País. Até o momento, os Estados Unidos somente conhece cachaças industriais e poucas cachaças artesanais (de alambique) sem qualidade ou apenas medianas, com algumas virtudes, mas que não chegam a construir a raríssima e complexa excelência sensorial, considerada pelo especialista.

Em 2011, numa iniciativa pioneira, Marcelo Câmara ministrou, com muito êxito, três Cursos de Degustador de Cachaças, no Hotel Vermont, em Ipanema, Zona Sul da Cidade do Rio de Janeiro – em junho, outubro e novembro – formando vinte e sete pessoas das mais diversas origens, níveis econômicos, classes sociais, oriundas de vários Estados e do exterior. Notável foi a diversidade dos perfis dos alunos, uns envolvidos diretamente na produção artesanal e industrial da cachaça ou nos setores de distribuição e comércio; alguns interessados em iniciar empreendimentos, inclusive fabricar pinga; e vários apenas na condição de cachaçólogos (estudiosos), pingófilos (amantes da boa pinga), além de jornalistas, curiosos, simpatizantes, entusiastas, todos interessados em conhecer a estrutura físico-química e os peculiares aspectos sensoriais, as virtudes e os defeitos que a bebida brasileira pode apresentar na cor e aparência, no aroma e no sabor. Marcelo teve a honra de ter entre os seus alunos, nos três cursos, mestres e doutores vindos da academia e do mercado, profissionais especializados em destilados, das áreas de Química e da Biologia, dedicados à produção de cachaça. A presença destes especialistas elevou e qualificou ainda mais os diálogos e debates sobre as propriedades e características organolépticas da cachaça.

Os cursos se desenvolveram num clima de respeito, participação, camaradagem e, ao final, de confraternização e humor. A nota pitoresca do 3º Curso de Formador de Degustador de Cachaças, realizado em novembro de 2011, em Ipanema, foi o diálogo entre Marcelo Câmara e um dos alunos:

Marcelo - Mas, você é duas vezes transplantado de fígado e bebe?
Aluno - Claro, o fígado não é meu...

Por que o norte-americano não bebe cachaça pura?

Em mais da metade do ano de 2011, Marcelo Câmara trabalhou intensamente como Consultor de quatro produtores e um exportador empenhados na exportação de quatro marcas de cachaça de excelência para os EUA, todas cachaças novas, descansadas. Marcelo coordena uma equipe e dá a última palavra em todos os passos da venda para o exterior: da escolha das marcas à orientação do consumidor norte-americano para consumir, puro ou como base de drinques brasileiros, um destilado de excelência sensorial, passando pela análise sensorial, a conformidade legal e a capacidade comercial da cachaça num mercado que apresenta o maior consumo e a maior demanda latente por destilados do mundo. “O nosso objetivo, com a exportação da cachaça de excelência, explica Marcelo, é ensinar o norte-americano a beber cachaça pura, como ele faz com o uísque, o gin, a vodca, o rum, o bourbon. Ele não bebe cachaça pura porque o que ele tem disponível é imbebível, é ruim, é nauseabundo, vomitativo. Então ele parte para a Caipirinha inferior, de qualquer jeito: álcool ruim, limão e açúcar. É claro que o americano vai continuar a beber o drinque brasileiro, mas não mais uma Caipirinha feita com cachaça industrial ou artesanal sem excelência. Quando ele provar uma cachaça de excelência, ele não apenas vai preferir que ela seja a base da sua Caipirinha, mas, também, vai passar a beber a cachaça de excelência, pura, um primoroso e singular espírito, como ele faz com os outros destilados”.



Flagrantes do 3º Curso de Degustação
24 de novembro de 2011
Hotel Vermont, Ipanema, Rio de Janeiro, RJ


Foto: Bruno Lira

Marcelo aplica uma pedagogia do gosto.
Para ter sabor é necessário saber nos dois sentidos:
conhecer e degustar.


Foto: Bruno Lira

Argau, cuia e cuité, os instrumentos de degustação, além do cálice mínimo com bordas que se fecham.
E as cachaças degustadas no 3º Curso:
duas novas descansadas (Coqueiro e Mato Dentro),
uma envelhecida (Coqueiro)
e a única cachaça premium de excelência que existe:
a Engenho São Luiz (última à direita).

 

Foto: Bruno Lira

Marcelo Câmara explica: a sabedoria sensorial
é resultado de vocação, talentos, muito estudo, crítica, reflexão, vivências, convivências e o exercício da degustação, uma arte.

Não há nada de subjetivo ou emocional na Degustação de Cachaças. Todos os passos são dados sob normas e critérios exclusivamente técnicos e científicos.

 

Foto: Bruno Lira

Para Marcelo, o aroma é a antessala do paladar.

 

Foto: Bruno Lira

Aluno de São Paulo degusta na cuia,
a casca do coco cortada ao meio,
usada nos engenhos artesanais.

 

Foto: Bruno Lira

A avaliação gustativa sucede as avaliações visual-táctil e olfativa.
O pequeno e lento gole em cálice mínimo e transparente,
com bordas que se fecham.

 


2º CURSO DE DEGUSTADOR DE CACHAÇAS:
AVANÇOS E DEBATES

Foto: Bruno Lira

Marcelo Câmara: teoria e prática sensorial em cinco horas de exposição e debates

A estrutura e os aspectos sensoriais da cachaça, segundo as ciências e as tecnologias aplicáveis. As virtudes e defeitos sensoriais da cachaça, suas causas e consequências, nos contextos da produção, do consumo, das leis científicas e no âmbito legal. A excelência sensorial da cachaça: valores, normas e critérios de análise e avaliação na sociedade e na cultura brasileira. Esses foram os grandes temas expostos pelo cachaçólogo e degustador profissional Marcelo Câmara e debatidos pelo especialista com os participantes do 2º Curso de Formação Básica de Degustador de Cachaças – Amador e Profissional, realizado no Hotel Vermont, em Ipanema, Rio de Janeiro, no último dia 6 de outubro.


Foto: Bruno Lira

A turma, atenta e participativa, debateu todos os passos da produção e as questões da excelência sensorial.

Novos quadros relativos ao equilíbrio e características química e sensorial da cachaça construídos por Marcelo Câmara foram apresentados e amplamente discutidos. Destaque para as causas e fatores apontados pelo cachaçólogo como definidores e determinantes da excelência sensorial e aqueles que corrompem e degradam o destilado brasileiro. A presença do químico Ricardo Zaratinni, Consultor da Fundação Bio Rio, especialista em destilo e fermentação da cachaça, que dialogou muito com o expositor, ilustrou ainda mais o Curso e estimulou os debates. Participaram da turma do 2º Curso empresários, engenheiros, economistas, jornalistas, estudiosos e técnicos de uma indústria de cachaça.

Foto: Bruno Lira

O especialista faz a avaliação olfativa, percorrendo a Ficha de Degustação Marcelo Câmara.

Na parte de iniciação prática, foram degustadas as seguintes cachaças de excelência: Mato Dentro, nova “descansada”, de São Luiz do Paraitinga, SP, fabricada na Fazenda Mato Dentro por Manoel Rômulo Cembranelli, produto desconhecido dos cariocas, que recebeu altíssimas avaliações; e Engenho São Luiz, nova “descansada”, de Lençois Paulista, SP, fabricada no Engenho São Luiz pela Família Zillo, marca que está sendo lançada nacionalmente, igualmente muito bem avaliada por Câmara e seus alunos. As cachaças envelhecidas degustadas foram: a campeoníssima Coqueiro Ouro, de Paraty, RJ, fabricada na Fazenda Cabral por Eduardo Mello, segundo Marcelo, “o melhor alambiqueiro de cachaça do mundo”; e SalvaGerais (prata, na idade, não na cor), de João Pinheiro, MG, fabricada na Fazenda SalvaTerra, no distrito de Canabrava, por Danilo Meth e Paulo Sérgio Velloso. Coqueiro e SalvaGerais também receberam julgamentos positivos, dignos de suas excelências sensoriais.


Foto: Luiz Carlos Seixas

As Cachaças Mato Dentro e Engenho São Luiz, ambas de São Paulo, fizeram sucesso na degustação.




Foto: Luiz Carlos Seixas

Coqueiro Ouro, de Paraty, RJ, confirmou o seu primor, a sua suprema excelência.



Uma reportagem

1º CURSO DE FORMAÇÃO BÁSICA DE DEGUSTADOR DE CACHAÇAS: CONHECIMENTO, DEBATES, SUCESSO.

Sete horas de abordagens sobre temas e aspectos sensoriais da cachaça. Fundamentação teórica e iniciação prática, através de uma Degustação tecnicamente dirigida. Troca de conhecimentos, questionamentos, debates. Análises, críticas e propostas. Este é o saldo do 1º Curso de Formação Básica de Degustador de Cachaças – Amador e Profissional, realizado na última quinta-feira, dia 2 de junho, no Hotel Vermont, em Ipanema, Rio de Janeiro, ministrado pelo cachaçólogo e degustador profissional de cachaças, Marcelo Câmara. Evento inédito, o Curso reuniu produtores artesanais e industriais, comerciantes que atuam no setor; cientistas e pesquisadores de universidades e instituições públicas e privadas; jornalistas e pessoas que se preparam para iniciar a fabricação do destilado. Notável, ainda, foi a presença de um técnico, diretor da maior rede de distribuição de destilados dos Estados Unidos, que veio ao Rio unicamente para participar do Curso.

 

 


                                                                                                                                                               Foto: Bruno Lira
Parte da seleta turma de produtores, comerciantes, cientistas e técnicos.

 

Marcelo Câmara além de tratar, amplamente, dos temas e aspectos econômicos, políticos, sócio-culturais e históricos do universo da cachaça, discorreu, didaticamente, sobre todas as fases da produção do destilado, tanto no regime artesanal como no industrial. Expôs as condutas e os problemas, da escolha do terreno para plantação da cana-de-açúcar ao engarrafamento, distribuição e consumo da bebida. O mercado de trabalho para o Degustador Profissional ocupou parte dos diálogos, o seu lugar e função econômica e social. Os passos da produção, especialmente a colheita, coagem, decantação, fermentação, destilo, “descanso” e envelhecimento foram exaustivamente discutidos, especialmente a complexa estrutura química da bebida e a fascinante fenomenologia físico-química que ocorre nos processos de fabricação, determinantes, decisivos para a qualidade sensorial da cachaça.

 

 

 


                                                                                                                                                                      Foto: Bruno Lira
Marcelo Câmara expôs, critica e didaticamente, as normas e critérios sensoriais
que criou para a degustação de cachaças.

 

 

 

As intervenções dos químicos que participaram do Curso geraram intensos e esclarecedores debates os quais se estenderam durante todo o dia, principalmente acerca dos componentes secundários da fermentação e dos contaminantes e precursores da destilação. Marcelo mostrou como qualquer passo certo, em falso ou errado, do corte da cana ao envelhecimento, incluindo a higienização absoluta de instalações e equipamentos, o tempo natural das reações físico-químicas e o monitoramento de cada fase da produção – podem, afinal, influir, otimizar ou comprometer, a excelência sensorial do destilado. Os questionamentos dos participantes e o alto nível dos debates foram, na visão de todos, amplamente enriquecedores, atendendo ao interesse e às demandas apresentadas.


                                                                  Foto: Bruno Lira
Pedagogia do gosto: Marcelo dirigiu a iniciação prática.

 

À tarde, na segunda parte do Curso, Marcelo explicou, critica e didaticamente, o seu pensamento sobre os valores, conceitos e características estabelecidos por ele para a excelência sensorial da cachaça. Detalhou, ainda, as normas e critérios sensoriais que criou e vem praticando nas Análises Sensoriais que realiza para os produtores e nas Sessões de Degustação que dirige em todo o País há quase vinte anos. A partir da Ficha de Degustação que está no seu último livro, o primeiro e único a tratar dos aspectos sensoriais da cachaça, Marcelo desenvolveu outra Ficha, desta vez mais extensa, pedagogicamente construída. Para percorrer todos os itens dessa nova Ficha, especialmente construída para o Curso, foram degustadas as marcas Coqueiro, de Paraty, RJ, e Samanaú, de Caicó, RN, ambos dos tipos Prata e Ouro. As cachaças foram sensorialmente analisadas e criticadas por todos, apontadas as possíveis causas de suas virtudes e defeitos. Além da Ficha de Degustação, foram distribuídos textos sobre a sinonímia da cachaça, os bota-gostos que se harmonizam com a cachaça e receitas de seculares drinques brasileiros à base de cachaça. Ao final, cada aluno recebeu o seu Certificado de Participação personalizado, assinado pelo participante e pelo cachaçólogo e degustador Marcelo Câmara, idealizador e realizador do Curso, que foi saudado e elogiado por todos pela ousadia e vanguarda de organizar o Curso. Marcelo teve a colaboração da designer gráfica Marcela Petersen na montagem dos arquivos digitais e na elaboração do Certificado; e do fotógrafo Bruno Lira, que o assistiu na projeção do roteiro e fotografou o evento.



Evento de 9.6.2011

Marcelo Câmara critica
Folha de São Paulo

O jornal Folha de São Paulo inscreveu um repórter da sua sucursal carioca no 1º Curso de Formação Básica de Degustador de Cachaças – Amador e Profissional, visando à produção de uma reportagem sobre o evento, ministrado pelo cachaçólogo e degustador profissional de cachaças, Marcelo Câmara, em Ipanema, Rio de Janeiro, a 2.6.2011. Infelizmente, para surpresa do especialista e de todos que participaram do Curso, a matéria, rala e reles, tonta e torta, publicada pelo Caderno Comida, no dia 9.6.2011, foi infiel aos fatos, deplorável. Pior foi a sua edição, pois o jornalista responsável pelo Caderno quis fazer gracinha, ser “moderno”, piorando, ainda mais, a pueril matéria. Marcelo enviou carta indignada ao jornal que foi publicada, parte dela, em 1.6, pela ombudsman da Folha, jornalista Suzana Singer, junto a uma resposta ignóbil do editor, à qual foi feita uma tréplica. Esta tréplica não foi publicada, mas distribuída pela ombudsman à Redação do jornal, para conhecimento de todos os jornalistas. Abaixo, vão os três textos nas suas íntegras originais: a carta crítica de Marcelo Câmara, a réplica do editor e a tréplica não publicada, esta cabal e fatal, irrefutável, que “fechou o caixão”, encerrou o debate.

 

AO JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO
DEGUSTADOR DE CACHAÇAS

A matéria sobre o 1º Curso de Formação Básica de Degustador de Cachaças – Amador e Profissional, evento pioneiro, idealizado e realizado por mim em Ipanema, na Cidade do Rio de Janeiro na semana passada, e divulgado pela Folha na edição de 9.6, no Caderno Comida, corrompeu, desonesta e estupidamente, o evento, pelo uso destacado do esquizogalicismo “cachacier”, uma impropriedade não apenas lingüística, mas, sobretudo, sociológica, econômica, histórica, política, cultural. A pornografia abortada por algum idiota completamente ignorante e alheio à Cultura e ao universo da bebida brasileira pretende importar do mundo dos vinhos, distante e diverso em tudo da nossa cachaça, a palavra “sommelier” para designar e substituir o nome “Degustador de Cachaças”, provador culto, preparado para o ato cultural de degustar, de “provar para saber e saber para ter mais sabor”, técnica, arte, ofício. A expressão canhestra não denomina, não denota, não expressa, nem ao menos sugere conotação com o trabalho do Degustador de Cachaças. Nada significa. Com ela, alguns querem substituir, também, as palavras “Cachaçólogo” (estudioso, pesquisar da cachaça) e “Pingófilo” (bebedor e amante da boa pinga), palavra que criei há vinte anos. Trata-se de mais um mimetismo tolo e burro, um macaquismo irracional, descabido, um modismo vazio, que, desgraçadamente, tem fascinado alguns editores e povoado certa mídia superficial, capenga e precipitada, da qual a Folha não faz parte. O texto chama a mim e aos participantes do Curso de “cachaciers”, uma das asneiras anuladas durante o Curso. Eu rechaço: “Cachacier é o cacete!”. A reportagem, por esta e outras invenções e desvios, é torta e infiel, desastrosa para quem ama de verdade e promove com seriedade a bebida brasileira. Não reportou os fatos do Curso, nem, ao menos, o seu espírito. Contraria e desmente idéias, a linguagem e propostas expostas por mim e, manifestamente, assumidas pelos participantes do evento. E tenta ocultar e reduzir, no mínimo ironizar, todo o meu pensamento sobre a atividade amadora e profissional do Degustador de Cachaças e sobre a bebida brasileira, trabalho que desenvolvo, consciente e responsavelmente, há mais de quarenta anos. Em síntese: quase tudo que foi publicado nada tem a ver com o que realmente aconteceu em Ipanema.

Marcelo Câmara
Cachaçólogo e Degustador Profissional de Cachaças

 

Réplica do Editor do Caderno Comida

A rigor, "cachaçólogo" seria um sujeito dedicado ao estudo do processo da produção da bebida e de suas propriedades físico-químicas. É como o enólogo, com os vinhos. Se existisse, a "cachaçologia" exigiria curso de formação universitária, como existe para a enologia na França. O enólogo (ou o "cachaçólogo", como o missivista quer ser) é especialista em técnicas de vinificação e produção de vinhos. Trabalha na vinícola. Ele acompanha o desenvolvimento da videira, sua colheita, a fermentação do vinho, seu envelhecimento e seu envasamento. Creio, a menos que muito me engane, que não exista curso de formação universitária em cachaça no Brasil. O "cachaçólogo" deveria também trabalhar no campo, acompanhar a plantação da cana-de-açúcar, a colheita, a destilação, o envelhecimento (quando for o caso) e o envasamento da cachaça em alambiques. "Cachacier", o nome amplamente empregado no meio gastronômico e por todos os especialistas do país e do mundo, é o sujeito dedicado à degustação e à harmonização da bebida com outros pratos. É justamente isso o que o curso coberto pela reportagem se propõe. É justamente isso o que fazem os "sommeliers", palavra da qual deriva o nome. O curso era de formação de degustadores de cachaça. A rigor, o termo "cachacier", embora ele pessoalmente não goste, não foi mal empregado. Não há erro nenhum na edição.

 

A tréplica encaminhada à ombudsman Suzana Singer

Suzana, o Editor do Caderno é analfabeto em cachaça, nada sabe do assunto, muito menos sobre a Cultura Brasileira, da qual a Culinária, a Gastronomia, a Cachaça fazem parte. Copiou e fundiu, do dicionário e de uma enciclopédia, verbetes sobre a atividade do enólogo e quis forçar uma analogia de “enólogo” com “cachaçólogo”. Pendurou-se no sufixo "logo" para deitar falso conhecimento e inepta argumentação. Ele acredita que quem não for formado em História não é historiador e quem não é formado em Letras não é escritor. José Honório Rodrigues foi um dos nossos maiores historiadores e não era formado em História. Meu primo Luis da Câmara Cascudo, o mais erudito dos brasileiros do século XX (na opinião de Jorge Amado, "o mais importante dos brasileiros do século"), foi o maior dos cachaçólogos, nunca fez curso superior em cachaça, bacharelado que não existe, nem nunca existiu. Como foram grandes mestres cachaçólogos os abstêmios Mário Souto Maior e o sábio José Manso Pereira no Século XIX, nosso primeiro químico da cachaça. "Cachacier" é, repito, mimetismo tolo e burro de desocupado e ignorante do nosso destilado, próprio de colonizado cultural e subdesenvolvido mental. Macaquismo, modismo. Qualquer pessoa séria do mundo da cachaça repila a bobagem. Não é empregado em lugar nenhum do Brasil, muito menos do exterior, mas apenas em alguns nichos paulistanos do vinho e da cuisine, por gente que não sabe a diferença entre uma pinga e um elixir paregórico. A palavra é invenção, de dez anos, de um boboca aqui do Rio, um porrista, um desses alcoólatras que se dizem animadores da bebida, mas que, na verdade, pelas suas atitudes asnais, acabam se constituindo em "desanimadores" militantes da cachaça. Para a sua informação (não do editor, que é obliterado no tema), "cachaçólogo" não faz degustação de cachaças, nem harmonização com bota-gostos. Cachaçólogo é um estudioso, um pesquisador do assunto. E o curso não foi para formar cachaçólogo, atividade que não depende de formação, mas de ciência, sabedoria. O curso teve por objetivo a formação básica de degustador, que nada tem a ver com cachaçólogo ou pingófilo. Esse editor sabe tanto de cachaça quanto um agricultor de Bebe-Mijo, no Piauí, sabe de esqui no gelo. Precisaria ler e estudar muito, beber, viver e conviver muito no universo da cachaça, por décadas, para tentar escrever um monossílabo a respeito. A matéria é péssima. O editor e a edição, bem piores. O editor do Caderno quis fazer gracinha com assunto sério, no qual ele é nulo.

Atenciosamente,

 Marcelo Câmara.

 

 

 

Marcelo Câmara elabora cartas de cachaças
para os mais categorizados hotéis, restaurantes e bares
do Brasil e do exterior


Cachaçólogo há mais de quarenta anos, pingófilo e degustador, o primeiro a se profissionalizar no mundo, MARCELO CÂMARA é considerado, internacionalmente, o maior conhecedor do assunto "cachaça", unindo sabedoria, ciência, técnica, vivências e convivências. Autor de dois livros de vanguarda, únicos na bibliografia especializada, com múltiplas ações exitosas realizadas e de centenas de trabalhos publicados no universo da bebida brasileira, o especialista - dentro dos múltiplos serviços de consultoria que, há décadas, presta a empresas, instituições, eventos e personalidades, nos setores privado e público - vem, atualmente, se empenhando na elaboração de CARTAS DE CACHAÇAS para os mais importantes e conceituados hotéis, restaurantes e bares do País e do exterior.

Além de construir cartas somente com as poucas e preciosas marcas de excelência existentes no mercado, mesclando-as, quando é possível, com outras de qualidade e de expressivas da região onde se localiza o hotel ou restaurante ou bar. O consultor sugere os bota-gostos, isto é, os petiscos, acepipes, os pratos, as iguarias comuns ou típicas da região e disponíveis na casa, que se harmonizam com cada uma das cachaças oferecidas, bem como os preços a serem praticados. As cachaças são listadas segundo a sua tipologia e características e trazem, cada uma, informações fundamentais sobre a sua origem e produção e, segundo a avaliação crítica de Marcelo Câmara, as suas respectivas virtudes sensoriais e a forma e a oportunidade de saboreá-las com inteligência e prazer. Maiores informações nas páginas Áreas de Atuação Serviços e Produtos e Armazém Paraty deste site. Para contato, clique aqui ou ligue para os telefones: 21-2523-5989 (inclusive fax) ou 21-9327-2313.





Juquinha Stockler:
a bateria que era música
Marcelo Câmara

No último 16 de dezembro, faleceu, anonimamente, na sua residência no bairro do Leblon, Zona Sul carioca, aos 80 anos, um dos maiores músicos brasileiros: Juquinha Stockler (João Baptista Stockler Pimentel), "o baterista da Bossa Nova", o preferido de João Gilberto, Newton Mendonça e Tom Jobim. Somente um site de jazz de Nova Iorque noticiou a sua morte, um dia depois. Soube, agora, que Tárik de Souza, crítico de estofo e proeminente historiador da nossa Música Popular, com base no site norte-americano, foi o único no País a registrar a partida de Juquinha na sua categorizada coluna Supersônicas, na edição de 1º de janeiro de 2010, do Jornal do Brasil. O meu amigo Tárik de Souza integra comigo o pequeno grupo de estudiosos que constroem a História Real da Bossa Nova e da Música Brasileira, longe da famigerada estória oficial, que predomina na mídia e em grande parte da bibliografia existente, cheia de ficções, mentiras e desvios de toda ordem.

"Rei da Vassourinha", amigo de juventude de Newton e Tom, parceiro deste último em Faz uma semana, Juquinha foi o baterista da peça Orfeu da Conceição, em 1956, de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, das primeiras gravações de Chega de Saudade, com Elizete Cardoso e João Gilberto, e das célebres criações deste para Desafinado e Samba de uma nota só, de Newton e Tom. Os grandes bateristas brasileiros, a partir da década de 1950, sempre se consideraram "discípulos do mestre Juquinha", que, humildemente, se autodefinia apenas como um "bom acompanhador" e costumava dizer que "bateria não é barulho, mas, harmonia, um instrumento musical". Newton, Tom e João Gilberto eram fascinados com o talento e a capacidade de Juquinha extrair um soft sound da sua bateria.





De 1950 até 1980, Juquinha, músico de jazz e também compositor, artista versátil, dono de um ouvido absoluto, de primorosa e personalíssima técnica, gravou com os maiores nomes da música brasileira. De Waldir Azevedo a Eumir Deodato, de Elizeth Cardoso a Martinho da Vila, passando por Menescal, Lúcio Alves, Luiz Bonfá, Billy Blanco, Tito Madi, Dorival Caymmi, Dalva de Oliveira, Carlos Lyra, Marcos Valle, Elza Soares, Agnaldo Timóteo, Paulinho da Viola, Clara Nunes, Beth Carvalho, entre outros. Gravou também com astros internacionais como Nat King Cole, Paul Anka, Roy Hamilton, Billy Eckstine, Teddy Randazo, Lucho Gatica, Sarita Montiel, Armando Manzanero, Gregório Barrios e com as orquestras de Roberto Inglez e de Noro Morales, com as quais excursionou na América do Sul. Nos últimos anos, integrou o Stockler Trio, que acompanhava, na noite carioca, o excelente cantor Edson Vaz, seu fiel e leal amigo nos últimos quinze anos. Vaz, que preparava um documentário audiovisual sobre a vida e a carreira de Juquinha, com depoimentos de grandes bateristas em atividade e de outros músicos, cantores e compositores, guarda gravações preciosas de Stockler, tocando jazz e música brasileira contemporânea, especialmente as feitas nos seus derradeiros anos de vida.

Parte, pobre, sem homenagens, sem notícia, um dos maiores músicos brasileiros do Século XX, artista de primeira grandeza, único e insuperável na sua arte. Juquinha Stockler foi um criador de técnicas, um inventor de percussões em todos os ritmos, que fabricava as peças da sua própria bateria. Morre ignorado pelos veículos de comunicação e pelos cronistas superficiais e preguiçosos, plenos de prestígio, de espaço e tempo em certa mídia calhorda e leviana.

Ao amigo Juquinha, o sorriso e a saudade. A nossa lágrima, o nosso aplauso.




O genial Johnny Alf
Marcelo Câmara

Com a partida do estelar Johnny Alf, com quem tive o privilégio de conviver e trabalhar no início dos anos 1970, escrevendo e produzindo shows, volta a se divulgar mais uma tolice, mais um falso bordão da famigerada "história oficial da Bossa Nossa", cheia de ficções, mentiras e deturpações de toda ordem. A reincidente besteira consiste em chamar Johnny Alf de "precursor" da Bossa Nova. Grave e medonho erro.

São três os principais compositores, os três pilares autorais, composicionais, da Bossa Nova, estética nascida na segunda metade da década de 1950. Três músicos geniais. O pianista e compositor Newton Mendonça (1927-1960), o mais importante compositor do estilo, quem mais alto e longe foi na estruturação composicional, na sistematização melódica e harmônica da Bossa Nova, quem verdadeiramente fez vanguarda, mais ousou, mais transgrediu e promoveu mais invenção. Newton era grande amigo de Johnny Alf. Este foi quem, pela primeira vez, me falou de Newton, e com muito entusiasmo, carinho e admiração. O outro é Tom Jobim (1927-1994), primeiro e fundamental parceiro de Newton, que a este sobreviveu 34 anos e com quem formou a principal dupla criadora da Bossa Nova. A parceria New-Tom compôs os hinos, as fundamentais e mais influentes matrizes da Bossa Nova. E o terceiro pilar, anterior a Newton e Tom, e deles mestre, é Johnny Alf (1929-2010), pianista virtuosíssimo, cantor único e compositor precioso, que cometeu as primeiras ousadias melódicas, harmônicas e rítmicas e, mesmo antes da batida definidora de João Gilberto, foi responsável pelas criações basilares do estilo. Negro, pobre e órfão de pai, nascido no Morro da Mangueira, Alfredo José da Silva, filho de uma empregada doméstica, criado em Vila Isabel, incrivelmente parece ser a mais nobre dissonância, culta, sofisticada e afinadíssima, de um tipo de música que surgiu entre os meninos brancos, de classe média alta, da Zona Sul carioca.

O sintetizador de todo o processo desenvolvido na década de 1950, o criador do novo ritmo e estilo, da batida rítmica, o definidor da revolucionária harmonia, que consolida o novo samba, chama-se João Gilberto (1931), discípulo também de Johnny Alf. Os jovens Newton, Tom e João Gilberto, assim como Carlos Lyra, Menescal, João Donato, Luiz Eça, Ronaldo Bôscoli, entre outros, formavam a mais assídua platéia do pianista e cantor Johnny Alf nas boates Mandarim (onde revezou com Newton), Clube da Chave, Drink e Plaza. As canções de Johnny Alf, Newton Mendonça e Tom Jobim favoreceram e estimularam a revolucionária criação, a perseguida façanha de João Gilberto. As músicas dos três compositores se adequaram perfeitamente à forma de João Gilberto tocar e cantar. Suas estruturas e características pareciam ter sido feitas especialmente para João, que as acolheu, assumiu-as, vestiu-as com a nova batida e inusitada interpretação, e construiu definitivamente a estética, transformando o baiano de Juazeiro no maior e insuperável intérprete da Bossa Nova. Tom Jobim declarou, por algum tempo, que, se querem dar "um pai" à Bossa Nova, ele é Johnny Alf.





O debate sobre o Gentileza

Depois do artigo crítico sobre o Gentileza, de autoria de Luiza Petersen e Marcelo Câmara, publicado em 21.2.2010 no Jornal do Brasil, o veículo exibiu uma réplica oito dias depois, que pode ser lido clicando-se no link:

http://jbonline.terra.com.br/pextra/2010/02/28/e280210664.asp

Na edição do dia 8 de março de 2010, o Jornal do Brasil publicou a tréplica, encerrando o debate. Abaixo, os dois textos de Luiza e Marcelo.

A crítica:

A verdade sobre o mito Gentileza

Luiza Petersen
Professora

Marcelo Câmara
Jornalista e escritor

(Publicado no Jornal do Brasil,
edição de domingo, 21.2.2010,
com "chamada" de primeira página.)

Muito se tem escrito, falado e teorizado sobre o "Profeta" Gentileza, (José Datrino, 1917-1996), personagem errante no Grande Rio no final do último século. Artigos, reportagens, livros, filmes, Gentileza virou tema e motivo de produção cultural e até tese acadêmica em universidade. Hoje as palavras, frases, bordões, traços, linhas e desenhos, quase todos sem sentido, que criou, escreveu e portava em um estandarte e que também gravou em viadutos e muros do Rio de Janeiro, foram transformados em mensagens e design de produtos hoje largamente comercializados em shoppings e por camelôs da cidade. Gentileza virou interesse na universidade, diversão intelectual; produto, marca, negócio no mercado.

Conhecemos o Gentileza, em meados da década de 1960 em Niterói, onde vivemos infância e juventude. Era encontrado sempre no centro da cidade, na Estação das Barcas, na Praça Araribóia, seu ponto mais constante, onde passava manhãs e tardes inteiras, anunciando o fim dos tempos, vociferando sem trégua contra a moral então vigente, os costumes da época, especialmente criticando comportamento, posturas e modos de trajar de rapazes e moças. Também viajava na barca Rio-Niterói, nos dois destinos. O que se sabia, à época, era que Gentileza residia em Niterói, cidade onde teve o auge de toda a sua "peregrinação" crítica e delatora nos anos de 1960 e 1970.

Nós, toda a geração que assistiu o aparecimento do Gentileza e com ele conviveu, quase que cotidianamente, pelo menos naquelas duas décadas, podemos afirmar que Gentileza nunca foi "poeta", nem, ao menos, trazia poesia ou poeticidade em suas falações. Gentileza também não foi "profeta" ou "filósofo". José Datrino era um motorista de caminhão alfabetizado que fazia frete em Niterói e cidades vizinhas. A versão generalizada que campeava à época, e jamais destruída, dava conta de que, por ter perdido toda a família no incêndio de 1961, do Gran Circus Norte-Americano na cidade, ficou louco, passou a vestir uma túnica branca, a portar uma tábua com inscrições e a "pregar" a segunda vinda do Cristo, ao tempo que condenava hábitos e costumes de população.

Furioso, agressivo, truculento, com cabelos e barba compridos, objeto de chacota de alguns, figura estranha para muitos e bicho-papão para as criancinhas, se vestia como um taumaturgo, um Antonio Conselheiro urbano. Mas nada tinha de poesia, de paz, de ternura ou doçura em suas palavras, como hoje se canta e se enaltece na academia e na mídia. Gentileza falava, desacertada e incansavelmente, menos sobre "gentileza", perdão e amor, e mais, e muito, e sempre, muito mais sobre pecados, demônios, crimes, castigos, martírios e apocalipses. Vociferava, ofendia e ameaçava espancar transeuntes. Algumas vezes, a polícia era chamada para "acalmar" o Gentileza, tal a sua ira insana.

Sua fala era moralista, medievalesca, maniqueísta, repleta de palavras odiosas, algumas vezes chulas e pornográficas. Tinha um discurso escatológico, esquizofrênico, completamente desarrazoado, contraditório e quase sempre surpreendente, digno de pena e de humor. Combatia o consumismo e satanizava a moda na sociedade e a vaidade das mulheres. As suas principais vítimas eram as mulheres de mini-saia ou com calças apertadas, de cabelos curtos, que usavam maquiagem, salto alto e adereços. E os homens com roupas extravagantes para a época como as calças apertadas, bocas-de-sino, camisas coloridas etc. A maioria da população, especialmente as mulheres e crianças, fugia, corria dele, no mínimo se assustava muito, se horrorizava com figura fantasmagórica do Gentileza.

Quem diz ou escreve diferente ou ao contrário disto sobre ele não conheceu o Gentileza, nunca o viu, não o conheceu, jamais o ouviu. Apenas perscruta as suas intrigantes inscrições, as pinça num cipoal léxico caótico, e constrói um personagem que quer, que lhe convém, mas que, verdadeiramente, nunca existiu. Após a sua morte, criou-se o mito Gentileza, curou-se o pobre Datrino, sublimou-se o pisicótico e se montou uma ideologia humanística, atribuindo-lhe mensagens de paz e amor ao próximo, respeito aos direitos humanos e convivência solidária e cristã - tudo baseado nas palavras e frases que ele escreveu, primeiro no estandarte que carregava em suas andanças e, depois, no final da vida, fixadas por ele nos viadutos da Avenida Brasil e outros planos da cidade do Rio de Janeiro. Se, nesse tempo carioca, ele se transformou em "profeta, poeta, filósofo, santo", se travestiu em uma figura gentil, cordial, serena, santa, dócil, piedosa, socialmente necessária e admirável - certamente, este personagem, para os que conviveram com ele nos anos 1960 e 1970 em Niterói, será, no mínimo, irreconhecível, espantoso, inimaginável.

"Gentileza gera Gentileza" era apenas um bordão curioso, rítmico, consonante, entre muitos outros semanticamente desastrosos, que, agora, é apropriado e sacralizado pela academia, no meio de uma infinidade de locuções ora sem nexo e ingênuas, ora típicas de um alienado, de um esquizofrênico. Transformá-lo em taumaturgo de verdade, filósofo, profeta, poeta ou designer gráfico é possível. Basta abstrair, criativamente, essas categorias, reinventá-las como idéias e conceitos, manipulá-las, transportando-as da fragmentada e doentia personalidade do pobre José Datrino para qualquer território "sadio" e lógico. Pronto: eis o "profeta" e mais uma "filosofia".

Recentemente, veiculou-se até que música de Marisa Monte denominada Gentileza, constitui a primeira e única homenagem a José Datrino, uma descoberta da cantora e compositora. Não é verdade. Muitos anos antes, Gonzaguinha, também crente nesse humanismo importante e válido, porém fabricado por intelectuais, sem a autoria de Datrino e deste póstumo, foi o primeiro a cantar com ingenuidade o personagem, e com muito mais beleza e propriedade, ao compor a música Gentileza, incluída em seu CD Gonzaguinha Cavaleiro Solitário (Som Livre, 1993).

A tréplica:

"Profeta" Gentileza: uma criação acadêmica

Luiza Petersen
Professora

Marcelo Câmara
Jornalista e escritor

(Publicado no Jornal do Brasil,
edição de 8.3.2010,
no Primeiro Caderno)

Na edição do último dia 8 do JB, o texto Sempre é tempo do poeta Gentileza tentou anular o nosso artigo A verdade sobre o Profeta Gentileza, publicado oito dias antes. A empreitada foi desastrosa. A réplica, além de não ferir minimamente as nossas informações e argumentos, ao contrário, os robustece. O nosso artigo mostrou o comportamento agressivo e dantesco, o discurso moralista, medieval, apocalíptico, durante as décadas de 1960 e 1970 em Niterói, RJ, e nas barcas da Baía da Guanabara, do andarilho psicótico Gentileza (José Datrino, 1911-1996), transformado, postumamente, pela academia e pela mídia, em "profeta" e "poeta", pessoa doce e equilibrada, arauto da paz e do amor, pregador de um novo "humanismo", construtor de uma nova ordem social e econômica.

O replicador inicia o seu infausto périplo falando de "mitos", como se Gentileza, natural e sociologicamente o fosse, tal qual na visão filosófica e civilizatória de "história sagrada verdadeira", que o mestre Mircea Eliade nos ensinou há mais de quarenta anos. Em seguida, se pendura na palavra "verdade" contida no título do nosso artigo para dizer que "o mito Gentileza" não pode ser matéria de verdade. Não entendeu o sentido jornalístico da palavra com que a editoria do JB titulou o texto: real, realidade, evidência, "de fato", ocorrência. E ensaiou descambar para uma discussão filosófica, epistemológica e metafísica, inadequada neste espaço, sobre "verdade", esquecendo que a palavra tem várias semânticas e usos, desde nomear um famoso burro numa fazenda em Rio Claro, RJ, na década de 1960, até ser objeto de um tratado filosófico, passando pelo citado uso jornalístico e pelo registro coloquial: "Não é verdade?..." Ousa, ainda, atribuir-nos a inexistente adjetivação "verdade absoluta", locução que ele escreve, só aplicável aos que creem em Deus.

À demência do Gentileza, o replicante responde com bordões chistosos e rimados construídos e ditos pelo próprio Gentileza. Subestima a nossa lucidez e inteligência, de milhares de pessoas que conheceram e conviveram com Gentileza, ao afirmar que nós - seres inferiores, "céticos", integrantes da "plebe ignara" - vemos "o louco ao invés do profeta e o esquizofrênico ao invés do poeta". Só ele, o autor do artigo, vislumbra os profetas ("loucos de Deus", sic), consegue ver "o poeta" e "o profeta" no Gentileza. Ao constatar a proeza, eleva o pobre José Datrino ao nível dos grandes profetas da Humanidade como Buda, Moisés, Isaías, Jesus, Maomé, Malaquias, Zoroastro e Confúcio. O articulista, sábio e vidente, escolhido por Deus, e só ele, consegue ver o místico, o consolador, o revolucionário, o profeta e poeta no louco José Datrino.

Segundo o articulista, Gentileza teve "35 anos de missão profética" (?). E a "depurou" nesse período. Gentileza nunca profetizou coisa alguma. A sua única profecia era repetir, de forma agressiva e ameaçadora, o Apocalipse de João, o último livro da Bíblia. E a criar uma dezena de quadrinhas rimadas e chistosas sobre os "descaminhos do Homem" e as "obras do Capeta". Daí a entronizá-lo como manso e sábio profeta, a sublimá-lo como gentil e doce poeta - vão milhares de anos-luz de lesa-inteligência. A promoção de louco a profeta e poeta assim se deu: as palavras órfãs, as locuções mancas e os adágios rimados foram seletivamente pinçados, reescritos, elevados às categorias de idéias e conceitos. Em seguida, a manipulação e o transporte da fragmentada e doentia personalidade do pobre José Datrino para o território "sadio", lógico e "culto" da academia. Pronto: eis o "profeta" e mais uma "ideologia".

Sempre existiram personagens, loucos ou não, alcoólatras e abstêmios, semelhantes a Gentileza. Atualmente, centenas deles povoam as cidades e os campos deste País. Eu conheci vários, na capital e no interior fluminense, mais ou menos furiosos, mais ou menos originais, mais ou menos criativos, mais ou menos risíveis, mais ou menos instigantes. Todos podem ser objetos de estudo da Sociologia e da Antropologia. Mas isto não os transforma, necessariamente, em profetas ou poetas. Mas isto é possível, se alguém ou alguns quiserem.

Gentileza foi um andarilho urbano, que viveu legítima e intensamente sua "insanidade". Divulgou suas críticas ao "capetalismo", ao mundanismo feminino, ao consumismo em geral, pregou sua doutrina maniqueísta e escatológica, repetindo e criando palavras, locuções e aforismos - essenciais, vitais para ele, no seu mundo impenetrável - gravando-as em seu estandarte e nos viadutos do Rio. O seu grafismo não é tão original quanto se alardeia, revelando-se originário de uma cultura dos pára-choques de caminhões e das pinturas de paredes de botequins. O seu discurso, reverberante do Apocalipse de João e aterrorizador tal os sermões católicos medievais, é desarrazoado, contraditório, não traz novidades. Tudo isto não é suficiente para qualificá-lo como "poeta", ou "poeta popular". Ou canonizá-lo como profeta de um tempo, crítico sensato e justo de nossos males e crimes, filósofo revolucionário.

As deduções e elucubrações teóricas do replicador ratificam, inexoravelmente, que a louvável e necessária "ideologia" espiritualizada de convivência humana, de "regras do bem-viver", de paz, de amor, de cortesia e fraternidade atribuída ao psicótico José Datrino, não passa de uma criação, de uma sistematização e arquitetura exitosa da academia. O desarticulado e contraditório cipoal léxico criado por Gentileza foi matéria-prima para montagem arbitrária de uma "filosofia" e de um rol de "profecias" tão velhas e repetidas como o próprio homem, que tem mantido ocupado alguns intelectuais, feito a festa e o lucro de uma indústria criativa e pirata, de um comércio oportunista. Restam-nos os aforismos e as quadrinhas bem humoradas de uma figura patológica e pitoresca, respeitável como qualquer indivíduo. Mais do que isto é invenção, ficção, diversionismo intelectual.





Angra:
a cada verão, mais homicídios
cometidos pelos governantes

Marcelo Câmara

A primeira página da edição do Jornal do Brasil, de 3 de março de 1975, trazia os seguintes título e texto, uma "chamada" para uma matéria do jovem repórter Marcelo Câmara:

    Contenção de
    encosta atrasa
    a Rio-Santos

    Problemas de ordem geológica, co-
    mo a necessidade da construção de
    grandes muros para a contenção das
    encostas, uma orografia acidentada e
    um terreno quaternário em processo
    de decomposição, condições não pre-
    vistas pelas firmas construtoras es-
    tão atrasando a conclusão da Rodo-
    via BR-101, Rio-Santos;

    Os engenheiros argumentam que
    o terreno úmido conhecido como talus
    provoca um perigoso processo geoló-
    gico: gigantescas pedras se deslocam
    sobre blocos-matrizes, invadindo o lei-
    to da estrada. No trecho Rio-Angra
    dos Reis, túneis, pontes e viadutos, es-
    tão ainda em fase de acabamento, não
    se podendo prever, com exatidão, a
    data de sua conclusão. (Página 11)

A pauta foi sugerida pelo próprio Marcelo Câmara, um angrense, à chefia de reportagem do jornal. "E deu primeira página", vibrou-se. Na página 11, uma grande matéria, não assinada, com foto, também não assinada, do já veterano e competentíssimo Ronaldo Theobald. Note-se que no final da "chamada" está, indiretamente, o resumo da minha mensagem jornalística: A Rio-Santos jamais será inaugurada. E não foi. Até hoje. E por quê? Porque é uma estrada burra, irracional, criminosa. Destruiu cerca de cem praias, eliminou paisagens, destruiu fauna e flora terrestre e marinha, agrediu, tangeu ou deslocou sítios inteiros da Mata Atlântica e de plantações. Uma grande rodovia, de alta velocidade, destruidora, avassaladora, num litoral encantado, recortado de baías, enseadas, angras e sacos. Povoada de praias, natureza tropical, rica, plural, exuberante. Nunca a estrada está livre, limpa, desimpedida.

A estrada ideal, adequada, seria de baixa-velocidade, economicamente inteligente, acompanhando o recorte, o desenho do litoral, cheia de belvederes, de "paradas" para o visitante, o viajante, o turista ver, vislumbrar, sentir, parar, extasiar-se, fotografar, filmar, dormir, comprar, gastar, comer, beber, consumir, amar, voltar. A cada chuva, uma encosta, uma barreira cai, despenca, toma conta da estrada. A autoridade, se fosse inaugurá-la algum dia, correria o risco de morrer soterrada. Com a sua comitiva, é claro. Por isto, ela é a única grande estrada federal que nunca foi inaugurada. Nem será.

O terreno da Serra do Mar, de Mangaratiba a São Vicente, é, como escrevi, um terreno quaternário, em decomposição, com muita água, numa orografia muito acidentada, repleta de pedras imensas que se deslocam sobre blocos-matrizes. Há muita umidade, muita água no solo desse litoral. Na Costa Verde, em Angra, Paraty e Mangaratiba, as montanhas descem íngremes até o mar, as matas beijam o mar. Por isto, Costa Verde. A Mata Atlântica refletida no azul do mar. Em Angra, você pode tomar banho de cachoeira, banhar-se na água doce, dentro do mar. Na canoa. As montanhas da Costa Verde mergulham no mar. Elas estão sempre descendo, mergulhando no mar. Terra, mata e... os bananais. A bananeira, cultura perfeita e adequada à terra úmida e molhada, típica da região, afofa a terra, parece que encharca mais o terreno, umedece-o ainda mais, tornando-o fofo, areado, frágil, solto. E, em Angra, do Rio a Santos, parece que a banana é nativa. Os bananais têm séculos, se reproduzem naturalmente, como mato, relva, capim. Lúcio Costa escreveu que "Paraty" - cidade construída no fundo da baía, na planície, que mesmo não sofrendo com os desmoronamentos - "é a cidade onde os caminhos do mar e os caminhos da terra se encontram, melhor, se entrosam".

De novembro a abril, chove quase todos os dias entre Rio e Santos. Quase sempre, intensamente. Todos nós, caiçaras, mangaratibenses, angrenses, paratyenses, sabemos disto. Temos consciência dos perigos das chuvas, das marés, do vento sudoeste impiedoso, das mudanças bruscas no céu e na temperatura. As autoridades públicas também sabem. Ou fingem que não sabem.

Nós, angrenses (eu, às vésperas dos sessenta anos), cada um de nós, vivemos desde a infância, os horrores dos deslizamentos de terras nos morros de Angra dos Reis. Principalmente, e sempre, nos verões. Na cidade e na roça, nos distritos, nas praias, nas ilhas, nos costões, nas serras. Sempre as vítimas é o povo mais pobre, que não tem casa, não possui teto, que vive nos morros, pendurados, na periferia. Todo angrense, do indigente ao milionário, do trabalhador ao prefeito, sabe que, em Angra, naquela região, não se pode construir na encosta ou no sopé dos morros. Nem desviar riachos, mexer em águas. Não se movimenta terras sem uma reação imediata, feroz, da Natureza. Construir, com zelo e sob risco, somente em extensos platôs, em planaltos, tabuleiros. Ou em boas várzeas, planícies litorâneas. Mesmo sem construir, sem desviar córregos, escavar solos, os morros, as serras, as encostas desabam com as chuvas.

Desde criança, assisto a favelização constante de Angra dos Reis e as tragédias na minha terra. São milhares de vidas levadas nas enxurradas de lama e pedra. Famílias inteiras, idosos, crianças, jovens. Ninguém é responsabilizado. E continuam a construir, a se conceder "habite-ses" nos morros da Carioca, do Santo Antônio, do Carmo, do São Bento, da Caixa d'Água, do Abel, da Fortaleza, nos quinze morros da cidade. Também na Ilha Grande, na Gipóia, nas outras ilhas, nas encostas. E todo o ano, é a mesma cantilena, os falsos espantos. Promessas, promessas, promessas. Lamentações, decretação de luto e de estado de emergência e de calamidade pública, "as providências serão tomadas", blá, blá, blá... Onde estão o Código de Posturas e o Plano Diretor de Angra dos Reis? Por que não são cumpridas as legislações federal, estadual e municipal? E o Código Florestal? O que tem feito a defesa civil estadual e municipal? Como tem agido a fiscalização predial e ambiental? E o Projeto Turis, que disciplinou, na década de 1970, a ocupação do solo, a exploração sócio-econômica no litoral do Rio a Santos, uma das poucas realizações, sérias e positivas, dos governos militares? Onde está? Nos arquivos, no lixo, na memória dos que tiveram o privilégio de conhecê-lo antes de ser abandonado.

Onde estão os programas habitacionais, a infraestrutura urbana e rural, as moradias decentes, em locais seguros, minimamente dignas para o povo? Nada. Temos, sim, a cimentação de favelas, as pinturas das fachadas e dos barracos, a maquiagem falsa e barata. Os PACs eleitoreiros, barulhentos, caros, custosos e fraudulentos. Os homicídios ocorridos em Angra dos Reis foram cometidos pelas autoridades públicas: União, Estado e Município. E os três Poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário, os dois primeiros nos seus três níveis: federal, estadual e municipal. Desrespeito, atentado, morte à vida humana, crime contra a sociedade. Omissão, ação política criminosa, irresponsabilidade, procrastinação, corrupção, cegueira administrativa, genocídio continuado. Crime de lesa-humanidade.

Os governantes, do País, do Estado e do Município, atuais e anteriores, são os verdadeiros culpados pelas mortes, pelos homicídios, pelos cadáveres tirados da lama, por entre as pedras de Angra dos Reis.

"E ninguém foi preso" - a frase mais ouvida no País, desde a instalação da República. República que somos todos nós, que deveria ser de todos e por todos, como sonhou e lutou o maior dos republicanos, o angrense Lopes Trovão.





Metrô de Ipanema:
Cabral nega homenagem a Newton Mendonça

O governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, ignorou, não respondeu não comentou, nem ao menos considerou a solicitação do jornalista Marcelo Câmara, feita em setembro de 2009, por mais de uma vez, para que a Estação do Metrô de Ipanema, da Praça General Osório, na cidade do Rio de Janeiro, que foi inaugurada a 21 de dezembro de 2009, pelo presidente Lula, recebesse o nome do pianista e compositor Newton Mendonça (1927-1960), "o mais ipanemense dos artistas brasileiros". A proposta do biógrafo de Newton seria uma homenagem - ESTAÇÃO NEWTON MENDONÇA - à memória e à obra do artista carioca falecido prematuramente aos 33 anos, que não dá nome sequer a uma sala de aula na cidade.

Newton Mendonça é o genial compositor, com Tom Jobim, de Desafinado, Samba de uma nota só, Meditação, Discussão, Foi a noite, Só saudade, Caminhos cruzados, O domingo azul do mar entre outros clássicos e canções matrizes da Bossa Nova, além de uma obra de autoria exclusiva grande parte ainda inédita. A solicitação foi formalizada em carta fundamentada de três páginas, em nome da família do músico, de amigos e artistas contemporâneos que, com ele, construíram a Bossa Nova, e da comunidade do bairro. Newton Mendonça - ao lado de Tom Jobim, de quem foi primeiro e principal parceiro e com quem formou a mais importante dupla da Bossa Nova - e de Johnny Alf, outro amigo e precursor do estilo, é considerado por Câmara, "o principal compositor do gênero que abalou o País no final da década de 1950".

Estavam prontos, se consultados pelo Governador, para apoiar totalmente a idéia, como "justíssima, urgente e oportuna", entre outras personalidades da Cultura Brasileira: João Gilberto, Carlos Lyra, João Donato, Paulo Cesar Pinheiro, Luciana Rabello, Roberto Menescal, Tito Madi, Johnny Alf, Walter Lima Júnior, Nelson Pereira dos Santos, Juquinha Stockler, Cris Delanno, Gisele Martine, Thereza e Paulinho Jobim; os críticos Ruy Castro, Tárik de Souza, Nelson Motta, José Ramos Tinhorão e Zuza Homem de Mello; e os seus companheiros de juventude em Ipanema, o artista plástico Eduardo Sued, o poeta Moacyr Félix e o arquiteto Marcos Konder Neto.

Carta do neto de Newton Mendonça

Em virtude da proposta de Marcelo Câmara não ter sido sequer considerada e respondida pelo Governador, o jovem Victor Lopes de Mendonça, neto de NEWTON MENDONÇA, enviou, em nome da família, a seguinte carta, às seções de Cartas dos jornais O Globo e Jornal do Brasil, não merecendo publicação:

NEWTON MENDONÇA: MAIS UMA PUNHALADA

Rio, 21 de dezembro de 2009.

Surpresa e decepção. Estas são as palavras que podem expressar o sentimento da família do pianista e compositor carioca Newton Mendonça (1927-1960), diante do silêncio e indiferença de mais de três meses do Governador Sérgio Cabral Filho à proposta do jornalista Marcelo Câmara, biógrafo do genial artista carioca, primeiro e fundamental parceiro de Tom Jobim, para que a Estação Metroviária da Pça. General Osório, em Ipanema, recebesse o seu nome: ESTAÇÃO NEWTON MENDONÇA. A proposta, feita em nome da nossa família, dos artistas, seus contemporâneos, que com ele realizaram a Bossa Nova, e dos amigos e famílias ipanemenses, não foi sequer considerada e respondida pelo Governador, nem tão pouco levada em conta como sugestão de pauta por esse jornal.

Pianista revolucionário, compositor de vanguarda, Newton Mendonça, ao lado de Tom Jobim, é o criador dos principais clássicos da Bossa Nova como Desafinado, Samba de uma nota só, Meditação, Discussão, Caminhos cruzados, Foi a noite, Só saudade, O domingo azul do mar, entre outros. A sua pequena, magistral e importantíssima obra, é reconhecida, gravada e aplaudida em todo o mundo. Considerado "o mais ipanemense dos artistas brasileiros", o compositor nunca deu nome a uma rua, praça, a qualquer logradouro ou instituição pública ou privada, na cidade, no Estado ou no País. Seria uma homenagem justa, oportuna, urgente, perfeita a esse carioca que viveu quase toda a sua curta e produtiva vida em Ipanema, onde nasceram seus dois filhos - Fernando e Renato - e onde ele produziu, sozinho e com Tom Jobim, quase toda a sua brilhante obra, monumento da nossa Música Popular e da Cultura Brasileira.

Newton Mendonça jamais foi lembrado pelos seus conterrâneos e pelos governos, nunca teve o seu nome gravado em um lugar público. No entanto, tal indiferença é recebida por nós como mais uma ofensa à sua preciosa arte, mais uma punhalada que recebemos, na condição de seus herdeiros e guardiães da sua honra, obra e memória, cotidianamente reduzidas, corrompidas e agredidas por uma parte da mídia e por certos "historiadores".

Victor Lopes de Mendonça, neto de Newton Mendonça,
seu pai, Fernando Ferreira de Mendonça (in memoriam)
e sua mãe, Rosália Lopes de Mendonça.




Pela verdade,
em defesa de Câmara Torres

O portal paraty.com exibe, há anos, no link

http://www.paraty.com/index.php?option=com_content&task=view&id=363&Itemid=132

a reprodução digital de uma medonha e desataviada matéria intitulada Diuner Melo resgata obra de Samuel Costa, publicada no jornal O Paratiense, de maio de 2001. O texto, de autoria de Lia Capovilla, contem uma série de inverdades, tolices e omissões, ditas ora pelo entrevistado, ora pela entrevistadora, que atingem a honra e a memória de José Augusto da Câmara Torres, bem como a História de Paraty.

O jornalista e escritor Marcelo Câmara, filho de Câmara Torres, ao tomar conhecimento da matéria, escreveu, em junho de 2008, à editoria do portal, solicitando a sua correção. A princípio, a editora do site, que também é autora da matéria, considerou pertinente o pedido de Marcelo para que as correções fossem feitas e lhe escreveu dizendo que "caso tenha interesse em apresentar seu parecer (sic) sobre o assunto, teremos o maior prazer em publicar". Engano.

Em julho de 2008, Marcelo enviou carta à editora corrigindo os erros da matéria. Aguardou semanas pela publicação e... nada. Silêncio. No mês seguinte enviou novamente a carta, reiterando a publicação. De novo, o silêncio. Até hoje, 22 de outubro de 2009.

Como a desatenção e o desrespeito são continuados, quando a carta e o silêncio do portal caminham para o segundo aniversário, Marcelo Câmara, independente de medida judicial que possa vir a tomar, resolve divulgar, abaixo, a censurada carta e envia-la para todos que conheceram a vida e a trajetória do íntegro e brilhante Homem Público.

Eis, a seguir, a carta que, finalmente, deixa de ser inédita e restaura a verdade histórica, e o perfil Câmara Torres e Paraty, escrito por Marcelo Câmara, logo após a morte de seu pai.



Rio de Janeiro, 8 de julho de 2008.

A Senhora Lia Capovilla
Portal paraty.com


Senhora Editora,

A matéria Diuner Melo resgata obra de Samuel Costa exibida no site possui diversos equívocos, desvios e omissões.

Inicialmente, vamos aos equívocos, confusões e desvios:

1 - José Augusto da Câmara Torres (1917-1998), jornalista, educador, advogado e político, o maior líder comunitário e político de Paraty e do Extremo Sul Fluminense no Século XX, apesar de militar profissionalmente no Jornalismo por mais de vinte anos ininterruptamente, de 1930 (como editor de um jornal, em sua terra natal, quando contava apenas doze anos de idade) até o início da década de 1950 (como secretário e colunista da Folha de Angra) - nunca foi detentor de título de jornal ou proprietário de empresa jornalística em Paraty. Em 1922, quando os artigos de Samuel Costa foram publicados em A Razão, Câmara Torres não morava em Angra dos Reis. Era um menino de quatro anos e vivia em Caicó, RN. Somente em 1942, o jovem José Augusto, ainda acadêmico de Direito, depois de ser aprovado em concursos públicos, com defesa de teses, para Técnico de Educação e para Inspetor Escolar, foi nomeado Chefe da Inspetoria da Primeira Região Escolar, que abrangia Angra dos Reis, Paraty, Rio Claro e Mangaratiba. No final de 1942, Câmara Torres conhece Paraty e publica, no principal jornal do Estado, dois artigos sobre o Município. Câmara Torres somente ingressa na Política em 1954, quando se licencia do cargo de Inspetor Escolar e se elege Deputado Estadual pela primeira vez, cumprindo, a partir de então, sucessivos mandatos até 1970. Portanto, em síntese: Câmara Torres nunca foi dono de jornal em Paraty, muito menos em 1922. E jamais atuou simultaneamente como Chefe da Inspetoria Escolar e Deputado, o que era, e é, além de ilegal, impossível.

2 - As coleções de jornais antigos de Paraty, em 2001, ano de divulgação da matéria, não estavam em Niterói, mas no Rio de Janeiro desde 1996, com o filho do Doutor Câmara Torres, o jornalista, escritor, editor e consultor cultural Marcelo Câmara. As coleções foram construídas pelo Doutor Mário Moura Brasil do Amaral, e adquiridas pelo Doutor Câmara Torres da filha do primeiro, a Doutora Maria de Lourdes Amaral. Trata-se de um acervo único, valiosíssimo para a História de Paraty, um bem particular, de propriedade e em poder do Doutor Marcelo Câmara, que o guarda, o preserva e, atualmente, nele estuda e pesquisa, servindo-lhe de preciosa fonte para os seus trabalhos como historiador e intelectual que é, interessado na História e na Cultura de Paraty, com vasta produção publicada (vide www.ilhaverde.net). Marcelo possui, além do citado acervo, coleções de todos os jornais editados posteriormente em Paraty, dos anos de 1940 até hoje, material reunido por Câmara Torres e por ele próprio. Seguindo recomendação de seu pai, e obediente à sua consciência e responsabilidade, na condição de Cidadão Paratyense, amante e defensor da História e da Cultura de Paraty, Marcelo Câmara pretende doar a Paraty, para fins de digitalização, todos os volumes do antigo acervo, bem como as coleções de jornais dos últimos setenta anos, além dos documentos dos arquivos, dele e de seu pai, sobre a História recente de Paraty - material adquirido, reunido, classificado e conservado por ambos. Isto será feito, ainda por orientação de seu pai, somente quando Paraty possuir uma instituição cultural séria, respeitável, segura, dotada de sistemas de preservação e administração de arquivos, dirigida por profissionais honrados, habilitados e competentes, capazes de gerir, com eficiência e eficácia, todo o material. O desejo, o objetivo de Câmara Torres e de Marcelo Câmara, é que a população de Paraty, estudantes e profissionais, a cidadania sem restrições, toda a sociedade, estudiosos e pesquisadores de toda parte, tenham livre e democrático acesso a esse valiosíssimo acervo histórico e cultural, que, afinal, de direito e com justiça, pertence ao Povo de Paraty, que dele deverá ter a eterna guarda e administração.

3 - Câmara Torres não "se sentia guardião da história da cidade", como afirma leviana e ironicamente, o entrevistado travestido de "historiador". José Augusto da Câmara Torres, como Samuel Costa e Mário Moura Brasil do Amaral, não apenas "se sentia", mas ele foi, efetiva e indubitavelmente, um guardião da história, da cultura, dos direitos e dos interesses da Cidade, do Município, do Povo de Paraty. Câmara Torres, enquanto viveu e trabalhou em Paraty, foi o mais importante realizador, apoiador, animador da História e da Cultura de Paraty. Como educador de grandes obras, homem de pensamento e cultura, advogado militante por mais de cinqüenta anos, político leal e dedicado às comunidades do Município, lutou sempre e foi o mais intrépido e intransigente defensor dos valores, das referências, do patrimônio material e imaterial de Paraty, da memória e da identidade da gente paratyana. As suas realizações e conquistas em favor da História e da Cultura de Paraty estão detalhadas no perfil abaixo. E, também, na matéria intitulada Casa de Cultura Câmara Torres - Povo de Paraty homenageia o seu maior líder no Século XX (Jornal de Paraty, Ano XXI, nº 461, de 24 30 de maio de 2005.)

Quanto às omissões da matéria.

Sobre o livro, então lançado, Paraty no Anno da Independência - Outros Textos e Poemas (Seleção e organização de Diuner Mello), faltou à matéria informar que, pioneiramente, quem "resgatou" a figura, a obra, a vida pública, profissional, política, intelectual e literária de Samuel Costa foi Câmara Torres, que descobriu, elevou e apresentou Samuel Costa às gerações paratyenses que o sucederam. Câmara Torres lançou Samuel Costa para o mundo. Para citar apenas três fatos promovidos por Câmara Torres:

   - Construiu o Grupo Escolar da cidade denominando-o "Samuel Costa". Na inauguração, a 18 de novembro de 1948, data de aniversário de Samuel Costa, divulgou, numa belíssima oração, a primeira biografia do ilustre paratyense, escrita por ele.

   - Reuniu, editou e prefaciou, pela primeira vez, em 1973, os sonetos de Samuel Costa, escritos no final da vida do paratyense, de 1928 a 1930.

   - Como presidente da Subseção da Ordem dos Advogados - OAB - de Angra dos Reis, criou e instalou, nos anos 1980, a Subseção da OAB de Paraty, dando à nova unidade o nome de Samuel Costa, homenageando-o mais uma vez.

A primeira e única biografia de Samuel Costa escrita por Câmara Torres está, na íntegra, no livro, objeto da matéria. E a matéria não informa. O livreto com os sonetos de Samuel Costa, editados e prefaciados por Câmara Torres, estão reproduzidos, na íntegra, no livro. E a matéria não informa.

Era o que me cabia, por honra e dever, corrigir e a informar.

Agradece, cordialmente,

Marcelo Câmara



CÂMARA TORRES E PARATY

José Augusto da Câmara Torres (1917-1998), jornalista, educador, advogado e político, foi, do Século XX, o mais importante líder político e comunitário de Paraty e do extremo sul fluminense. Em quatro legislaturas consecutivas, e com votações crescentes, de 1954 a 1970, cumpriu mandatos na Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, representando, prioritariamente, o povo de Paraty, Angra dos Reis, Rio Claro e Mangaratiba. Ocupou, ainda, as Secretarias de Estado do Interior e Justiça e de Serviços Sociais, e foi membro do Conselho Estadual de Educação. Era considerado um dos maiores especialistas e executivos em Educação e um dos mais brilhantes advogados do País, destacadamente nas áreas do Direito Civil e do Direito Constitucional. Na sua carreira política, sempre recebeu votos em todos os municípios fluminenses, porém a sua base eram os municípios de Angra dos Reis e Paraty, onde Câmara Torres militou politicamente por mais de quarenta anos, recebendo dos paratyenses votações maciças, que chegaram a ultrapassar os 90 por cento dos votos válidos. Em toda a história constitucional do País, três deputados representaram Paraty: os dois primeiros foram os paratyenses de nascimento José Luiz Campos do Amaral no Império, e Samuel Costa na primeira República; o último foi o paratyense honorário José Augusto da Câmara Torres.

Em Paraty, advogou por mais de meio século, trabalhou como Chefe da Inspetoria Regional de Ensino e como Técnico de Educação, sendo o responsável pela instalação e ampliação de toda a rede de educação pública do Município. De 1942 até a sua morte em 1998, ele foi o protagonista das grandes conquistas sócio-culturais e econômicas de Paraty e da região. Era aposentado como Consultor Técnico Estadual de Educação e como advogado, viúvo da professora Gertrudes Nóbrega da Câmara Torres - a Dona Tudinha - mestra de gerações de angrenses, falecida em 1989. Sua casa, primeiro em Angra, depois em Niterói, sempre foi chamada de "a embaixada de Paraty", aberta aos paratyenses de todas as classes sociais e cores políticas. Na cidade de Paraty, possuía uma casa onde, ele, juntamente com os filhos e netos, conviveu, até os seus últimos dias, com o povo de Paraty.

Fiel e dedicadíssimo à comunidade paratyense, Câmara Torres, para desespero dos angrenses, dizia que o seu coração "era paratyense", entregando a este Município, com elevada dignidade e correção, mais de cinqüenta anos de vida pública. Durante todo esse tempo, não houve iniciativa ou conquista para o povo de Paraty e da região que não contasse com a sua liderança ou participação decisiva. Por isto, Paraty muito lhe deve como educador e político de muitas lutas e grandes realizações. Ergueu e inaugurou, em 1948, o Grupo Escolar Samuel Costa, na sede do município, e, de 1942 a 1953, além de construir toda a rede de educação pública do município, triplicou o número de escolas e de matrículas do ensino fundamental. Criou a merenda escolar em Paraty e em todo o sul do Estado, e participou decisivamente da implantação dos cursos de segundo grau no município e na região. Levou a Educação aos pontos mais distantes de Paraty e de todo o extremo sul fluminense, legislando intensa e continuadamente na Assembléia Legislativa nas áreas da Educação, da Cultura e da Ecologia. Pugnou, com altivez, pelo ensino público de qualidade e pela valorização dos professores. Até a sua morte, foi "o deputado das professoras", "o político da educação pública", um batalhador pelo ensino público de qualidade e por condições dignas de trabalho para os profissionais da educação. Por sua obstinada e desvelada dedicação ao povo paratyense, a Imprensa algumas vezes o criticava pejorativamente como sendo "o faz-tudo do povo de Paraty".

EDUCAÇÃO E CULTURA

Nascido em Caicó, no Rio Grande do Norte, José Augusto da Câmara Torres chegou a Niterói com 13 anos, já com experiências no jornalismo, revelando-se precocemente um intelectual de talento, orador, ensaísta e líder estudantil católico. Na juventude, fundou e editou jornais e dirigiu instituições culturais em sua terra natal e em Niterói. Foi aluno do Colégio Salesiano Santa Rosa e do Liceu Nilo Peçanha, formando-se pela Faculdade de Direito de Niterói. Lecionou História do Brasil, Língua Portuguesa e Literatura nos Colégios Salesiano, Icaraí e Nossa Senhora das Mercês. Em 1939, foi aprovado em rigoroso concurso público de provas e títulos, quando defendeu tese, escrita e oral, sob o tema Educação Moral e Cívica, sendo nomeado Inspetor Regional de Ensino, e designado, em 1942, para a chefia da 1ª Inspetoria Estadual de Ensino, no extremo sul fluminense, com sede em Angra dos Reis, onde, recém-casado, foi residir. Dois anos depois, é novamente brilhantemente aprovado, também com defesa de tese, oral e escrita, sob o tema A Inspeção Escolar na Escola Primária, em concurso público de provas e títulos para as funções de Técnico de Educação do Estado do Rio de Janeiro.

Em poucos anos, revoluciona a educação em Paraty e em todo o extremo sul do Estado, construindo e ampliando toda a rede pública de ensino, introduzindo uma moderna gerência de administração escolar, novas técnicas de ensino e metodologias didático-pedagógicas de vanguarda, que valorizavam o professor, as culturas locais e integravam a comunidade à escola. Introduziu a merenda escolar em toda a região, que encontrou com pouco mais de trinta escolas, deixando-a, em 1953, com mais de uma centena de unidades. Triplicou o número de crianças matriculadas na região, de 2 mil para 6 mil estudantes. Promoveu, ainda, um intenso movimento cívico e cultural em Paraty e em todo o litoral sul-fluminense, ajudando, decisivamente, na criação de ginásios, cursos de segundo grau, profissionalizantes e extracurriculares, além da realização de exposições, semanas de estudos pedagógicos, entre outros eventos que marcaram época. Nunca o ensino público atingiu níveis tão altos de qualidade, de proficiência e eficácia em Paraty e em todo o extremo sul fluminense.

José Augusto da Câmara Torres foi, fundamentalmente, um homem de Cultura. Mais que isto, um homem da Cultura Fluminense, da Cultura Paratyense. Seu curriculum profissional nos apresenta um trabalhador intelectual fértil, produtivo e brilhante: jornalista profissional aos treze anos, liderança estudantil e tribuno desde os quinze, professor aos dezoito, escritor de obra reconhecida e técnico de educação aos vinte e dois anos. Depois, advogado, jurista, político. Câmara Torres não foi apenas um homem de Cultura, um homem da Cultura, uma personalidade do Jornalismo, das Letras, do Magistério, da Política, da Advocacia Fluminense. CÂMARA TORRES FOI UM HOMEM DA CULTURA PARATYENSE, um operoso criador, um notável agente que realizou, difundiu e desenvolveu a Cultura da terra de Samuel Costa. Seu espírito humanista, seu trabalho cívico, comunitário e político em favor da Cultura em Paraty, estão em cada rua da cidade, em cada praia, nas matas, lavouras e grotões do município, onde, semeou fé e esperança, plantou escolas, alfabetizou, formou e ensinou cidadania a milhares de crianças e jovens. Cada escola que construiu transformou-se em um centro de realização e promoção cultural, onde a história, o patrimônio, as referências, o homem paratyense eram valorizados e promovidos, em sintonia com a história do Estado e da Nação.

No Estado do Rio e em Paraty, Câmara Torres empreendeu inúmeras ações culturais, associando-se a instituições e lideranças da terra para atuar como o estudioso, o professor, o administrador, o político, que empreendeu, gerenciou e sustentou inúmeros projetos culturais. Na sua condição de educador e político, idealizou e apoiou muitos eventos, foi um ágil e produtivo animador cultural, um realizador bem sucedido, catalizando interesses, sentimentos e aspirações da gente paratyense, transformando sonhos em obras, em fatos culturais de relevância. Câmara Torres foi um estudioso e um tenaz defensor, como educador, advogado e político, do patrimônio cultural de Paraty. Por mais de cinqüenta anos, ele foi o grande incentivador e apoiador das manifestações populares e folclóricas em Paraty, suas festas e celebrações religiosas e profanas. Câmara Torres foi o interlocutor, antes de 1950, do grande Luís da Câmara Cascudo, membro ilustre de sua família, promovendo o diálogo entre o Governo do Estado do Rio de Janeiro e a União, visando aos primeiros apoios e estímulos à pesquisa e aos estudos do Folclore fluminense, que resultaram na criação da Comissão Fluminense do Folclore. Na década de 1960, Câmara Torres trouxe a Paraty o seu amigo e grande folclorista Edson Carneiro, liderando um grupo de pesquisadores de prestígio nacional, para conhecer in loco expressões do Folclore Paratyense, depois registradas em artigos e ensaios editados em revistas especializadas. Em 1960, afirmou-se como o grande apoiador das comemorações dos Trezentos Anos de Paraty, e, também, em 1967, como um dos principais realizadores dos festejos do Tricentenário da Vila de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty. Por iniciativa de Câmara Torres, nasceram o brasão e a bandeira do município, criações do seu amigo e famoso heraldista Alberto Lima. Todas as instituições sócio-culturais e esportivas de Paraty sempre tiveram nele um amigo valioso, um apoiador incansável.

O seu notável trabalho como técnico de educação em Paraty, o seu fecundo munus político de deputado estadual e dirigente partidário, fizeram de Câmara Torres o orador dos grandes eventos, das inesquecíveis efemérides. Foi o grande incentivador dos estudos sobre a História e a Cultura de Paraty, sobre nós mesmos, sobre o nosso lugar, o nosso papel na vida nacional, os fatos e processos acontecidos na terra de Domingos Gonçalves de Abreu. A inauguração de cada uma das dezenas de escolas que construiu em Paraty traduzia-se numa festa cultural, popular, democrática, onde Câmara Torres ministrava uma aula sobre o patrono de cada unidade, convocava os paratyenses para a sua História, para o exercício da cidadania social e política, práticas tecidas na pesquisa, na reflexão e na ação, a partir de Paraty, a partir da sua gente e da sua História. No seu tempo, cada escola de Paraty, era um centro comunitário de atividades culturais, a célula de uma biblioteca e espaço para as atividades artísticas e profissionalizantes. Câmara Torres criou a rotina de trazer personalidades da Cultura Brasileira para falar ao povo, aos estudantes, aos professores. O seu objetivo era estimular o conhecimento e a auto-estima dos paratyenses, favorecer a consciência e a responsabilidade sócio-cultural e política de cada um e de todos.

A partir de 1942, o tema "Paraty" vai ocupar, prioritária e majoritariamente, a agenda de Câmara Torres, vai habitar toda a sua obra divulgada e publicada, no Jornalismo, na Educação, na Ensaística, na Política. Isto porque, naquele ano, ele visita Paraty pela primeira vez, se apaixona pela terra, e publica em sua coluna Hora Fluminense, em O Estado, de Niterói, o mais importante jornal à época, um denso e informativo artigo, tratando da problemática sócio-econômica do município, das suas belezas e das potencialidades de Paraty, antevendo-lhe um destino promissor nos campos cultural e turístico. É de sua autoria o primeiro e mais importante perfil biográfico de Samuel Costa, a belíssima e memorável oração que pronunciou quando da inauguração do Grupo Escolar, a 18 de novembro de 1948, na condição de Técnico de Educação e Chefe da Inspetoria Regional de Ensino, no 66º ano de nascimento do ilustre paratyense. Publicou na revista literária Bando, de Natal, Rio Grande do Norte, a única e histórica crônica que narra a morte, em 1944, em Angra dos Reis, do grande Alberto Maranhão, estadista da Primeira República, que após a Revolução de 1930, vive em Paraty, por longos anos. Reuniu e editou, pela primeira vez, em 1973, os poemas de Samuel Costa, escrevendo a introdução à antologia. Também prefaciou as obras Paraty - Caminho do Ouro, de Heitor Gurgel e Edelweiss Amaral, e Silvio Romero, Juiz, de José Alberto da Silva, livro que narra a vida do grande sergipano como "Juiz Municipal do Termo de Paraty", de 1877 a 1879.

Como jornalista, professor, advogado e político, em toda a sua vida acadêmica e profissional, em mais de setenta anos de ininterrupta atividade intelectual, publicou livros e centenas de artigos e ensaios nas áreas da Literatura, da História, da Educação e do Direito, além de trabalhos nos campos do Folclore, da Sociologia e da Política. Até a sua morte, participou, ativamente, de diversas instituições e movimentos culturais que agitaram Paraty, muitas vezes fundando entidades e dirigindo campanhas comunitárias.

DOAÇÃO E SERVIÇO

Afora o seu ingente trabalho, por mais de quarenta anos, como líder e arauto das grandes causas da gente paratyana, não há cidadão ou família em Paraty que não reconheça e não deva a Câmara Torres, uma atitude, um empenho, um gesto, pelo menos uma palavra de compreensão e apoio, em defesa de um direito ou benefício pessoal ou coletivo. Em Paraty, os órgãos e os serviços públicos devem muito à ação contínua e persistente de Câmara Torres, tanto na Assembléia Legislativa, como junto a órgãos estaduais, federais e internacionais. Durante o tempo em que foi deputado, viabilizou os governos dos prefeitos de Paraty, municipalidade pobre, sem recursos, prestando-lhes toda a assistência e apoio, para bem e produtivamente desempenharem os seus mandatos. No final da década de 1960, o Projeto Turis, da Embratur, que tratava da ocupação racional e ecológica do litoral do Rio a Santos, teve em Câmara Torres um defensor corajoso e tenaz. O Plano Integrado de Paraty patrocinado pela União Federal, germinado na Unesco, órgão da ONU, nasceu das idéias e das ações de Câmara Torres em vários fóruns regionais e nacionais nos anos sessenta e sessenta, resultado do seu trabalho contínuo pela integração do município ao Estado do Rio e pelo desenvolvimento auto-sustentável de Paraty.

Lutou, politicamente, sem pausa, por mais de três décadas, inicialmente pela abertura, depois pela conservação, tráfego regular e pavimentação da estrada Paraty-Cunha. Lutou, incansavelmente, nos níveis estadual e federal, mobilizando até organismos e recursos internacionais, para o asfaltamento da estrada, chegando mesmo a obter compromissos formais de governadores, ministros de Estado e a celebração de contratos entre o Governo do Estado e construtoras, os quais sucessivos governos federais não permitiram que fossem cumpridos. Foi o grande responsável pela abertura da Estrada Angra dos Reis-Paraty e, depois, pela Rodovia Rio-Santos, com outro traçado, é verdade, mais inteligente e preservacionista. Dedicou-se, também, durante toda a sua vida pública, pela manutenção do Serviço de Navegação Sul Fluminense, que oferecia transportes às comunidades da Baía da Ilha Grande. Criticou, durante anos, o funcionamento do presídio na Ilha Grande, que segundo ele, "contrariava as vocações ecológicas e preservacionistas daquele patrimônio, expondo-o a toda sorte de perigos e agressões".

Como parlamentar, atuou e legislou destacadamente na área social, em favor da região que representava, especialmente na Educação, Cultura, Saúde, Saneamento, Transportes, Turismo e Ecologia. Promoveu esforços bem sucedidos para implantação e melhoria dos serviços de saúde, saneamento, energia elétrica, transportes e telecomunicações em Paraty e em toda a região. Planejou e viabilizou, como Secretário do Interior e Justiça, a construção do Fórum Silvio Romero, cujo nome foi dado por ele. Criou a Subseção da Ordem dos Advogados de Paraty, instalou-a no edifício do Fórum, dando-lhe o nome de Samuel Costa. Empenhou-se pela manutenção e melhoria do campo de aviação de Paraty, pois foi um pioneiro do transporte aéreo no extremo sul do Estado, construindo, inclusive, com recursos próprios, o Aeroporto de Angra dos Reis. Idealizou e coordenou, em 1970, a Operação Trindade, primeira ação integrada do Estado no sentido da integração e desenvolvimento sócio-econômico sustentado da comunidade da Praia da Trindade. Foi o autor da lei que remunerava e dava tratamento especial aos profissionais da Educação designados para trabalhar nas escolas oceânicas, de difícil acesso de Paraty. Irmão e Procurador da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Paraty, era, também, membro da Associação de Caridade São Vicente de Paulo, que mantém o Asilo de amparo à velhice.

Cristão e solidário, generoso em todos os seus atos, Câmara Torres jamais deixou de ouvir ou atender qualquer um do povo que o procurasse, fosse ou não seu eleitor ou amigo. Na política, teve adversários, jamais inimigos. Na advocacia, contendores que o admiraram, nunca debatedores odientos. Morreu pobre, sendo visto por correligionários e adversários políticos, como "uma legenda moral de honestidade e trabalho, de doação às causas populares, que fazia dele um homem público por excelência, honrado, leal, destemido e produtivo, com inestimáveis serviços prestados à Paraty e ao Estado do Rio de Janeiro". Os cientistas políticos poderão ver Câmara Torres como "um homem público com uma inexcedível capacidade de doação, um político com uma dimensão humana e social insuperável". Deixou oito filhos, quatorze netos e uma legião de amigos e admiradores no Estado e no País. Entre os seus filhos estão o jornalista, escritor, consultor cultural e consultor legislativo do Senado Federal (aposentado), Marcelo Câmara, considerado um paratyense, tamanha é a sua identidade com a gente e a cultura do lugar, e o arquiteto, Marcos Câmara, servidor da Prefeitura de Niterói. Marcelo Câmara, que sempre desenvolveu intensa e múltipla atividade intelectual, herdou, ainda em vida do pai, a rica biblioteca de Câmara Torres, com importantes e raras obras jurídicas, de História, Educação, Literatura, Ciências Políticas e Sociais, e o seu monumental arquivo profissional e pessoal, onde está registrada toda a sua vida como jornalista, educador, advogado e político, inclusive a sua correspondência com líderes e famílias de Paraty, da região, e com personalidades da vida fluminense e nacional, estas desde os anos vinte até a sua morte.

LIDERANÇA POLÍTICA

Em meados da década de 40, Câmara Torres já era uma vigorosa e irreversível liderança regional. Com a redemocratização do País, em 1945, ingressa no Partido Social Democrático - PSD, e, cinco anos depois, é um dos fundadores e dirigente do Partido Social Progressista - PSP, elegendo-se, por essa legenda deputado estadual em 1954 e, por mais doze anos consecutivos. Funda os diretórios municipais do PSP em Paraty, Angra dos Reis, Rio Claro e Mangaratiba e é eleito Secretário-Geral do partido no Estado do Rio. Em 1958, foi um dos principais articuladores da coligação PSP-PTB-UDN, que levou o amigo e companheiro de lutas estudantis e políticas, Roberto Silveira, ao Governo do Estado. Em 1959, exerce as funções de Primeiro Secretário da Assembléia Legislativa. No Governo de Geremias de Matos Fontes, ocupa, por alguns meses, a Secretaria de Estado do Interior e da Justiça, onde realiza profícua administração, erguendo fóruns em vários municípios, assistindo e modernizando as prefeituras municipais e revolucionando o sistema penitenciário, com a implantação de projetos pioneiros da educação formal e profissional nos presídios. Em sua gestão, obteve, pela primeira vez, em mais de sessenta anos de tentativas frustradas de tantos governos, a devolução, por parte do então Estado da Guanabara, das áreas, prédios e benfeitorias, onde funcionavam o Presídio do Abraão e a Colônia Penal Dois Rios, na Ilha Grande, não se concretizando a transação, por conta da sua saída da Secretaria, e de sua volta à Assembléia Legislativa.

Mesmo ingressando na Aliança Renovadora Nacional - ARENA, após o golpe de 1964, lutou, durante o regime militar, contra a instalação da usina nuclear na Praia da Itaorna, em Angra e esteve preso no Colégio Militar, sendo libertado após dez dias de detenção, sem qualquer acusação formal, com um pedido de desculpas do então comandante da unidade. Antes, fora acusado em Inquérito Policial Militar, por ter intervindo em favor da liberdade e integridade de líderes políticos e comunitários de Paraty, uns presos, outros perseguidos pela Ditadura, a maioria deles, seus adversários políticos. Em 1970, foi o único deputado estadual da ARENA a concorrer a uma vaga na Câmara Federal, não logrando êxito, apesar de expressiva votação, o que o colocou numa primeira suplência por quatro anos, levando-o a um longo jejum eleitoral. Em 1971 assumiu a Secretaria de Estado de Serviços Sociais, iniciando um trabalho em várias frentes, de grande repercussão, com projetos de vanguarda dirigidos aos marginalizados, crianças e idosos, aos portadores de deficiência física e mental, apoiados por governos e instituições estrangeiras e internacionais. Isto provocou inveja e intriga em setores do poder, sendo demitido por exigência da chamada "linha dura" do regime que infelicitava o País. Em 1986, após dezesseis anos afastado das disputas eleitorais, amigos de Angra e de Paraty lançam o seu nome à Assembléia Legislativa pelo Partido Democrático Social - PDS. Obtém 5 mil votos, é o candidato à Assembléia Legislativa mais votado em Paraty. Entretanto, não se elege, abandonando definitivamente a Política. Com sabedoria e prudência, presidiu o PSP, a ARENA e o PDS, de Angra dos Reis.

Do início dos anos 40 até a década de oitenta, não houve empreendimento público, comunitário ou privado em Paraty e no extremo sul do Estado no qual a competência de Câmara Torres não estivesse presente. Visionário, homem de vanguardas, espírito empreendedor, de convergências e de conciliação, sempre liderou ou, pelo menos, influiu, decisivamente, no progresso de Paraty e de toda a região. Mesmo nas iniciativas privadas, onde o interesse e os direitos do povo da região estiveram em jogo, como a instalação dos Estaleiros Verolme, em Angra dos Reis, ou os grandes projetos turísticos na Costa Verde, lá estava a presença dinâmica e articuladora de Câmara Torres resolvendo, incentivando, apoiando, realizando, sempre zelando pelas comunidades, seus valores, direitos e patrimônios.

Além de criar e expandir toda a rede de educação pública no sul fluminense, a região lhe deve a edificação das matrizes do seu desenvolvimento sócio-econômico, político e cultural, além de conquistas na saúde, nos transportes, no saneamento, na preservação ambiental, no turismo e outras áreas de atuação do Poder Público. Entre aos benefícios regionais alcançados graças ao trabalho incansável de Câmara Torres, além daquelas já apontadas, está a conservação das estradas Paraty-Cunha e Rio Claro-Mangaratiba. Sócio Remido e Vice-Presidente do Aero-Clube do Estado do Rio de Janeiro, foi um pioneiro do transporte aéreo no Sul Fluminense, onde realizou os primeiros vôos em Angra dos Reis e em Paraty, para acudir a população que precisava de atendimento médico de urgência, favorecendo, também, a ida constantes de servidores e autoridades públicas ao município.

JORNALISTA E ESCRITOR

Aos onze anos de idade, José Augusto da Câmara Torres já era um jornalista profissional, quando fundou e dirigiu o veículo estudantil O Ideal da Juventude, em sua terra natal. Mais tarde, também fundou e dirigiu, em Niterói, os jornais Espumas e A Ordem. Antes, no Colégio Marista, em Natal, colaborou no Sete de Setembro. Jovem, militou politicamente ao lado de Alceu de Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, Dayl de Almeida, José Arthur Rios, os irmãos Badger e Roberto Silveira, Celso Peçanha, Anselmo Macieira, Vasconcelos Torres, entre outros. Em Niterói, pertenceu ao Centro de Cultura José de Anchieta, do Colégio Salesiano Santa Rosa, e foi um dos fundadores da Congregação Mariana, presidindo a Academia São Francisco de Sales, braço cultural da Congregação. Escreveu em jornais e revistas, entre eles, Taba, O Gládio e Ariete. Assinou, na década de 40, a coluna Hora Fluminense, espaço nobre na primeira página do diário O Estado, então o maior jornal da Velha Província. Foi redator do antigo Serviço de Propaganda e Turismo do Governo do Estado e da Revista Potiguar, no Rio. Foi membro da Associação Fluminense de Jornalistas e da Associação de Imprensa Periódica Paulista. Em 1939 e em 1944, respectivamente, circulam, com tiragens restritas, nos meios acadêmicos e técnicos da Educação, as duas monografias, teses de sua autoria, apresentadas em concursos públicos: Educação Moral e Cívica e A Inspeção Escolar na Escola Primária.

Aos 22 anos publicou, com Dayl de Almeida, Imortais, livro de ensaios, com prefácio de Alcebíades Delamare. Publicou, ainda, diversos trabalhos de História, Ciência Política, Educação, Folclore e Crítica Literária. Entre esses, destacam-se os estudos pioneiros sobre o paratyense Samuel Costa (1948), já citado, e sobre o angrense Lopes Trovão (1953). Pertencia ao Instituto Histórico e Artístico de Paraty. Era Membro Correspondente da Academia Fluminense de Letras e do Ateneu Angrense de Letras e Artes. Integrava a Academia Valenciana de Letras, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, a Associação Brasileira de Escritores, entre outras entidades culturais. Possuía os títulos de Cidadão Paratyense, outorgado em 1960; de Cidadão Fluminense, do antigo Estado do Rio de Janeiro, de Cidadão Honorário do Estado do Rio de Janeiro, do atual Estado do Rio de Janeiro, e de outros cinco outros municípios fluminenses. Foi agraciado com a Medalha do Centenário de Silvio Romero (1939), pelos seus trabalhos sobre o escritor, com a Medalha do Cinqüentenário da República, e com a Medalha Tiradentes, da Assembléia Legislativa do atual Estado do Rio de Janeiro, entre dezenas de outras insígnias. Em Angra dos Reis, presidiu a Subseção da OAB e foi eleito pelos seus colegas de profissão "O Advogado do Ano" por mais de uma vez. Pertenceu a entidades religiosas de Paraty e de Angra dos Reis, sendo, também, Benemérito de dezenas de instituições sócio-culturais, filantrópicas e desportivas. Foi, enfim, um importante e luminoso personagem da Educação, da Cultura, da História Política Fluminense nos últimos sessenta anos do século XX

MC



A dipirona e as Olimpíadas
Fábula desmoralizante e corruptora

(Para se ler nu, ou nua, em jubiloso êxtase patriótico, desfraldada a bandeira nacional.)
Marcelo Câmara

Na última sexta-feira, dia 2 de outubro, o Rio de Janeiro carnavalizou-se. Ansiedade e catarse, alegria e samba, travestismo e delírio. A dinamarquesa Kopenhagen anunciava: o Brasil hospedaria os jogos olímpicos e paraolímpicos de 2016. A festa inundou zonas sul, norte, oeste, subúrbios, arrabaldes rurais.

Foguetes, cerveja, shows na Praia de Copacabana. Parecia que tínhamos governos honestos, de mínima e natural corrupção, em todos os níveis, que cumpriam compromissos ideológicos e programáticos dos seus respectivos partidos políticos.

Podia-se até imaginar que estávamos numa democracia e vivíamos num país onde os indivíduos eram respeitados nos seus fundamentais direitos e comiam relativamente bem; se vestiam e tinham saúde, eram humanamente atendidos nas unidades de saúde e hospitais; estudavam em escolas decentes, iam e vinham no seu cotidiano sem assaltos, a salvo das balas perdidas e estupros; o esporte e o lazer eram generalizados; os direitos culturais estavam garantidos e eram amplamente exercidos; havia transportes públicos seguros e eficazes; trabalhavam dignamente; enfim as pessoas viviam e conviviam em paz, felizes. Sonhavam, criavam, produziam. Os serviços públicos eram públicos.

Naquela manhã, as edições dos jornais e revistas, os telejornais e a Internet não recuperavam as pautas dos últimos meses: as irregularidades de toda ordem, a lama pútrida que lambuzou todas as instituições públicas que planejaram, organizaram e realizaram os Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro em 2007.

Corrupção ativa, peculato, desvio de dinheiro público, incúria, prevaricação, furtos, formação de quadrilha, falsidade ideológica, superfaturamento de obras e serviços, que, quando prestados eram insuficientes ou criminosos, desadministração delituosa, total e epidêmica, malversação do dinheiro público em todos os níveis, em todos as etapas, em todos os ginásios, estádios, parques e arenas.

E vamos de providências, sindicâncias, auditorias, investigações, apurações, denúncias, inquéritos, indenizações, CPIs, ações públicas, processos administrativos, cíveis e criminais - tudo sem conclusão, sem responsabilidades, sem réus, sem culpados, sem condenações, sem detenções, sem cárceres ou encarcerados.

"Ninguém foi preso" - a frase mais publicada e anunciada no País, desde que somos "República". Ou: "O processo concluiu que houve falhas, houve erros na aplicação das verbas, mas não se pode apontar culpados ou condenar pessoas responsáveis".

Horas mais tarde ao anúncio, na madrugada de sábado, Marlene, uma empregada doméstica, dormitava e soluçava com o filho de um ano no colo, ardendo em febre, convulsivo, numa parada de ônibus sem ônibus, na zona sul, a mais rica, da cidade.

Voltava para casa para ver se algum vizinho, alguma alma generosa da favela onde vivia, salvaria a vida do menino. Isto porque, no hospital público, o melhor da cidade, onde havia sido atendida, após espera de três horas, "nada podia ser feito, pois além de não haver médico especialista de plantão, não havia dipirona, que estava em falta há quinze dias". Fazer o que? Clamar a quem? Ao bispo? - indignava-se Marlene. Mas não sei onde ele dorme, pensou.

"Ao Papa? Roma está longe, nem sei como lá se chega. E o prefeito? Que fim levou? E o governador? Tá viajando. E o vereador? O deputado? O senador? Sei lá... Será que polícia resolve? Uma dipirona já aliviava o sofrimento... Dava pra amanhecer o dia. Porra! Não é fácil. Todo dia a gente escuta no rádio e vê na televisão: corrupção, roubo do dinheiro do povo... e o hospital não tem um frasco de dipirona..."

Marlene matutou e amaldiçoou. Um motorista de táxi levou-os, ela e o filho, até a entrada da comunidade. Eram quatro horas da manhã. Não se sabe o que aconteceu com Pedro, o menino em chamas e vômito, nos braços da empregada doméstica.

Mas as notícias são boas, são as melhores: com as Olimpíadas de 2016, além da auto-estima carioca dar um salto, o orgulho de ser brasileiro vai bater um recorde. Para a cidade do Rio de Janeiro, maravilhosa por natureza, será a redenção. Será a oportunidade, depois das olímpicas asneiras de se lhe tirar a condição de capital federal e de se lhe impor a fusão entre o fictício e falecido Estado da Guanabara e o eterno e injustiçado Estado do Rio de Janeiro, do povo carioca e fluminense melhorar para sempre a sua qualidade de vida.

Os jogos vão viabilizar vultosos investimentos públicos na infraestrutura da cidade, nos equipamentos e serviços públicos. Receberão grandes recursos a saúde, a educação, a segurança, os transportes, a habitação popular.

Vão cessar esses projetos burros de maquiagem da cidade, de urbanização e cimentação de favelas. Surgirão autênticos, eficazes projetos habitacionais, bairros de verdade. Obras e obras, recuperações e modernizações, reformas e ampliações, reestruturações e sistematizações, cometimentos que irão melhorar muito a vida dos cariocas e daqueles que nos visitam.

E, claro, o esporte nacional, profissional, amador, olímpico, paraolímpico, oficial e marginal, todos vão se desenvolver. Até a purrinha e o jogo do bicho. Os jogos vão atrair formidáveis investimentos privados em todas as áreas. Empregos e salários irão se multiplicar. Renda e vida para todos. Seremos campeões em tudo.

Tudo irá melhorar. Não será mais como das outras vezes, das outros milhares de outras vezes. Agora é diferente. É pra valer. Para o povo será uma beleza! Nos lares, nas ruas, nas praças, nos hospitais, nas escolas, no trabalho, no metrô, nos trens, nos ônibus, nos presídios, na praia, no mar, no ar, no céu e na terra.

Florescerão a paz, o amor, a harmonia e a fraternidade em nossos corações. Até o nosso humor carioca será mais carioca. Receberemos todos de braços abertos, desarmados. Ninguém será assaltado e torturado, prometemos.

Não irá faltar mais dipirona nos hospitais públicos. Nem esparadrapo, nem antibiótico. Nem médicos, que terão jornadas de trabalho possíveis e salários dignos. O raio X, o ultrassom e a ressonância magnética existirão. Ou não estarão mais, por meses, quebrados, como sempre. Nada mais justo, necessário, urgente e edificante que uma Olimpíada.

Moral da história: Infeliz a cidade, desgraçado o país que para ter dipirona nos seus hospitais públicos implora a Deus e ao Mundo a realização de uma Olimpíada. (E pior - cá entre nós - as Olimpíadas irão se realizar. E os hospitais vão continuar sem dipirona.)



Esporte e inserção social

Chegou às livrarias uma obra de vanguarda, única no continente americano: Dinastia Paraolímpica (Ed. Senac-DF), do jornalista Sérgio Siqueira, especialista em esportes de alto-rendimento para atletas com deficiência, com fotografias de Mike Ronchi e Graziella Milettie. O livro, lançado na Bienal do Rio, trata das vinte modalidades esportivas praticadas nos Jogos Paraolímpicos, suas regras, sua história, como cada uma surgiu no mundo, como chegaram ao Brasil, os feitos de seus principais atletas, os rankings nacionais e internacionais. Informativo, de caráter educativo e forma didática, com fotos fortes, de grande impacto, e textos leves, saborosos - o livro pretende dar a partida em um movimento nacional de promoção do esporte como o mais ágil e saudável fator de inserção social de 26 milhões de pessoas que em nosso país apresentam algum tipo de deficiência, e é dedicado "aos pais, amigos, poetas, seresteiros, namorados" desses brasileiros. Em outubro, o livro terá lançamento em Brasília, no Espaço Cultural da Caixa Econômica Federal, durante o seminário Inserção Social em Movimento. Sérgio e Mike são os autores de um outro livro, Deuses Paraolímpicos - Atenas 2004, uma coletânea de fotos das Paraolimpíadas realizadas na Grécia.

Desmistificando as cachaças de Minas

O cachaçólogo Marcelo Câmara recebeu e-mail indignado do Sr. Roberto Carlos Morais Santiago, pessoa que ele não conhece, fabricante da Cachaça Anísio Santiago (antiga Havana), de Salinas, MG, afirmando que o especialista, por criticar a marca, não era "uma pessoa sensata". Marcelo Câmara não respondeu. Em seguida, recebeu outra mensagem de uma terceira pessoa do setor de bebidas de Minas Gerais, solidarizando-se com o Sr. Roberto e registrando ofensas a Câmara. Foi, então, que o crítico descobriu que a mensagem do Sr. Roberto havia sido enviada não só para ele, mas também para "n" pessoas, dezenas de empresários, autoridades, políticos de Minas Gerais, numa tentativa de, falando o que queria, sozinho, sem interlocutor, desmoralizar, antipatizar, incompatibilizar o cachaçólogo com a cachaça de Minas e com os seus produtores. Assim, Marcelo Câmara não teve alternativa se não responder cabalmente ao Sr. Roberto.

Por causa dessa resposta cabal, Marcelo Câmara foi objeto de uma censura pública, e mais ofensas, desta vez do Presidente da Associação Mineira dos Produtores de Aguardente de Qualidade - AMPAQ.

Abaixo, vão OS QUATRO TEXTOS:

1) ipse literis, com os erros de português e de digitação, a carta do fabricante da Cachaça Anísio Santiago (antiga Havana);
2) a resposta de Marcelo Câmara, única e definitiva;
3) a nota da AMPAQ; e
4) a resposta de Marcelo Câmara ao Presidente da AMPAQ.



1) Mensagem do Sr. Roberto:

Prezado historiador eescritor Marcelo Câmara,

Navegando pela internetencontrei texto seu referente matéria sobre cachaça publicada na Revista História da Biblioteca Nacional(edição 29). Tece severas críticas à cachaça de Salinas e, em especial, à cachaçaHavana-Anísio Santiago, desqualificando-a como cachaça de qualidade. Vejamos oseu comentário:

6ª) A cachaça Anísio Santiago (ex-Havana), de Salinas, MG, não é uma das mais antigas e tradicionais do Brasil. Quem escreveu isto sabe de cachaça tanto quanto o sertanejo de Bebe-Mijo, no Piauí, sabe de esqui no gelo. Leitura de mídia superficial, errônea e leviana. Para uma bebida que está fazendo 475 anos de vida, uma cachaça de quatro, cinco décadas não significa coisa alguma. Além de não ser cachaça, mas apenas uma cachaça mal envelhecida, filha de uma desconhecida cachaça ruim - a Anísio Santiago não possui excelência sensorial alguma. Trata-se de bebida apenas ingerível por quem conhece cachaça, mas nunca saborosa, com qualidade sensorial superior. Minas consome cachaça desde a descoberta do ouro, porém fabrica há menos dois séculos. Salinas, por outro lado, não tem cachaça nem tradição. Produz, há algumas décadas, e em quantidade, cachaça envelhecida de má qualidade, tingidas em madeiras agressivas, oriundas de pingas ruins que não chegam ao mercado, que são escondidas pelos seus fabricantes. Se a Revista quisesse ilustrar o texto com algum rótulo deveria fazê-lo com o de alguma cachaça de Paraty, RJ, o mais antigo centro produtor de cachaça do mundo, que exibe mais de quatrocentos anos de tradição, ciência, arte, excelência na fabricação de cachaça. A Coqueiro e a Corisco, ambas de Paraty, por exemplo, as melhores cachaças que existem, são feitas por famílias que produzem cachaça, no mínimo, há mais de duzentos anos, ininterruptamente, de pai para filho. Sabedoria e mestria entre gerações.

A cachaça Havana-AnísioSantiago é a marca mais importante do município do ponto de vista histórico equalidade (referência aos produtores do município). Em 2006, teve oreconhecimento de Patrimônio Cultural Imaterial de Salinas (Decreto Municipalnº. 3728). A marca representa a história, pioneirismo e qualidade que a cachaçade Salinas conquistou nas últimas décadas. Se tivesse conhecido Anísio Santiago(1912-2002), certamente teria outra opinião sobre ele e a sua fantásticacachaça. A Havana-Anísio Santiago é mais que uma marca debebida respeitada em todo o país. É uma lenda que foi forjada por umpequeno produtor de cachaça que sempre privilegiou a qualidade emdetrimento da quantidade. Se tivesse a oportunidade de conhecer a FazendaHavana teria constatado que o "modusoperandi" da Havana-Anísio Santiago é absolutamenteartesanal cujo método de produção é o mesmo desde 1943. O envelhecimentomédio da marca é 10 anos em dornas de bálsamo antigo. A produção média anual(safra) é de 12 mil litros.

Respeito, mas nãoconcordo com sua opinião. Desqualificar Salinas e a marca Havana-AnísioSantiago não é uma atitude de pessoa sensata. Atualmente, o municípioé a principal referência nacional na produção de cachaça artesanal. Sãomais de sessenta marcas e produção estimada em cinco milhões de litros porsafra. As marcas mais tradicionais do município são Havana-AnísioSantiago, Canarinha, Indaiazinha, Lua Cheia, Salineira, Seleta, Boazinha, Beija-Flor, dentre outras. Todas são sucesso de venda em todo o país.

O município é responsávelpor cerca de 45% do ICMS recolhido ao erário mineiro sobre a comercialização decachaça de estabelecimento produtor em Minas Gerais.

O Festival Mundial da Cachaça de Salinas vem fazendo sucesso desde 2002 quando foi lançado. O eventotem média de público de mais de 20 mil pessoas todos os anos.

O governo mineiro estáinvestindo 7 milhões de reais na construção do Museus da Cachaça de Salinas comprevisão de inauguração em 2010. É o reconhecimento do povo mineiro do "modus operandi" da cachaça deSalinas.

Todos sabemos que a suaquerida Paraty (RJ) é uma região que tem suma importância na história dacachaça brasileira. Tanto que conquistou, com mérito, a IndicaçãoGeográfica. Porém, outras regiões têm o direito de fazer história. É o que Salinas está fazendo. Queira ou não, Salinas já faz parte da história da cachaça brasileira e a sua Indicação Geográfica é só uma questão de tempo.

Cordialmente,

Roberto Carlos Morais Santiago
www.robertosantiago.blogspot.com
rcmsantiago@gmail.com
Salinas - MG



2) A resposta de Marcelo Câmara ao Sr. Roberto:

Prezado Roberto, sensatez, assim como inteligência, saber (humilde e sempre provisório), senso e exercício crítico nunca me faltaram, graças a Deus, em mais de meio século de produção intelectual, vivências e convivências, no universo da cachaça. Convido-o a visitar o meu site - www.ilhaverde.net - para certificar-se disto.

Nunca ignorei ou desprezei a importância econômica do município de Salinas, e de todo o Estado de Minas Gerais, como grande centro produtor de cachaças artesanais. Lamentavelmente, de cachaças com pouca ou nenhuma excelência sensorial. Salinas é um recente produtor, de décadas, pujante, admirável, de cachaças, na sua maioria, ruins, e de uma ou duas marcas apenas razoáveis, bebíveis. Salinas, quase toda Minas Gerais, com raras e preciosas exceções, não produzem cachaças, mas cachaças ditas "envelhecidas", que, na verdade, são pingas ruins e medíocres, mascaradas por um falso envelhecimento, que as torna comercializáveis, palatáveis ao consumidor médio, padrão, que, normalmente, não conhece a excelência sensorial da cachaça. Lembro-lhe que cachaça envelhecida não é cachaça. Cachaça envelhecida é cachaça envelhecida. Uma outra bebida, que Minas muito produz, com defeitos, pois não sabe e nunca soube fabricá-la sob boa técnica e com esmero.

Não sou um inimigo das pingas mineiras, nem desafeto de seus produtores. Ao contrário. Aprecio algumas marcas e tenho alambiqueiros amigos, competentes, nas Gerais. Prova disto é que aquelas a que me referi, as tais raras e preciosas, habitam os rankings de meus dois livros sobre cachaça, bem como a página Rankings de Cachaças, do meu site. Sempre que sou questionado ou provocado sobre as cachaças de Minas, especialmente sobre as de Salinas, exponho, com ampla e profusa argumentação, as razões científicas e técnicas que provam a sua inferioridade quanto à excelência sensorial. Não falo de processo artesanal quase correto, honesto e bem intencionado. Ou de boa e ambiental gestão dos engenhos. Nem de qualidade físico-química, o que até as cachaças industriais possuem. Não é isto. Falo de excelência sensorial, riqueza e exuberância sensorial, aroma e gosto agradáveis, sabor delicioso, sempre com primazia e prevalência da cana, tanto nos tipos nova (branca, crua, fresca) e descansada, como no tipo envelhecida, onde a cachaça de qualidade sensorial é modificada, apenas temperada pela madeira apropriada, sem corromper a natureza da bebida, sem estuprar a alma da cachaça.

Não irei aqui, numa curta mensagem, apresentar toda a minha argumentação que critica a cachaça de Salinas. Não há tempo, disposição, conveniência ou oportunidade para isto. É matéria para um alentado trabalho ou, no mínimo, para uma longa palestra. A minha ciência, a minha sabedoria, a minha ideologia sobre a cachaça - conhecimento, críticas, propostas - estão nos meus dois livros publicados sobre a bebida brasileira: Cachaça - Prazer brasileiro (Mauad, 2004), o primeiro livro dirigido ao mercado, ao consumidor real e potencial do destilado, e Cachaças bebendo e aprendendo - Guia prático de degustação / drinking and learning - Practical guide to tasting (Mauad, 2006), o primeiro livro do mundo (bilíngue port/inglês) sobre degustação do destilado brasileiro, o único a tratar exclusivamente dos aspectos sensoriais da cachaça, o qual, certamente, você ainda não leu. Nesta obra você encontrará os valores, conceitos e características, perfis e parâmetros da excelência sensorial da cachaça. Enfim, toda a minha ciência sobre o assunto e as razões das minhas críticas.

Em síntese, posso lhe adiantar: 1) Salinas, como quase toda Minas Gerais, com poucas e dignas exceções, repito, não produz cachaça - branca, nova e fresca ou mesmo "descansada" - mas oferece ao mercado cachaças ditas "envelhecidas", que são, na realidade, as chamadas "pingas de pau", isto é, cachaças ruins, que são consumíveis após serem tingidas e amadeiradas violentamente no seu gosto com lenhos agressivos, como o bálsamo, por exemplo, por um incorreto, imperfeito processo de "envelhecimento"; 2) A cachaça Anísio Santiago é uma loção de barba, uma Acqua Velva, um líquido de álcool, água e óleo de bálsamo, que engana qualquer um que não conhece cachaça e só bebe pingas industriais e artesanais nauseabundas e vomitativas; 3) Envelhecimento é uma arte tal qual fazer cachaça e beber cachaça, o que é diferente de degustar e bebericar; envelhecer não é tingir cachaça ou transformá-la em um extrato de madeira com baixo, médio ou alto teor alcoólico.

Reitero que as afirmações acima feitas estão tecnicamente desenvolvidas nos meus livros, especialmente no que trata dos aspectos sensoriais da bebida: Cachaças bebendo e aprendendo - Guia prático de degustação.

Se ainda bebesse, gostaria de degustar a Anísio Santiago nova, sem "envelhecimento", a verdadeira e pura cachaça Anísio Santiago, que nunca será oferecida ao mercado, porque, certamente, é imbebível.

Cordialmente,

Marcelo Câmara



3) A nota da AMPAQ:




Belo Horizonte 30 de abril de 2009
Prezado Sr.
Roberto Carlos Morais Santiago
MD. Proprietário Cachaça HAVANA/ANISIO SANTIAGO
A AMPAQ não poderia ficar sem se pronunciar quanto à manifestação feita pelo Sr. Marcelo Câmara, em que referências totalmente inadequadas são feitas à cachaça Havana/Anísio Santiago, lenda viva da boa e tradicional cachaça de alambique de Minas Gerais.
Nós da AMPAQ não estranhamos tal fato, já que a qualidade, a tradição, o respeito, dentre outras formas de referência e reconhecimento de um trabalho de sucesso resultam, muitas vezes, em reações pessoais, provocativas, desprovidas de conhecimentos, e que, portanto, não devem ser levadas em consideração. A AMPAQ, dentro do contexto da cachaça de Minas que representa, conhece, de fato, a trajetória da cachaça de alambique do estado e a qualidade real do nosso produto.
A Cachaça de Minas e, por extensão, a cachaça de Salinas, é produto apreciado e reconhecido por verdadeiros conhecedores de nossa cachaça, que não necessitam repetir a cada instante pseudos dotes intelectuais para justificar posicionamentos.
Cordialmente,
Alexandre Wagner da Silva
Presidente da AMPAQ









4) A resposta de Marcelo Câmara ao Presidente da AMPAQ:

Rio de Janeiro, 4 de maio de 2009.
Ao Sr. Alexandre Wagner da Silva
Presidente da AMPAQ

Senhor Presidente,

Através de um amigo de Minas, chegou aos meus olhos teor de carta que circula pela Internet, de autoria de Vossa Senhoria, endereçada ao Sr. Roberto Carlos Morais Santiago, proprietário da Cachaça Anísio Santiago, pessoa que não conheço, na qual são feitos julgamentos sobre a minha pessoa e ao meu trabalho profissional de mais de quatro décadas como estudioso do destilado brasileiro. A missiva de Vossa Senhoria, que também não me conhece, nem tão pouco o meu trabalho, afirma que a minha resposta ao senhor Roberto deriva de reações pessoais, provocativas, desprovidas de conhecimentos, e que, portanto, não devem ser levadas em consideração" (sic). Também insinua que não conheço cachaça, e afirma que eu necessito "repetir a cada instante pseudo dotes intelectuais para justificar posicionamentos" (sic).

Tais julgamentos tortos são justificáveis e provam que Vossa Senhoria, tal qual o Sr. Roberto, realmente, nada sabem sobre o meu trabalho no universo da cachaça, trajetória e realizações na Cachaçologia, todas publicamente exibidas há anos em meu site - www.ilhaverde.net - e não tem o mínimo respeito por elas, muito menos pelo estudioso, pingófilo e degustador profissional.

Surpreendo-me com o tom, o conteúdo e o caráter da carta de Vossa Senhoria, pois, além de desconhecer a íntegra do texto que enderecei a Revista, os seus motivos e objetivos, tenho certeza de que o Presidente nunca leu o que escrevo e o que digo a mestrandos e doutorandos que me procuram, muitos deles de Minas Gerais, o que declaro em palestras e em entrevistas à Imprensa sobre as cachaças de Minas, especialmente sobre a Ampaq, desde o seu nascimento em 1988.

Primeiramente, convém afirmar que, mesmo lamentando o equívoco da sua manifestação, não concordando com a sua desinformada, ofensiva e injusta crítica, registro e defendo o lídimo e incontestável direito em fazê-la, porque se apresenta como um ato legítimo da liberdade de expressão, do exercício de crítica de qualquer cidadão, ainda mais quando, não obstante mal influenciado e circunstancialmente sem nenhuma razão, Vossa Senhoria dignamente preside uma instituição altiva e honrada, disposta a defender os direitos e os interesses de um importante segmento dos produtores de cachaça de Minas Gerais.

O Sr. Roberto invadiu a minha caixa postal, me qualificando de "ignorante" e "insensato". A fúria do Sr. Roberto decorre de carta que remeti em fevereiro de 2008 à Revista de História da Biblioteca Nacional, na qual, de passagem, teço rápida crítica à ausência de tradição e de excelência sensorial no produto que ele fabrica. Trata-se de uma opinião profissional minha, construída, serenamente, tecnicamente, a partir do momento que provei, pela primeira vez, ainda em 1992, a então Havana. Contratado profissionalmente, durante anos, por dezenas de fabricantes de cachaças artesanais e industriais, de vários Estados brasileiros, para proceder a análises sensoriais de inúmeras marcas, emitindo laudos técnicos assinados sobre suas qualidades e defeitos sensoriais, nunca assisti a uma reação desarrazoada, patológica, a uma campanha tão bizarra, insólita e canhestramente orquestrada, envolvendo tantas instituições e personagens, como esta do Sr. Roberto.

Cumprindo estratégia involuntária e ingênua de marketing do puro, singelo e simplório Anísio Santiago ao lhe conferir preço absurdamente excessivo, não contestado ou rejeitado por aturdidos e iludidos; canonizada pela mídia superficial e veloz; falsamente valorizada, laureada, sim, por pseudo-especialistas; festejada pelo consumidor comum sem crivos, e não por conhecedores ou bebedores sábios e experientes - a famigerada marca do Sr. Roberto quer permanecer eternamente como uma fraude de excelência sensorial que deu certo e convenceu a todos, indene a qualquer crítica ou reparo, invulnerável a qualquer análise ou julgamento, colocando-se como um produto metafísico, sobrenatural, acima das outras marcas, entronizada como excelência perfeita e máxima.

Mentira. Farsa. Fraude.

Além de corromper intensamente a cachaça ruim com madeira agressiva ou por longo período de armazenamento, ou utilizando os dois recursos, minimizando, mascarando, ao máximo, a má qualidade sensorial, e fixar um preço irreal, absurdo, para o produto - outras duas estratégias de marketing de empresas que fabricam cachaças com falsa excelência, de excelência fictícia, com a finalidade de vender mais, persuadindo o consumidor comum, são: 1) o uso de embalagens luxuosas; e 2) criação de tipos de cachaça ditas "especiais, "reserva especial", com "envelhecimento" excessivo (cinco, oito, dez anos...) em carvalho inadequado, bálsamo, amburana etc. ou em várias madeiras, a fim de tirar a identidade, o caráter da bebida que se apresenta como "cachaça envelhecida". O consumidor não saberá o que está bebendo.

Quem produz cachaça de qualidade, com excelência sensorial, exibe, com orgulho, a nova (branca e fresca), pingada na ponta do alambique, a descansada em madeiras quase neutras e a envelhecida em madeiras adequadas, com disciplina e esmero, sob as rigorosas normas físico-químicas e ambientais da boa técnica do envelhecimento. Tudo isto sem temores, sem subterfúgios, sem tergiversações, sem ladinagens. Onde está a Cachaça Anísio Santiago? É temeroso apresentá-la. Certamente é ruim, imbebível. Qualquer alambiqueiro sábio, competente e honesto sabe que nenhuma cachaça armazenada por mais de três ou, no máximo, quatro anos, especialmente em madeiras agressivas, como o aromático bálsamo, não permanece cachaça, e não se torna, verdadeiramente, cachaça envelhecida. O resultado são extratos de madeira com álcool, aquelas às quais um mestre alambiqueiro chamou de "pingas de pau". E isto é o que acontece com quem não obtém uma cachaça com excelência sensorial, pura e limpa, de aroma agradável, saborosa, de boa degustação e digestibilidade. A saída, o recurso, é mascarar a sua má qualidade sensorial, maquiá-la com a madeira que fascina e engana o consumidor comum, acostumada a beber cachaças ruins, nauseabundas, artesanais ou industriais, amadeirá-la rápida e intensamente com lenhos agressivos e crus, ou, lenta e excessivamente, com qualquer madeira, mesmo as agressivas curtidas, que tenham hospedado exclusivamente cachaça por décadas.

Quando descobri que a solitária mensagem privada do Sr. Roberto, que julgava individualizada, dirigida unicamente a mim, Marcelo Câmara, havia sido, numa atitude aética e suspeita de criminalização, distribuída a diversas pessoas, numa tentativa de, falando sozinho, dizendo o que queria, me desmoralizar, me antipatizar, me incompatibilizar com os produtores mineiros e outras personalidades das Minas Gerais, as quais respeito e muito prezo, alternativa não tive se não a de respondê-la a todos os destinatários do Sr. Roberto, empresários, autoridades, políticos e dirigentes associativistas e sindicais. O mesmo faço agora ao remeter esta mensagem a todas as pessoas a quem Vossa Senhoria endereçou a sua carta, repetindo a atitude deplorável do Sr. Roberto.

O Sr. Roberto, num desvario, e Vossa Senhoria, de afogadilho, provam que, além de não conhecerem o inteiro teor da carta de fevereiro de 2008 à Revista (bem como a resposta da revista e a minha tréplica, cujos três textos podem ser lidos no meu site), ignoram o meu pensamento e as minhas críticas, eminentemente técnicas, embasadas cientificamente, sobre temas, conceitos e aspectos da bebida, amplamente desenvolvidas em meus dois livros e nas centenas de palestras que proferi e degustações que dirigi nos últimos quinze anos em todo o País. Nada há de subjetivo, pessoal, passional ou idiossincrático nelas. Degustação e Análise Sensorial são atos culturais objetivos, práticas profissionais objetivas, que levam em conta elementos exclusivamente objetivos. Nada há de subjetivo ou pessoal nesses exercícios. Gosto se discute porque gosto se forma, se constrói, se educa. E os elementos que compõem o gosto, que formam as avaliações visual, olfativa e gustativa, são igualmente objetivos, concretos, reais, palpáveis, sentidos e medidos. Como eu disse ao Sr. Roberto, e agora repito a Vossa Senhoria: nada tenho, em tese ou preconceituosamente, contra o produto mineiro. Nem motivos teria para tal. Ao contrário, reitero, algumas marcas habitam os cumes dos rankings dos meus dois livros sobre cachaça e são apresentadas no meu site. Tenho, entre meus amigos, muitos alambiqueiros de Minas, honestos e competentes, dos quais louvo as suas atividades.

Tranquilize-se, Vossa Senhoria:
em qualquer lugar, município, estado e no Brasil todo, de norte a sul, de leste a oeste, a excelência sensorial da cachaça é uma raridade, uma exceção, um milagre
. Isto é próprio da arte e da técnica de fazer cachaça, de descansar cachaça, de envelhecer cachaça. Atente-se que esses fazeres nada tem a ver com os universos de outras bebidas como o irmão rum, o vetusto vinho e outros destilados como o uísque, o bourbon, o gin, a vodca, a tequila etc. São outros universos, com outras culturas, outras histórias e latitudes, outras tecnologias, outros modos e regimes de produção, outras maneiras de consumir. Das seis mil marcas de cachaça e de cachaça envelhecida que estão no mercado (dois tipos de bebida, previstos na própria legislação), pelo menos das cerca de 1 mil cachaças e cachaças envelhecidas que eu tive oportunidade de degustar profissionalmente (avaliar, julgar, diferente de beber e bebericar), apenas, no máximo, quinze marcas, puderam merecer, de mim, notas de 8 a 10. A excelência sensorial é a minoria da minoria da minoria. Centenas de cachaças são medianas, regulares (de 6 a 7.9, "dão p'ra tomar") e milhares são ruins (de 0 a 5.9), imbebíveis. Isto ocorre em qualquer parte: em todo o Estado das Minas Gerais; no Estado do Rio de Janeiro, em Santa Catarina, São Paulo, Bahia, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Espírito Santo, Rio Grande do Norte (todos estes Estados com mais tradição do que Minas); no Paraná, no Rio Grande do Sul e... na quatrocentenária Paraty. Paraty fabrica quase uma dezena de marcas, legalizadas e clandestinas, mas apenas duas possuem excelência sensorial, são dignas da sinonímia de maior lastro histórico e cultural: "paraty". As outras são medianas ou são ruins, nauseabundas. Na esmagadora maioria das regiões brasileiras, como em Salinas, não há excelência sensorial. Em todos os pólos de produção, existem certas cachaças medianas, com alguma ou algumas virtudes sensoriais, e pululam, em excesso, as de má ou sem qualquer qualidade sensorial. Em alguns Estados, não há nenhuma marca com excelência. Em outros, há uma ou duas nessa categoria. Já as marcas medianas são numerosas e habitam todo o País. E as cachaças ruins, industriais (todas) e artesanais (grande parte delas), são maioria em qualquer lugar.

Quanto à Ampaq, saudei entusiasticamente a sua criação e desenvolvimento, qualificando-a, sempre, como "a mais importante revolução que os mineiros fizeram depois daquela que glorificou Tiradentes". Publiquei isto nos meus dois livros e isto repito, em alto e bom som, há anos. A Ampaq, não me canso de declarar, é um modelo sério, inteligente, eficaz e exitoso, sempre a ser seguido, ao menos considerado, para a agroindústria brasileira da cachaça. É certo que houve tropeços, desvios, erros. É natural a uma instituição integrada por homens. E a crítica, positiva ou negativa, é sempre edificante, necessária, útil. A Ampaq já mereceu um texto meu inteiro, vibrante, de elogios, na coluna Prazer Brasileiro, que, em 1997, assinava no Jornal do Commércio, do Rio de Janeiro, a primeira e única especializada já publicada no País. Acompanho atento, interessado, o admirável trabalho da Ampaq, desde antes das presidências do Walter Caetano e dos irmãos Rodrigo e Alexandre, da excelente Tabaroa. Várias cachaças de Minas já foram, e são, exaltadas por mim, em textos que publiquei em jornais, revistas e no meu site, em entrevistas a emissoras de rádio e de tv, inclusive na famosa entrevista que dei, em rede nacional, ao Jô Soares em 2004, com estrondoso sucesso, reprisada em 2005. Poucas cachaças mineiras desceram no meu ranking, (Germana, Vale Verde). Algumas continuam excelentes, com notas entre 8 e 10, como a cachaça Aroeirinha e as cachaças envelhecidas Tabaroa, Velha Aroeira e Biquinha, entre outras. Entretanto, em Salinas, nunca vislumbrei cachaça com virtudes sensoriais máximas, capazes de acolher o atributo da "excelência".

Só acredito em trabalhos críticos. Em qualquer ramo ou área da atividade humana. E a minha crítica é profissional, fundamentada, objetiva, honesta, independente, respeitosa. E sempre com propostas. Nela nada há de passional, pessoal, subjetivo, emocional, irresponsável. Assumo-as e as sustento com argumentação, humildade e provisoriedade. Estou longe dos parti-pris, dos jargões e dos doestos, das ofensas de qualquer natureza. Não pratico o opróbio, o deboche, o escárnio. Isto pertence ao terreno da vileza e da estupidez, do qual não faço parte ou frequento. Vossa Senhoria poderá ler Humor literário, sutil, inteligente, precioso, nos meus textos e falas, pois fui profissional do riso por mais de dez anos. Poderá perceber neles severidade, crítica lancinante, radicalidade (do latim radice, raiz, ir às raízes, às causas primeiras, aos fundamentos de um tema ou questão, e não ficar na superficialidade, na sintomatologia), ao contrário da leviandade, porém jamais verá achincalhe, chacota, virulência vã, sem direção ou propósito em minhas manifestações. A exceção, evitável o quanto possível, pode acorrer quando sou, aética, covarde ou estupidamente, agredido, sem motivos ou de maneira asnal, insana, desarrazoada. Em consequência, ajo em legítima defesa.

Não estou ligado a nenhuma empresa ou grupo, não produzo ou represento nenhuma marca de cachaça. Não sou arauto, acecla, cordeiro ou acólito de fabricante, doutrina ou associação. Por outro lado, ninguém é obrigado a pensar como eu, aplaudir e se solidarizar com os meus julgamentos ou aderir às minhas opiniões. Somente a respeitá-las. Contestar ou calar. Aprovar ou não. Não sou dono da verdade, tenho a posse ou propriedade dela. Apenas procuro estar sempre com ela, próximo dela. Parafraseio uma escritora norte-americana: "A verdade não é uma estação para a qual viajamos. Mas, o modo de viajar".

Meus caminhos são éticos e profissionais. Meus compromissos são com a Cultura Brasileira e com a Minha Pátria.

O diálogo, a crítica, a discussão são exercícios férteis, produtivos, enriquecedores. O resto é, intelectualmente, indigente, desprezível, descartável. Muitas vezes, ignóbil, pútrido, abjeto.

Respeitosa e cordialmente,

Marcelo Câmara



Carta enviada por Marcelo Câmara a O Globo, a 16.3.2009,
texto que, obviamente, não foi nem será jamais publicado.

A moda burra nas academias de ginástica

As opiniões expostas na matéria Na sintonia das batidas perfeitas, sobre música nas academias de ginástica, publicada na edição de domingo, 15.3.2009, são uma reunião de frivolidades, ditas por gente que não conhece, se nega a estudar o assunto ou se encontra, patológica e comercialmente, engajada numa moda generalizada, burra, tola e nociva. O barulho de um motor de caldo de cana, quase sempre ensurdecedor, denominado "música", nas academias, é uma prática insana, maciça, predominante em todo País. Uma droga perturbadora, adotada sem prescrição médica, sem nenhum fundamento técnico ou base científica. Cada indivíduo tem o seu próprio ritmo orgânico e mental, cada exercício tem, também, o seu próprio ritmo e determinado exercício praticado por determinada pessoa tem um terceiro ritmo. Não existe uma música ritmada que marque todos os exercícios aeróbicos e de musculação de todas as pessoas, dentro ou fora piscina. Ginástica exige atenção, disposição, concentração e realização responsável, sintonia, ritmo, harmonia entre mente e corpo, orientação, obediência às regras da sua execução. Esse som que transforma academia em boate de meretrício e botequim desprezível, com cerveja quente e música alta, apenas aliena o indivíduo de si mesmo, afasta o praticante da ginástica do seu exercício, dispersa os sentidos, o desconcentra, "distrai" como admite um dos entrevistados, quando a sua mente, o seu corpo, postura, respiração, todos os sentidos deveriam estar dirigidos e empenhados no próprio exercício. O barulho na academia, que os seus adeptos chamam de "música", e geralmente da pior qualidade, só faz entorpecer e imbecilizar ainda mais os alunos de academia. Música é uma arte para ser ouvida, tocada ou dançada em lugar e momento apropriado. E música-ambiente ritmada não se adequa a um lugar multidisciplinar, onde diversas pessoas devem estar concentradas, executando as lições de diversos exercícios com diversas durações e de diversos ritmos, alguns alongando músculos e tendões, outros em práticas aeróbicas (esteira, bicicleta etc.), e terceiros fazendo musculação. A rigor, a princípio, em tese, nenhuma música - de excelência, mediana ou ruim, popular, folclórica ou erudita - deveria estar em espaço multidisciplinar, plural, de academia alguma. A música era, outrora, seletiva e específica marcando os pontos dos exercícios da milenar calistenia, da ginástica de solo clássica, com ou sem halteres, barras e bastões, e hoje, também seletivamente, pode fazer parte dessa ginástica marcada, e, ainda, da ginástica artística e de certos exercícios da ginástica olímpica. Os compêndios e manuais clássicos da matéria, os livros de Educação Física e de Ginástica de autores de prestígio internacional, editados nos EUA, na Europa e Oriente, recomendam a prática da ginástica sem música. Entre nós, o consagrado Nuno Cobra orienta no mesmo sentido. A música ouvida por um atleta individualmente no seu treinamento, e na ginástica, também individualizada de uma pessoa, é válida, estimulante, até útil, necessária. Da mesma forma, um grupo praticando exercício único, coletivo, ritmado, com um guia, professor ou orientador, tem na música um auxiliar didático-pedagógico válido, importante. "Eliminar o baticum irracional e torpe das academias parece impossível, a reação contrária é quase absoluta" - justificam-se os professores. Quando, milagrosamente, a aparelhagem de som pifa e os sons e ruídos são apenas das pessoas, professores e alunos, já ouvi algumas pessoas, uma minoria, é claro, exclamarem: "Que bom sem música, parece que tudo sai melhor, com mais acerto e rendimento..." Mas estamos numa democracia, o regime das maiorias que crucificaram Cristo, glorificaram Hitler e elegeram, duas vezes, Bush. E, infelizmente, enquanto não prevalece a razão, reina "o melhor critério": o das maiorias, mesmo que insanas. O escapismo irracional do falso bordão "gosto não se discute", e se discute sim, em todos os campos do pensamento, da arte e do comportamento humano; e a resposta vazia e irresponsável dos donos de academia e seus professores "Não se pode agradar a todos, cada um tem um gosto..." - apenas confirma a asneira segundo a qual o aluno de academia é quem deve determinar o que deve ser feito e como deve ser feito. Seria como um paciente dizer ao médico que quer tomar tal remédio, fazer tal terapia, durante o período "x" e na forma "y". O barulho nas academias é um instrumento a transformar alunos de educação física em consumidores tontos, alienados e dóceis, que cumprem séries de exercícios sob intenso e desconcertante barulho, suam, falam alto para serem ouvidos, suam mais um pouco e vão para casa esgotados, meio surdos, certos de que fizeram bem ao corpo, à mente, melhoraram a saúde. Realmente, apenas e literalmente, "malharam", agrediram bastante o corpo, se esgotaram, como estivessem num trânsito engarrafado, sob um buzinaço. Mas não praticaram ginástica de forma inteligente, segura, responsável e saudável.


Um escândalo:
Newton Mendonça foi lembrado.

"Um escândalo! Verdadeiramente um escândalo. Benfazejo e venturoso, no melhor e mais positivo sentido que a exclamação possa ter". Assim, o jornalista e consultor cultural Marcelo Câmara resume a emoção, ao folhear o fascículo da Coleção BRAVO! 50 ANOS DE BOSSA NOVA, Newton Mendonça - O personagem oculto, de André Ciasca, que acompanha a edição de outubro da revista Bravo!. Numa iniciativa pioneira, corajosa, única na mídia brasileira, a revista Bravo! acaba de editar e colocar nas bancas de todo o País, um bem construído e honesto perfil biográfico, jornalístico e crítico, do pianista de vanguarda e genial compositor carioca Newton Mendonça (1927-1960), primeiro e principal parceiro de Tom Jobim, com quem formou a mais importante dupla da Bossa Nova. Marcelo Câmara se diz "honrado e orgulhoso", com o trabalho do jornalista e produtor cultural André Ciasca. Isto porque Ciasca teve como fontes principais: o livro Caminhos cruzados - a vida e a música de Newton Mendonça (Mauad), de Marcelo Câmara; o álbum Caminhos cruzados - Cris Delanno canta Newton Mendonça (Ilha Verde), idealizado e produzido por Câmara; as recentes pesquisas do biógrafo; e as entrevistas que concedeu a Ciasca. Newton Mendonça é o criador, com Tom Jobim, de Desafinado, Samba de uma nota só, Meditação, Discussão, Foi a noite, Só saudade, O domingo azul do mar etc., e de composições exclusivas como Você morreu p'ra mim, O tempo não desfaz, Verdadeiro amor, O mar apagou, Seu amor, você, Canção do azul, Nuvem, entre outras - qualificadas como obras-primas, hinos e matrizes da Bossa Nova.

Marcelo Câmara considera a edição do fascículo da revista Bravo! um fato extraordinário, grandioso, de grande significado para a Música Brasileira. Ele explica que "desde a morte de Newton, há quase quarenta e oito anos, somente a Mauad com a edição da biografia em 2001, os meus parcos talentos e recursos, que produziram um CD em 2002 e um show em 2008, e, agora, a revista Bravo! - tiveram a iniciativa, a capacidade e a coragem de realizar projetos sobre a vida e a música do grande artista". Para ele, "o trabalho de André Ciasca é uma resposta altiva e verdadeira à enxurrada de publicações, CDs, programas de rádio e tv, eventos, capengas, falsos e pasteurizados, comemorativos dos 50 anos da Bossa Nova, infortúnios que apenas repetem velhas mentiras, ficções e deformações de uma famigerada 'história oficial da Bossa Nova', que predomina na mídia e numa bibliografia medíocre, plagiária e empulhadora". O crítico parabeniza a Bravo!, saúda e louva a visão e a independência do chefe de redação da revista jornalista João Gabriel de Lima, "quando enfrenta a mediocridade e a farsa generalizadas, construindo com seriedade e excelência". Marcelo Câmara conclui: "Para mim, pesquisador quase solitário e heróico ao insistir, por mais de treze anos, em defender a memória e a arte de Newton Mendonça, após os aplausos, meus e dos leitores, só há uma palavra a ser lançada: BRAVO!"


Marcelo Câmara critica ausência de Newton Mendonça
na Coleção Folha 50 anos de Bossa Nova

Marcelo Câmara escreve à editora que produziu a Coleção Folha 50 anos de Bossa Nova (livreto e CD) e ao jornal Folha de São Paulo para lamentar a ausência, entre os artistas selecionados, do pianista e compositor Newton Mendonça (1927-1960). A Coleção foi lançada no dia 10 de agosto de 2008 e é vendida todos os domingos nas bancas. Marcelo Câmara faz severa crítica aos critérios de seleção dos eleitos, apontando o erro como mais um golpe da famigerada "história oficial da Bossa Nova" contra a Música Popular Brasileira. A editora, depois de entrar em contato com o planejamento e redação da Coleção, informou a Marcelo Câmara que o profissional responsável pela Coleção "também tem enorme respeito e admiração por Newton Mendonça, mas a Folha privilegiou os intérpretes da Bossa Nova e Newton Mendonça não é interprete e sim compositor". O editor acrescentou: "Se notar, em vários discos foi feita a escolha de musicas em que Newton é o Autor, exatamente pra realçar sua veia de Bossa Nova e não deixar passar esse grande compositor despercebido". Diante da injustificável resposta, Marcelo Câmara enviou outro e conclusivo protesto à editora.

Abaixo os textos das duas cartas enviadas por Marcelo Câmara.

Rio de Janeiro, 11 de agosto de 2008.

À Editora Mediafashion

À Folha de São Paulo

Senhores,

Saúdo o lançamento da Coleção Folha 50 anos de Bossa Nova, lamentando a grave e injustificável ausência do mais importante artista do gênero: o pianista revolucionário e compositor de vanguarda Newton Mendonça (1927-1960). Compositor que nos deixou 35 músicas (17 de criação exclusiva, 17 com Tom Jobim e 1 com Fernando Lobo), Newton foi, ao lado de Johnny Alf e Tom Jobim (e acima desses dois), o criador por excelência da nova estética. Dos três, o principal compositor inovador no terreno composicional, estrutural (melodia, harmonia e ritmo), o de maior lastro, consciência e consistência artística, que significou a verdadeira vanguarda, a ousadia, a ruptura, a novidade na Música Popular Brasileira que, antes de todos, anunciou e, depois, fundamentou e inaugurou a Bossa Nova. João Gilberto é a revolução no campo da criação rítmica e interpretativa, criador da batida que sistematizou e interpretou a demanda estética dispersa no Rio da época. João personifica, é o arauto da nova música. Já Newton Mendonça é a criação feita Bossa Nova. Além de ser o criador de uma obra bossa nova em essência, exclusiva, sem parceria, ele concebeu (e trabalhou com Tom) as idéias musicais, é o melodista, dos hinos e matrizes do novo samba, compostos pela dupla New-Tom, a mais importante da Bossa Nova (Desafinado, Samba de uma nota só, Meditação, Discussão, Foi a noite, Só saudade, O domingo azul do mar). Newton criou, sozinho, no inverno de 1954, a música e a letra da primeira parte do Samba de uma nota só, a obra-síntese, a bomba estética da Bossa Nova, sua principal matriz e hino. E fez com Tom a segunda parte, quatro anos depois. Newton é, ainda, o autor exclusivo da música de Meditação. A lista dos artistas da coleção elegeu letristas e até intérpretes, omitindo o mais importante, seminal, a verdadeira vanguarda da Música Popular Brasileira na década de 1950: o menino pobre, órfão e tímido nascido no Caxambi, Newton Ferreira de Mendonça, que se transformou no mais ipanemense dos compositores brasileiros. A iniciativa da coleção, louvável como disse, ao ignorar Newton Mendonça, avilta-se, enodoa-se, apresenta-se como mais um golpe solerte e ignóbil de uma infame e prevalecente "história oficial da Bossa Nova", que domina a mídia e a bibliografia, repleta de invencionices, ficções, deformações e mentiras, e que, há 48 anos, reduz, corrompe ou elimina o nome, a obra, a memória, o legado de Newton Mendonça, e de outros grandes criadores, entronizando falsas vanguardas e mitificando acólitos, personagens apenas participantes ou secundários do gênero. Cordialmente, Marcelo Câmara.

Rio de Janeiro, 23 de agosto de 2008.

Senhor Editor,

A explicação não se justifica e prova que a coleção foi mal planejada e realizada. Se a coleção é constituída dos maiores intérpretes da Bossa Nova, João Gilberto, o maior e o mais importante de todos, não poderia estar de fora. Da mesma forma o Tamba Trio, o Bossa Três, o Copa Sete, Sérgio Mendes e Zimbo Trio. Além disto, Vinicius nunca foi intérprete de Bossa Nova, e outros o foram mínima e esporadicamente, como Maysa, uma cantora de canções e sambas-canções. E Simonal não foi um cantor que privilegiou ou cantou mais Bossa Nova do que sambas-canções, boleros e música norte-americana. Além disto, o nome de Newton Mendonça, grande intérprete da Bossa Nova, que não deixou gravações, mas as maiores criações do gênero, não é, ao menos, citado no texto dedicado a Tom Jobim e em nenhum dos outros textos da Coleção. Por tudo isto a coleção é pobre e defeituosa. Sei que você não é o profissional que estabeleceu os seus tortos e equivocados critérios. Entretanto, você e a sua empresa não podem se eximir da responsabilidade, pois, certamente bem intencionados, são os produtores do canhestro e infeliz empreendimento. Cordialmente, Marcelo Câmara.


Uma polêmica impossível:
Marcelo Câmara X Revista História da BN

Não deu outra. A Revista História da Biblioteca Nacional publicou, parcialmente, em sua edição nº 33, de junho de 2008, o texto Fantasia não eliminada que Marcelo Câmara enviou ao Editor em fevereiro último. Entretanto, além de editar o que dele quis, divulgou, na revista e no site da revista, uma inqualificável resposta, tola, diversionista e fugitiva dos auto-proclamados "historiadores", Luciano Figueiredo e Marcelo Scarrone. Sem conhecer o trabalho intelectual de Marcelo Câmara, e nenhuma história da cachaça, tentam desqualificá-lo acusando-o de "não ser historiador". Diplomado. Segundo eles, Marcelo, formado em Direito e em Comunicação Social, não lê, não pesquisa, não publica História. Por não ser bacharel em História, não poderia fazer História. Não sabem que Marcelo Câmara produz e publica História há quarenta anos, não apenas no terreno da cachaça, mas também da Música, da Política, da Cultura, da Educação, entre outros. Que foi editado por historiadores como Darcy Ribeiro, Emmanuel de Bragança Macedo Soares, Alípio Mendes, respeitáveis historiadores brasileiros, entre outros, todos sem diploma. Mas, para os dois, "istoriadô só com diproma". Ilustres historiadores brasileiros e estrangeiros, do passado e contemporâneos, não tiveram formação específica em História e nem por isto deixam de ser historiadores. A dupla cita fontes secundárias, suplementares, acessórias, relativas e não fundamentais, não seminais, no que se refere à história da cachaça. E livro recente de um deles, sem nenhuma importância ou interesse, apenas oportunista, que nada acrescenta à pequena, erudita e preciosíssima bibliografia existente, onde Câmara Cascudo e Gilberto Freyre pontificam como raros mestres e descobridores. Fontes de inteligência e interpretação valiosas, específicas, do universo da cachaça são, é claro, totalmente desconhecidas dos curiosos. As fontes a que referem apresentam-se ora como periféricas ou peremptas, ora ultrapassadas em significado ou quilometricamente vencidas por outras mais relevantes. A incipiente resposta dos indigitados apresenta-se como uma redação ginasiana, palavrosa e empulhativa: cheia de contornos, fugas, variantes, arabescos. Diante de tanta asneira, presunção, escapismo e arrogância, Marcelo Câmara não teve outra alternativa se não remeter àqueles "especialistas" a mensagem abaixo. Desta vez, conclusiva e cabal, espera. E, claro, não publicada.

Senhor Editor,

Como previa, e infelizmente, a mensagem Há cartas que não se publicam permanece válida e atual. A Revista levou três meses para publicar uma crítica e quando o faz, edita, mutila, esvazia, no papel, o meu texto, de acordo com a sua conveniência, e escreve o que quer, uma resposta bisonha, não considerável. Constrói uma falsa polêmica, inexistente. Um diálogo desigual e covarde. Com os dedos no teclado do computador, o Editor faz o que quer: publica o que lhe julga favorável, e ignora, finge-se de desentendido, corrompe, deforma a crítica que é dirigida ao veículo. Faz o que quer com o texto do leitor-Autor. Aliás, um Autor sem obra, segundo a Revista. A "resposta" da Revista nada responde, apenas desvia, tergiversa, dissimula e não enfrenta a minha crítica. A referência a Gabriel Soares de Souza pelo Editor nada contrapõe ou esclarece. Dizer que o consumo da cachaça a partir do Século XVI tinha o sentido "medicinal" é tolice desmesurada, lulesca. O uso medicinal da cachaça é suplementar e circunstancial ao consumo popularmente generalizado de uma bebida alcoólica, que inebria, sublima, liberta, embriaga, entorpece, dá prazer. Remedia, salva, alegra, deprime, habitua, vicia e mata, de acordo com a qualidade, a quantidade, a freqüência e a situação na qual é ingerida. Minas não tem e nunca teve tradição no fabrico da cachaça comparada a centros de excelência e tradição como Paraty e alguns pontos de antanho do Nordeste, ou ao volume de produção como São Gonçalo e Campos (RJ), São Paulo e Bahia, este o maior produtor e exportador por mais de três séculos. A história mineira da cachaça é de consumo, exclusivamente de consumo de produtos oriundos de centros produtores como o Nordeste e, principalmente, a Bahia. E isto somente a partir do final do Século XVII. Minas só fabrica cachaça 250 anos depois de São Paulo, Paraty, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. Cem anos depois do Espírito Santo e de Santa Catarina. Quando falo em tradição não descarto excelência sensorial, qualidade superior. São conceitos xifópagos. Falar de tradição mineira no fabrico de cachaça de excelência seria como exaltar a tradição potiguar de saber preparar churrasco bovino. Isto não quer dizer que o potiguar não faça churrasco. Paraty (não existe "parati" no contexto e neste momento) não "tem lugar assegurado na história". Não. A afirmativa é como dizer que "Pelé tem lugar assegurado na história do futebol". Sem comentários. Ela é digna de quem nada conhece sobre o tema. Enfim, não vale polemizar sobre a falta de divergências, sobre o inexistente, quando um assevera e o outro burla ou escapa, deserto de argumentação. A troca de idéias também não é factível. Com a permuta, eu teria um grande prejuízo: eu entraria com o conhecimento, com as idéias, com a crítica fundamentada, e o Editor com os jargões, as digressões sem propósito, com o vácuo. Não há polêmica quando não há divergência ou confronto. Enfim, "anacronismo", esterilidade, perda de tempo, é um especialista com estudo e ciência em determinado universo debater com neófitos interessados, curiosos do mês e pesquisadores de ocasião. Esse tipo de crítica pressupõe conhecimento e deve ser feito em ambiente acadêmico. No mínimo, com equivalência entre os interlocutores. A resposta da Revista à minha carta ratifica: Cachaça é bebida de milhões e assunto para poucos. Cordialmente, Marcelo Câmara.


Carta de Marcelo Câmara corrige Revista de História da BN.
E não é publicada.

A Revista História da Biblioteca Nacional, em sua edição nº 30, de março de 2008, não publicou a carta que Marcelo Câmara enviou corrigindo os erros, desvios e imprecisões da matéria A pinga que pingava, publicada na edição de fevereiro de 2008. O jornalista e escritor afirma que não se surpreendeu com a atitude da revista: “Ignorar e censurar a crítica fundamentada de um leitor qualificado é um comportamento normal, esperado, de quase todos os veículos da Imprensa brasileira. Seria um gol ético contra a sua soberbia e fragilidade editorial”, comenta. Eis a íntegra do texto que a revista não teve seriedade nem segurança para publicar:



Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 2008.

À Revista História da Biblioteca Nacional

Fantasia não eliminada

por Marcelo Câmara*

Na matéria A pinga que não pingava, de Luciano Figueiredo e Marcello Scarrone, in Cadê a história que estava aqui (Edição nº 29, fev. 2008), a fantasia, a ficção foi apontada mas, não de todo, desmascarada, demolida, eliminada. A baboseira intitulada A origem da cachaça, atribuída ao Museu do Homem do Nordeste, da Fundação Joaquim Nabuco (Gilberto Freyre e Mario Souto Maior estão revirando-se nas sepulturas...), circula em arquivo anexado a mensagens na Internet há alguns anos. Ainda não consegui descobrir qual inventivo e desocupado indivíduo construiu tanta asneira. Localizei, sim, o webdesigner que colocou imagem e som na falsa narrativa. Este, por sua vez, desconcertado, comigo desculpou-se, prometeu denunciar o erro ao redator do indigitado texto, mas não me informou o nome do criador da medonha estória. Tudo é ficção tola e inservível, fantasia para encantar, para enganar curiosos, gente interessada, até bem intencionada. A versão não tem fato, documento ou testemunha de onde pode originar-se. E não passa disto. Exaure-se em si mesmo, isto é, na sua própria inconsistência, em nada. Nenhum fundamento histórico ou científico. Nenhuma palavra, linha ou idéia se aproveita no tal arquivo que circula nos computadores. Por outro lado, a matéria da Revista é falha, não é conclusiva e desinforma, porque:

1º) Portugueses, e outros povos, fabricavam, sim, aguardentes, mas jamais “cachaça”, o destilado do mosto fermentado do caldo, do melado, da rapadura ou do melaço da cana-de-açúcar (hoje, por lei, “cachaça” é apenas o destilado do mosto fermentado do caldo da cana-de-açúcar). O texto indecente que circula na Internet intitula-se A origem da cachaça (sic) e não da aguardente. Bebida da espécie “destilado” e pertencente à categoria das “aguardentes”, a Cachaça foi inventada no Brasil entre 1533 e 1534 pelo colonizador Martim Afonso de Souza e seus quatro sócios (três lusos e um holandês), em plena Mata Atlântica, nos três primeiros engenhos de açúcar construídos pelos cinco no Brasil (as primeiras indústrias do País), em São Vicente (hoje o local pertence a Santos): Madre de Deus, Santo Antônio e São Jorge, este conhecido, também como "dos Erasmos" ou "do Governador", único do qual restam ruínas. Martim Afonso trouxe o primeiro alambique para a terra recém-descoberta, engenhoca utilizada na Península Ibérica desde o início da Idade Média, e destilou a cana, cujas primeiras mudas chegaram à nova terra pelas mãos de Gonçalo Coelho em 1502.

2º) Antonil, no clássico Cultura e Opulência do Brasil, descreve, passo a passo, o fabrico seiscentista e primitivo do açúcar, mas em nenhum momento trata de “cachaça” na acepção que temos, para designar a bebida nacional, que conhecemos e amamos. Ele emprega o termo para designar outra bebida, ou melhor um subproduto, um resíduo descartável do processo de fabricação do açúcar. Quando ele escreve “cachaça” está se referindo à escuma (espuma) eliminável, descartável, da primeira fervura do caldo no início do processo. E por que ele usa “cachaça”? Porque “cachaça”, apesar de ser uma palavra da língua portuguesa, termo generalizado na fala do povo do Brasil na segunda metade do Setecentos, não obstante um termo que denomina a bebida nacional, mesmo sendo uma criação linguístico-cultural genuína e absolutamente brasileira, brasílica – origina-se do espanhol “cachaza” que, na Península Ibérica, designava uma “bagaceira popular ou de baixa qualidade”. Sites e arquivos habitam a Internet oferecendo outras versões fantasiosas sobre a origem da palavra “cachaça”, todas ineptas. Os colonizadores e os primeiros brasileiros importaram a palavra e sua semântica para designar algo inferior, desprezível, no caso a escuma da primeira fervura que era dada às animálias. Observe-se que a palavra “cachaça” antes de denominar a nossa emblemática bebida, um símbolo nacional, serviu para chamar o lixo, o resto, a sobra. Compreenda-se a origem espúria que lhe foi dada através da diacronia da palavra. “Cachaza” nasceu e era usada no Velho Mundo, e depois foi aplicada aqui, para designar um produto inferior, pobre, subalternizado na cadeia industrial e na escala de valoração cultural. Eis uma das raízes, uma das causas histórico-culturais de discriminação, pré-conceituação, criminalização e patologização da cachaça na nossa sociedade. Antonil emprega fartamente mel, mel de cana, meles, garapa, melado, açúcar, água ardente (a nossa cachaça, palavra composta, escrita sem aglutinação) e nomes de outros produtos e subprodutos da indústria açucareira, para descrever processos e regimes, explicar fabricos, registrar produção e comércio. Porém “cachaça” ele escreve apenas e tão somente para denominar essa escuma residual, não alcoólica, destinada aos currais, jamais no sentido e na aplicação que foi generalizada a partir do Século XVIII e que temos hoje. Para não dizer que Antonil foi absolutamente coerente em toda a sua obra nesse mister, uma única vez ele escreve “cachaça” para não se referir a tal escuma, mas, sim, à “cachaça azeda” ou garapa azeda ou garapa doida ou cerveja de cana, que é o que conhecemos como mosto, mucungo ou quira, isto é, o caldo fermentado da cana-de-açúcar, que tem em torno de 12% de álcool ao volume a 20o Celsius. Entretanto, ainda não temos a “água ardente” com o nome de “cachaça”, referenciada por Antonil, resultado do ato de “estilar” (destilar) de que nos fala o jesuíta italiano.

3º) Demolindo o estapafúrdio texto que circula na Internet: “Pinga”, palavra já empregada muitas vezes por Antonil, antes dele já designava “porção ou parcela mínima de líquido que escorria, que gotejava, gota, gole, trago”, não só do caldo da cana ou de seus derivados, mas de qualquer líquido, alcoólico ou não. “Pinga” como sinônimo de cachaça aparece na fala do povo e nos documentos dos escrivães e cronistas desde a invenção da cachaça. Diz-se “pinga” porque pingava, e pinga, escorre, goteja, na ponta do alambique, e não do telhado, das ripas de senzala alguma, pois em senzala nunca se fabricou melado, açúcar, muito menos cachaça. O composto “Aguardente” ou “água ardente” é palavra medieval, pretérita ao surgimento da cachaça, porque já existiam outras aguardentes, como a bagaceira, o korn, o schnapps, a vodca, o gim, a genebra, a aquavita, o quirche, a cidra, o poteen, o arac, o uísque e as aguardentes vínicas como o conhaque, o armanhaque, o brandy, o ouzo, a mastika, o pisco e outras, antes da bebida brasileira. Portanto a origem da palavra “aguardente” nada tem a ver com açoite de escravos com lombo molhado de cachaça. Pura fantasia inverossímil, implausível.

4º) “Cachaça” e “garapa” são termos falados e escritos no Brasil, em várias acepções, desde o Século XVI, a partir das atividades dos primeiros engenhos e da invenção da bebida. A palavra “cachaça”, a nossa aguardente de cana-de-açúcar, não começa a circular apenas “até a terceira década do século XVII, quando surgem as primeiras notícias da aguardente da cana-de-açúcar destilada em alambiques”, como afirma, equivocadamente, o artigo. Encontramos a palavra “cachaça” escrita designando a nossa aguardente de cana-de-açúcar, no início do século XVII nos Anais da Câmara de Salvador, Bahia. Antes disto, Gabriel Soares de Sousa, no seu Tratado Descritivo do Brasil em 1587, registra uma “casa de cozer meles com muita fábrica” também na Bahia, onde se produzia açúcar, melado, rapadura e cachaça. Outrossim, aguardente de cana-de-açúcar só poderia ser destilada em alambiques e não por qualquer outro processo. Ademais, “agoa ardente”, “água ardente”, “aguardente” sempre foi dito e escrito desde o Descobrimento. “Aguardente da terra” em oposição à “aguardente do reino” ou “aguardente de fora” antecedeu à “geribita da terra” ou ”giribita da terra” (ou jeribita ou jiribita... existem diversas outras formas) com a mesma antítese, ainda no Século XVII, é verdade. Antes de aguardente, geribita e cachaça, mais precisamente nos séculos XVI e XVII, muito mais se falou e se escreveu mel de cana, vinho de cana, vinho de mel, vinho de mel de cana.

5ª) Outra conclusão vesga do artigo da revista: Tomás Antônio Gonzaga não criou expressão “cachaça ardente”. Quando nos versos da 5ª Carta , da obra Cartas Chilenas (1788-9) – “Pois a cachaça ardente que o alegra, / Lhe tira as forças dos robustos membros” – o bardo mineiro não criou neologismo ou sinonímia alguma para a cachaça. Apenas expressou-se poeticamente, sem metáfora, adjetivando sem originalidade a bebida, repetindo um julgamento comum e indestrutível: Cachaça é uma água ardente saborosa, que arde, que queima prazerosamente, pelo volume de álcool que contém e pela sua acidez natural e necessária, e que, entretanto, desce macia, sem queimar, deliciosamente pela garganta e esôfago até o estômago. Gonzaga antecipa-se ao comerciante inglês John Luccock que publica em Londres, em 1818, o que viveu no Brasil dez anos antes: “Provei e adorei as águas de fogo de Paraty”. A cachaça não apenas esquenta o corpo e o espírito, provoca “sensação de calor” como informa o artigo. Antes de aquecer o corpo e o coração, antes de alimentar a alma, cachaça, na boca, quando inunda a boca, arde realmente. E assim deve ser. E essa doce e orgástica ardência é uma das suas mais sublimes e misteriosas virtudes.

6ª) A cachaça Anísio Santiago (ex- Havana), de Salinas, MG, não é uma das mais antigas e tradicionais do Brasil. Quem escreveu isto sabe de cachaça tanto quanto o sertanejo de Bebe-Mijo, no Piauí, sabe de esqui no gelo. Leitura de mídia superficial, errônea e leviana. Para uma bebida que está fazendo 475 anos de vida, uma cachaça de quatro, cinco décadas não significa coisa alguma. Além de não ser cachaça mas apenas uma cachaça mal envelhecida, filha de uma desconhecida cachaça ruim - a Anísio Santiago não possui excelência sensorial alguma. Trata-se de bebida apenas ingerível por quem conhece cachaça, mas nunca saborosa, com qualidade sensorial superior. Minas consome cachaça desde a descoberta do ouro, porém fabrica há menos dois séculos. Salinas, por outro lado, não tem cachaça nem tradição. Produz, há algumas décadas, e em quantidade, cachaça envelhecida de má qualidade, tingidas em madeiras agressivas, oriundas de pingas ruins que não chegam ao mercado, que são escondidas pelos seus fabricantes. Se a Revista quisesse ilustrar o texto com algum rótulo deveria fazê-lo com o de alguma cachaça de Paraty, RJ, o mais antigo centro produtor de cachaça do mundo, que exibe mais de quatrocentos anos de tradição, ciência, arte, excelência na fabricação de cachaça. A Coqueiro e a Corisco, ambas de Paraty, por exemplo, as melhores cachaças que existem, são feitas por famílias que produzem cachaça, no mínimo, há mais de duzentos anos, ininterruptamente, de pai para filho. Sabedoria e mestria entre gerações.

A Revista já havia publicado, em 2006, artigo sobre a cachaça prenhe de equívocos e imprecisões de toda ordem. A brasileira Cachaça é desejo de bilhões de terráqueos, bebida de milhões de consumidores, curiosidade de milhares de habitantes, interesse de centenas de intelectuais. Mas assunto para muito poucos.

Cordialmente,


Marcelo Câmara

(*) MARCELO Nóbrega da CÂMARA Torres, 58, jornalista, escritor, editor e consultor cultural. Cachaçólogo, é autor de Cachaças bebendo e aprendendo – Guia prático de degustação / drinking and learning – Practical guide to tasting (Mauad, 2006), primeiro e único livro de degustação de cachaças, e de Cachaça – Prazer Brasileiro (Mauad, 2004), primeira obra dirigida ao mercado, ao consumidor real e potencial da bebida nacional. Pingófilo por mais de cinqüenta anos, foi o primeiro degustador de cachaças a se profissionalizar, exercendo o ofício de 1994 a 2007.


Marcelo Câmara assina a primeira página do Paladar, do Estadão

Marcelo Câmara foi o autor do texto de abertura da edição nº 100, do Caderno Paladar, Especial sobre Cachaça, do jornal O Estado de São Paulo , que circulou a 16 de agosto de 2007. Abaixo, o texto na sua versão original.


Cachaça: sabor da alma brasileira

No princípio era a cana, o açúcar, o melado, a rapadura e o melaço. E, no alambique, destilou-se o mosto fermentado. E nasceu o vinho de mel de cana, aguardente da terra, vinho da terra, jeribita da terra. A excelência foi chamada de paraty, um destilado superior e mais caro, feito na cidade do mesmo nome. Finalmente Cachaça, do espanhol cachaza, bagaceira popular. Depois, pinga, cana, caninha. Bebida dos mestiços, negros e índios, dos brancos, dos primeiros brasileiros. Bebida do povo. Farta e barata. Libertária, democrática. “Alimento”, oferenda, estimulante, moeda, mercadoria, meio de escambo, cobiçado butim, produto de exportação – a Cachaça, nos seus engenhos, explora o território, coloniza, conquista, finca a cruz, marca fronteiras, funda vilas, sustenta ciclos econômicos, umedece toda a nossa História, os caminhos e as lutas do Povo Brasileiro. Transforma-se em símbolo da Independência, da Soberania, da Nacionalidade. Encharca a Cultura Nacional, o sonho, o culto, a mesa, a festa. Inebria a música, o canto, a dança, o drama, o rito. Conspira, celebra, motiva, comemora, cura, consola. É tema, motor, elemento, moldura, ornamento.

Perseguida, proibida e contrabandeada, discriminada e incriminada – a Cachaça resistiu a tudo, venceu a todos. Foram 124 anos de proibição legal da produção, comércio e consumo da cachaça: de 1635 a 1759. Paulista, inventada em São Vicente, junto com o Brasil, ela está completando 474 anos de vida. A sua alma é a mesma do Povo Brasileiro: feita de suor, sonho, alegria, mística, sensualidade e beleza. Cruzou regimes políticos e sistemas de governo, driblou a intolerância, o medo e a censura, ultrapassou os planos econômicos, disputou mercados, ganhou devotos, impôs-se pura, verdadeira, límpida, transparente, solar, com o seu telúrico e tropical aroma, a sua deliciosa e sensual ardência.

25 mil produtores fazem 300 milhões de litros de Cachaça artesanal, destilada em alambiques, em bateladas, seguindo um regime e um tempo de produção no ritmo da vida, onde os processos e técnicas são naturais e uma tecnologia secular, aliada à sensibilidade, à vocação e ao talento, determinam a qualidade, rumo à excelência sensorial. Outras 5 mil empresas, com equipamentos automatizados, fabricam 1 bilhão de litros de Cachaça industrial, em destiladores contínuos, de coluna, milhares de litros por minuto, com controle e intervenção sobre a estrutura físico-químico da bebida, visando à padronização.

Cachaça é a bebida que pinga na ponta do alambique, branca, nova e fresca, no máximo descansada em madeira quase-neutra, Cachaça com cheiro de cana, somente cana, e nada mais, lembrando rapadura e melado. Cachaça envelhecida não é Cachaça. Cachaça envelhecida é Cachaça envelhecida, uma outra bebida. Ela foi alterada nas suas características sensoriais pela madeira, que temperou a sua cor, o aroma e o sabor. Mas a sua alma não pode ser violentada, corrompida a sua natureza, que é de cana, cana e cana, elemento que deve continuar prevalecendo.

A Cachaça reina como nome típico e exclusivo da bebida nacional, única, feita no Brasil, com graduação alcoólica de 38 a 48 por cento e características sensoriais peculiaríssimas. Uma moderna e rigorosa legislação busca garantir a identidade, o caráter e o padrão da Cachaça nos mercados interno e internacional. A produção anual é de 1,3 bilhão, gerando 900 mil empregos e 600 milhões de dólares. 125 mil hectares de lavouras de cana-de-açúcar abastecem milhares de destilarias e engenhos. Exportamos menos de 1%, 12 milhões de litros. São Paulo é o maior produtor, Minas Gerais o maior fabricante artesanal. Paraty, o centro de excelência, que transmite alquimia – ciência e arte – entre gerações há mais de 400 anos, fabricando a melhor Cachaça do mundo. Todos os Estados produzem Cachaça. 6 mil marcas estão num mercado com 900 mil pontos de venda.

Com aroma fascinante, sabor rústico, a Cachaça de excelência exibe virtudes insuperáveis. Nenhum destilado do mundo possui a exuberância sensorial da Cachaça. Pura ou como base fundamental e insubstituível na Caipirinha, nas batidas e drinques – a Cachaça é como uma grande paixão: forte, poderosa, absoluta, devastadora. E, ao mesmo tempo, bem-aventurada, benfazeja, necessária, prazerosa.

Genuinamente brasileira, é a segunda bebida mais consumida no País, o primeiro destilado. Cada brasileiro bebe 11 litros de Cachaça por ano. Uma população, na sua imensa maioria pobre, urbana e rural, consome 900 milhões de litros. A classe média e as elites, que sempre beberam Cachaça com pudor e eventualmente, começam a descobrir a Cachaça, o que ela tem a ver com a nossa identidade. Só se ama e se deseja o que se conhece.

A edição nº 100 do Paladar quer brindar com você, leitor, o vigor e o sucesso da Cachaça, um dos mais importantes produtos da nossa economia, uma das mais belas e caras expressões da Cultura Brasileira, um símbolo da brasilidade, que, no mundo, representa a nossa alma, o talento, a arte e a alegria da nossa Gente.

Leia com prazer. Deguste. Afetuosamente.
É simples como viver e amar.
E só se aprende fazendo.
Saúde!


Marcelo Câmara

Cachaçólogo, pingófilo e degustador profissional de Cachaças.
Autor dos livros: Cachaças bebendo e aprendendo – Guia prático de degustação e
Cachaça – Prazer Brasileiro, ambos da Mauad Editora.


Para você entender

A Indicação de Procedência
da Cachaça de Paraty

Marcelo Câmara


Cachaçólogo, pingófilo e degustador profissional, criador das normas e critérios sensoriais para degustação de cachaças.
Autor dos livros: Cachaça – Prazer Brasileiro e Cachaças bebendo e aprendendo – Guia prático de degustação, ambos da Mauad Editora.


Muita gente não entendeu bem o que aconteceu no último dia 8 de maio no Rio de Janeiro, quando a Associação dos Produtores e Amigos da Cachaça de Paraty – Apacap – recebeu do Instituto Nacional da Propriedade Industrial – INPI – o Certificado de Indicação Geográfica, na modalidade Indicação de Procedência, da Cachaça de Paraty. Os meios de comunicação vêm reproduzindo erros e imprecisões, palpites de oportunólogos, de especialistas de ocasião, de pessoas pouco informadas sobre o assunto. E pior: bebedores que nunca reconheceram a superioridade da Cachaça de Paraty, mas, ao contrário, sempre a denegriram, e, agora, posam de “profundos conhecedores das pingas de Paraty”, prosélitos do que nunca acreditaram. Afirma-se que “a Indicação de Procedência da Cachaça de Paraty equivale as Denominações de Origem cognac e champagne, na França”. Não é verdade, não é isto.

Paratyense, na condição de estudioso, de divulgador e defensor, quase que solitário, por mais de cinqüenta anos, da excelência e primazia da Cachaça de Paraty, autor de dois livros de vanguarda e de mais de uma centena de trabalhos publicados sobre a bebida brasileira, onde elevo a Cachaça de Paraty, e, ainda, apesar de não ter sido convidado para a cerimônia de entrega do Certificado, nem ao menos avisado sobre o evento – sinto-me participante dessa conquista. Além desse meu trabalho ininterrupto de estudo e de realizações por meio século em favor da Cachaça de Paraty, distinguindo a sua primazia e excelência, lembro-me de que, nos anos de 1998 e 1999, dialoguei muito com Casé Miranda, jovem que se iniciava no universo da cachaça, como sócio do saudoso Príncipe Dom João de Orleans e Bragança, na fabricação da Maré Alta. Insistia com ele e com os mestres alambiqueiros Eduardo Mello (Coqueiro) e Aníbal Gama (Corisco), meus amigos de infância, que a revitalização e afirmação da Agroindústria da Cachaça em Paraty começaria com a organização dos produtores, com a criação de uma entidade classista que os reunisse em torno de idéias, interesses, objetivos e propostas pela recuperação e desenvolvimento do setor. Argumentava que o Estado, paternalisticamente, não cederia ou concederia nada à cachaça. Tudo teria de ser conquistado com bandeiras e luta. A entidade seria indispensável, fundamental, seria o primeiro passo, antes de se falar em aumento da produção e da produtividade, padrão de excelência, incentivos, exportação etc. Conversei bastante com eles sobre o belo exemplo de Minas Gerais. Ofereci, então, além de conhecimento e informação, os meus serviços profissionais para elaborar o estatuto da entidade, registrá-la legal e juridicamente. Casé, à época, após uma sondagem, me respondeu que não havia sensibilidade, união e recursos para o surgimento de uma associação. Após reduzir a minha remuneração pela metade, me dispus a fazer tudo gratuitamente. Cheguei a ir a Paraty para convocar uma reunião com os produtores. Não houve interesse, não tive sucesso. Lamentei. Anos depois, com as bênçãos de São Benedito, nasceu a Apacap.

Hoje, posso afirmar que 8 de maio de 2007 foi um dia muito importante não apenas para o Município de Paraty, para a Agroindústria da Cachaça, para o Estado do Rio de Janeiro, para o País. Nasce como uma data histórica para a nossa Economia, para a Cultura Brasileira.

Há 474 anos a cachaça era inventada na Capitania de São Vicente, e, décadas depois, em 1600, Paraty, sesmaria na mesma Capitania, já era o centro de excelência, lugar onde nos seus engenhos se fabricava o melhor “vinho de mel de cana”, a melhor “jiribita da terra”, a melhor aguardente de cana-de-açúcar do mundo. A palavra “cachaça” só foi generalizada na fala do povo próximo a 1800. Porém antes de 1700 a palavra “paraty” já designava não apenas o “vinho de cana”, a “aguardente da terra”. “Paraty” era traduzida como a melhor, a mais pura, a mais nobre aguardente de cana-de-açúcar. Em todo o Século XIX e na primeira metade do Século XX, na maioria das províncias e estados do Brasil, e nos países estrangeiros, mais se falou e se escreveu “paraty” do que “cachaça”, “cana” ou “pinga”. A comprovação disto está no Jornalismo, na Literatura, na Historiografia, nos registros dos cronistas e viajantes de todo o mundo, na nossa Cultura Popular, no nosso Folclore. Até meados do século passado, em muitos rótulos das pingas de Paraty, o uso da palavra “paraty” prevaleceu sobre “cachaça”. Eu possuo a maior e mais completa coleção de rótulos de cachaças de Paraty, identificação que surgiu na década de 1930. Vários desses rótulos não trazem a palavra “cachaça” e sim “paraty” seguida da marca, da fazenda ou engenho de origem, ou do nome do seu fabricante. São mais de quatro séculos de sabedoria e tradição, de ciência e arte, de conhecimento empírico, de tecnologia eficaz e verdadeira, excelência confirmada e aprimorada, a cada dia, pelas universidades e instituições de pesquisa. São mais de quatro séculos de alquimia, de amor, preservação e veneração a uma bebida, símbolo da nacionalidade, que encharca toda a História e a Cultura do Povo Brasileiro.

Da riquíssima sinonímia da palavra “cachaça”, acervo de mais de mil termos, a palavra “paraty” é a que possui maior lastro cultural e histórico, nacional e internacionalmente. Hoje, em 2007, a maioria dos habitantes de qualquer país do mundo com mais de sessenta anos de idade pode não conhecer a palavra “cachaça”, mas sabe, ou já ouviu dizer, que “paraty” significa um primoroso destilado brasileiro feito da cana-de-açúcar, de qualidade superior, de excelência sensorial superior.

Reconhecimento e proteção

A Indicação Geográfica – IG – constitui um instituto jurídico, previsto na nossa Lei da Propriedade Industrial, de 1996, que visa reconhecer e proteger o nome geográfico de pais, região ou localidade, que identifique algum produto ou serviço típico. Na Europa, existem mais de 3 mil produtos agropecuários com certificados de IG. No Brasil, a certificação é recente. A IG resulta na fidelização do consumidor, que saberá que, sob a etiqueta da Indicação Geográfica, vai encontrar um produto de qualidade e com características locais, peculiares a um determinado lugar. A Indicação Geográfica também favorece a melhoria da comercialização, facilitando o acesso aos mercados através da propriedade coletiva. O produto com Indicação Geográfica ganha maior competitividade nos mercados interno e internacional, uma vez que o certificado projeta imagem associada às virtudes e à tipificação, promovendo uma garantia institucional da qualidade, reputação e identidade.

A IG realiza-se através de um registro junto ao INPI, que expede um Certificado específico. Entre nós, existem dois tipos de Indicação Geográfica: a Indicação de Procedência e a Denominação de Origem. São dois registros diversos, com implicações e conseqüências jurídicas e econômicas diferentes. A Indicação de Procedência traduz-se no “nome geográfico de país, cidade, região demarcada ou localidade de seu território, que se tenha tornado conhecido como centro de extração, produção ou fabricação de determinado produto ou de prestação de determinado serviço”. Na embalagem do produto estará gravado “Indicação de Procedência”. Já a Denominação de Origem se dá quando o nome geográfico de país, cidade, região demarcada ou localidade de seu território, designa produto ou serviço cujas qualidades ou características se devam exclusiva ou essencialmente ao meio geográfico, incluídos “fatores naturais e humanos”. A embalagem do produto trará a inscrição “Denominação de Origem”.

Note-se que um produto que goze da Indicação de Procedência terá o direito exclusivo de utilizar o nome geográfico onde é fabricado. Porém, um produto que detenha a Denominação de Origem não anunciará, com exclusividade, apenas o nome geográfico. O nome geográfico denominará o produto, como ocorre, por exemplo, com dois produtos da França: o brandy fabricado na região de Cognac se denomina “cognac”, e o vinho branco espumante fabricado na região de Champagne se denomina champagne. O brandy fabricado na região de Cognac ostenta qualidades e características únicas, peculiares, diferenciadas dos outros brandies fabricados no mundo, características estas devidas exclusiva e essencialmente àquela região, incluídos os fatores naturais e humanos. Esses fatores são o solo e o clima, o conhecimento, a tecnologia, o modo de fazer peculiar, a sabedoria pertinente, as práticas, a tradição, a cultura que gravita em torno da atividade e do produto. Na Denominação de Origem não basta que o nome geográfico seja famoso, que o lugar tenha se tornado conhecido como centro de produção de determinado produto. Aliado aos “fatores naturais e humanos”, um outro elemento é indispensável: a qualidade. Mas não é apenas a “qualidade legal”, ou seja, que o produto cumpra as especificações e exigências da lei. Se for bebida, por exemplo, não basta que apenas seja resultado de um determinado processo de produção, possua uma determinada composição química, tenha um determinado envasamento, que a sua ingestão normal não seja prejudicial, nociva ou letal à saúde e à vida humana. Esta qualidade não basta. Isto é como o político ser honesto. Não passa de uma obrigação. A qualidade que diferencia e denomina, por exemplo, as bebidas cognac e champagne é a qualidade sensorial, a superioridade e excelência na aparência, cor, consistência, textura, aroma, sabor e digestibilidade. Esta excelência sensorial é comprovada por bancas sensoriais formadas por degustadores profissionais, por provadores formados e treinados que atestam se aquele brandy feito na região de Cognac é realmente cognac ou se não passa de um simples brandy como tantos outros; se aquele vinho branco espumante feito na região de Champagne é champagne ou não passa de um simples espumante feito em tantos outros lugares do mundo.

A Denominação de Origem

O Certificado que a Cachaça de Paraty recebeu do INPI foi o de Indicação de Procedência, isto é, o direito exclusivo de somente as pingas fabricadas no município exibirem em seus rótulos a indicação: Cachaça de Paraty, seguida da expressão “Indicação de Procedência”. Somente as cachaças fabricadas em Paraty poderão usar o nome geográfico “Paraty” em seus rótulos, quando se sabe que várias marcas de cachaça, em diversos Estados, usam o nome “paraty” para denominar cachaça . Mas este direito não é exatamente o mesmo que ocorre com as bebidas cognac e champagne. Qualquer pinga fabricada em Paraty, seja ela de excelência, mediana ou ruim, cumpridas as exigências legais, independente da sua qualidade sensorial, poderá usar em seu rótulo a inscrição “Cachaça de Paraty”, seguida da expressão “Indicação de Procedência”. Trata-se, apenas, de uma Indicação Geográfica, na modalidade Indicação de Procedência. Mesmo havendo “uma estrutura de controle sobre os produtores” de Paraty, para a concessão da Indicação de Procedência, conforme exigiu a lei para a concessão do Certificado, nenhum crivo sensorial, nenhuma banca sensorial de degustadores atestou ou atestará o padrão de excelência sensorial das cachaças de Paraty, padrão este cujas marcas de tradição Coqueiro e Corisco são exemplos cabais.

O Registro é justíssimo, resultado de uma atividade econômica primacial e emblemática na vida de um dos mais belos sítios da Terra, Paraty, Município Monumento Nacional, dono do mais harmonioso conjunto arquitetônico colonial do País. O Registro vem consagrar mais de quatrocentos anos de história de uma bebida que antes de se chamar “cachaça” foi chamada de “paraty”. Ainda hoje, a Cachaça de Paraty continua única, inigualável, sem similares, sendo feita artesanalmente com os mesmos fundamentos e segredos exclusivos e invioláveis que fazem dela um produto diferenciado na cor, no aroma e no sabor. Há mais de quatro séculos, a bebida denominada “paraty” gera riqueza, arte, beleza, é centro difusor e polarizador de Cultura nas suas mais diversas áreas e expressões.

A Indicação de Procedência da Cachaça de Paraty irá distingui-la de outras cachaças, será, mais que uma impressão digital, uma carteira de identidade para o produto, proclamando a sua origem, o lugar onde ela é feita. A Cachaça de Paraty estará protegida das fraudes, irá aumentar o seu valor agregado. A ela está conferido um diferencial de mercado, em função das características e da cultura própria do seu local de origem, preservando-lhe as suas belíssimas particularidades. Irá, também, incentivar novos investimentos, elevando o padrão tecnológico dos engenhos, multiplicando os empregos e favorecendo o turismo.

Paraty, mesmo em meados do século XVIII, quando possuía mais de uma centena e meia de alambiques, engenhocas destiladoras de aguardente de cana-de-açúcar, sempre se distinguiu pela qualidade insuperável, jamais pela quantidade, pela grande produção. E Paraty continua, com uma modesta produção de 200 mil litros anuais, a fabricar a melhor cachaça do mundo, cachaça de caráter, primorosa, quimicamente perfeita, de aroma rústico e sedutor, sabor pleno e inigualável. Atualmente, somente quatro empresas estão, legal e juridicamente, autorizadas a fabricar cachaça em Paraty: a Destilaria Engenho d’Água, na Fazenda Cabral, de Eduardo Mello, onde nasce a Coqueiro; a Destilaria Corisco de Paraty Ltda., na localidade do Corisco, de Aníbal Gama, onde é feita a Corisco; a empresa Morycana Indústria de Bebidas Ltda., na Fazenda Bananal; e a empresa Paulo Eduardo G. Miranda ME, no Sítio Pedra Branca, na Ponte Branca. Desses quatro engenhos, apenas dois estão em atividade regular e contínua, isto é, fabricam cachaças atualmente: a Coqueiro e a Corisco. Paraty possui apenas seis marcas de cachaça registradas no Ministério da Agricultura, marcas que não são clandestinas: Coqueiro, Corisco, Murycana, Paratiana e Labareda.

A Indicação Geográfica da Cachaça de Paraty, na modalidade Indicação de Procedência, é o quarto registro conferido pelo INPI a um produto nacional, das dezenas de pedidos feitos a partir do ano de 2000. Os três primeiros foram para: os Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos do Rio Grande do Sul, o Café do Cerrado de Minas Gerais e a Carne do Pampa Gaúcho. É, também, o primeiro passo para a concessão futura do Registro de Denominação de Origem para a Cachaça de Paraty. Isto será possível? Creio que sim. Até hoje, o INPI não concedeu nenhum Certificado de Denominação de Origem a qualquer produto nacional. Por enquanto, teremos o direito do uso exclusivo da identificação “Cachaça de Paraty” para as cachaças fabricadas no município. Mas a Cachaça de Paraty já possui todos requisitos, ou seja, já apresenta, em sua fabricação, todos os “fatores naturais e humanos”, dos quais trata a lei e aos quais me referi, para requerer a Denominação de Origem “Paraty”, que deverá ser usada para a cachaça fabricada em Paraty. Então, com a Denominação de Origem “Paraty”, poderemos ter impressos nos rótulos, se os produtores desejarem, “Paraty Coqueiro” e “Paraty Corisco”, seguidos das expressões “Denominação de Origem” e “Cachaça de Paraty”. Com a Denominação de Origem será reconhecida e protegida uma bebida de características singulares, cujo processo de produção é peculiar, próprio, exclusivo dos produtores de Paraty. Essa sabedoria, essa tecnologia, é um patrimônio cultural imaterial de mais de quatrocentos anos, de valor inestimável, patrimônio herdado, teluricamente, entre gerações, hoje propriedade de algumas famílias paratyenses. Porém, para a expedição do Certificado da Denominação de Origem da Cachaça de Paraty, quando o nome geográfico “Paraty” será identificador da cachaça produzida no município, além daqueles “fatores naturais e humanos”, a questão da qualidade sensorial continuará pendente, pois, infelizmente, não existe lei ou ato normativo prevendo a utilização de banca sensorial, capaz de comprovar a singularidade e excelência sensorial de uma bebida, como acontece com as Denominações de Origem “cognac” e “champagne”. O advogado brasileiro Marcos Fabrício W. Gonçalves, mestre em Direito pela Universidade de Lisboa, especialista na matéria, autor de tese única sobre Indicações Geográficas, em fase de publicação, considera importante a alteração ou regulamentação da lei com o objetivo de sanar esta lacuna, criando-se mecanismos, como a banca sensorial, para viabilizar as Denominações de Origem. A teoria e a experiência de outros países indicam que, obtida a Denominação de Origem “Paraty”, ela somente deveria ser exercida com a participação indispensável de uma banca sensorial de degustadores profissionais, de provadores formados e treinados para avaliar se determinada cachaça fabricada em Paraty possui a singularidade e excelência da bebida “Cachaça de Paraty”, segundo a sua tradição, o seu padrão sensorial superior, consagrada há mais de três séculos.

Como vimos, nem todo o brandy feito na região de Cognac, na França, recebe a denominação “cognac”. Nem todo o vinho branco espumante fabricado na região de Champagne, na França, é “champagne”. Não bastará que uma cachaça seja fabricada no município de Paraty, para receber o direito do uso exclusivo da Denominação de Origem “Paraty”. As características, segundo o padrão tradicional de qualidade sensorial de cor, aroma e sabor da Cachaça de Paraty, é que concederão, aos produtores de Paraty, o direito do uso exclusivo da expressão “Denominação de Origem”. Interessante notar que os produtores de vinhos do Vale dos Vinhedos, mesmo possuindo apenas a Indicação Geográfica, mantém bancas sensoriais que atestam o padrão de excelência sensorial dos seus produtos. Com a futura Denominação Geográfica “Paraty”, todas as cachaças fabricadas no Brasil serão cachaças, mas somente aquela fabricada em Paraty, com um específico padrão e excelência sensorial, se chamará “Paraty”. Hoje, se indaga: - O senhor deseja brandy ou cognac? – O senhor vai escolher um espumante ou prefere champagne? Com a Denominação de Origem “Paraty”, o balconista do bar ou o garçon do restaurante perguntará: - O senhor vai beber cachaça ou paraty?

Conquista

Está de parabéns pela conquista da Indicação de Procedência a APACAP, na pessoa de Eduardo Mello, ex-presidente e atual vice-presidente que liderou o processo que culminou com a Certificação. Considero Eduardinho o melhor alambiqueiro do mundo, o artesão que personaliza “o modo paratyense de fazer cachaça”. Sua família inventa cachaça há trezentos anos. Eduardo Mello sintetiza sabedoria, esmero, trabalho, amor, generosidade, doação, humildade para aprender e ética para não transigir com a ilicitude, com a má qualidade, a falsificação e o lucro fácil. A Cachaça Coqueiro, que ele fabrica, e que considero a melhor do mundo, foi a primeira do Brasil a receber o “Selo de Cachaça de Excelência” do Ministério de Agricultura.

A Indicação de Procedência da Cachaça de Paraty não é só uma vitória dos produtores de Paraty, daqueles poucos que mantêm as suas empresas legalizadas, as suas marcas registradas e ativas, as suas atividades de acordo com a lei e sob competente fiscalização federal. Constitui uma vitória de uma admirável e produtiva parceria entre os produtores, o Ministério da Agricultura e o Sebrae-RJ. Neste sentido, vale registrar a boa administração do Superintendente Federal da Agricultura no Estado do Rio de Janeiro, Pedro Cabral, e de sua competente equipe de técnicos tendo à frente os Doutores Celso Merola, Alfredo Morandini e Sérgio Nicolau. Para Cabral, os produtores de cachaça de Paraty “terão que continuar trabalhando muito para honrar o selo de Indicação de Procedência e aumentar a respeitabilidade dele”. Destaque, ainda, para o dedicado trabalho da responsável pelo Balcão do Sebrae em Paraty, a Dra. Maria Auxiliadora Silva, incansável lutadora pela organização dos produtores, a eficácia da parceria, o reconhecimento da singularidade e excelência da Cachaça de Paraty, recebendo a brilhante consultoria técnica do Doutor Ricardo Zarattini, da Fundação Bio-Rio. Por fim, louve-se a seriedade e inteligência do INPI que soube interpretar e aplicar a Lei de da Propriedade Industrial.

Um brinde à permanente e eterna excelência, à indiscutível superioridade da Cachaça de Paraty, sua história, seu prestígio, sua glória.

Saúde! Felicidades a todos!



Os dois rankings de cachaças
construídos por Marcelo Câmara
para a revista Playboy,
edição de abril de 2007

Classificação conforme a Degustação Marcelo Câmara:

a) cachaças maravilhosas, raríssimas e insuperáveis, que você bebe poucas vezes na vida: nota 10; pingas do céu

b) cachaças de excelência, de qualidade superior, muito poucas, raras: notas de 8 a 9,9; pingas do altar

c) cachaças medianas, com qualidade, apenas bebíveis (existem centenas no mercado, a maioria de MG: de 6 a 7,9; pingas da prateleira

d) cachaças ruins, sem qualidade (existem milhares, a maioria do mercado): de 0 a 5,9; pingas destinadas a certas elites;

Ou seja:

1 ) se a cachaça alcançou a nota máxima, 10 (dez), você bebeu uma cachaça maravilhosa, raríssima, preciosa, sublime, insuperável, divina, um néctar, que se degusta uma ou duas vezes na vida. Uma cachaça do céu.

2) se a cachaça ficou com nota entre 8 e 9, 9, você bebeu uma cachaça de excelência, de qualidade superior, perfeita na estrutura química e de virtudes sensoriais primorosas, deliciosa, saborosíssima, prazerosíssima. Uma cachaça do altar.

3) se a cachaça recebeu nota entre 6 e 7,9, você bebeu uma cachaça com qualidade, mediana, com algumas virtudes, bebível, classificável entre o medíocre e o satisfatório. Uma cachaça da prateleira

4) se a cachaça foi avaliada com nota abaixo de 6, isto é, com nota de 0 a 5,9, você bebeu uma cachaça ruim, sem qualidade, com aroma e sabor desagradáveis, sem virtudes, classificável entre o vomitativo e o sofrível, que vai do péssimo ao não-prazeroso. Uma cachaça das destinada a certas elites brasileiras, que odeiam o nosso povo e desprezam a nossa Cultura. Uma cachaça das elites.

Fonte: Cachaças bebendo e aprendendo - Guia prático de degustação (Mauad).


RANKINGS DA CACHAÇA (situação em março de 2007) - Classificação construída a partir da degustação das marcas ativas que provou, que são produzidas e estão no mercado, segundo avaliação crítica do cachaçólogo, pingófilo e degustador MARCELO CÂMARA, primeiro e único degustador profissional de cachaças em atividade no País, criador das normas e critérios sensoriais para a degustação do destilado nacional, autor dos livros Cachaça - Prazer Brasileiro (Mauad, 2004), primeiro livro dirigido ao mercado, ao consumidor real e potencial da bebida, e Cachaças bebendo e aprendendo - Guia prático de degustação (Mauad, 2006), primeiro livro do mundo de degustação de cachaças, a primeira obra a tratar exclusivamente dos aspectos sensoriais da bebida brasileira.


FORMULÁRIO DO JÚRI DA CACHAÇA (PLAYBOY)

10º lugar
Cachaça: ....................................................  Cachaça envelhecida: Cachaça do Barão - Prata, de Leme, SP

9º lugar
Cachaça: ....................................................  Cachaça envelhecida: Três Quedas, de Santa Tereza, ES

8º lugar
Cachaça: Minha Deusa, de Betim, MG             Cachaça Envelhecida: Vale Verde, de Betim, MG

7º lugar
Cachaça: Mato Grande , de Baldim, MG              Cachaça envelhecida: Biquinha, de Coronel Murta, MG

6º lugar
Cachaça: Pedra Azul, de Domingos Martins, ES             Cachaça envelhecida: SalvaGerais Prata, João Pinheiro, MG

5º lugar
Cachaça: GG, de Rio Bananal, ES              Cachaça envelhecida: Samanaú, de Caicó, RN

4º lugar
Cachaça: Aroeirinha, de Porto Firme, MG             Cachaça envelhecida: Tabaroa, de Bichinho, MG

3º lugar
Cachaça: Samanaú, de Caicó, RN             Cachaça envelhecida: Velha Aroeira, Porto Firme, MG

2º lugar
Cachaça: Corisco, de Paraty, RJ              Cachaça envelhecida: Corisco, de Paraty, RJ

1º lugar
Cachaça: Coqueiro, de Paraty, RJ              Cachaça envelhecida: Coqueiro, de Paraty, RJ


Marcelo Câmara
Cachaçólogo, pingófilo e degustador profissional de cachaças.
Autor de Cachaças bebendo e aprendendo – Guia prático de degustação (Mauad)


Final infeliz
para o diálogo Marcelo Câmara - Playboy

Um desfecho funesto, uma covardia” – assim definiu o jornalista, escritor e consultor cultural Marcelo Câmara o seu diálogo com um dos editores da revista Playboy, da Editora Abril, que na sua edição de abril publicou a reportagem Ranking Playboy da Cachaça, considerada pelo cachaçólogo, pingófilo e degustador, “uma matéria desastrosa, farta de equívocos, asneiras e barbaridades”. O editor Jardel Sebba havia prometido publicar, na seção de cartas da edição de maio, devida e corretamente identificados, os dois rankings construídos por Marcelo, a pedido da revista. O editor também solicitou a Marcelo que indicasse quais “os erros (objetivamente) para que possamos dar uma nota corrigindo na próxima edição”.

O especialista, atendendo à revista, preparou então um longo texto apontando, direta e explicitamente, todos os tropeços e tombos, um a um, todos os equívocos, asneiras, ficções, mentiras e barbaridades, demolindo, linha a linha, a infausta matéria. Com a alegação insólita e duvidosa, segundo a qual “a edição de maio da revista foi fechada na última terça-feira, logo será impossível incluir esse comentário que você acaba de mandar na seção de cartas” – o trabalho de Marcelo Câmara foi, mais uma vez, como foram os seus rankings, ignorados e descartados. O editor informou que apenas o seu protesto inicial será publicado na seção de cartas “com a nossa devida resposta” (sic) e que os rankings estarão somente no site da revista. Quanto às indicações que Marcelo fez dos erros e asneiras, todas fundamentadas no seu conhecimento técnico e científico, estas foram para a lata de lixo. No ano passado, Marcelo também concedeu entrevista e construiu rankings justificados solicitados pela Playboy, que também não foram publicados, mas apenas colocados no referido site, ao qual só tiveram acesso os seus assinantes da revista.


URGENTE

Nota de Marcelo Câmara
aos seus amigos, parceiros e clientes

NADA TENHO A VER COM A IGNORÂNCIA

Minhas amigas,
Meus amigos,

Alerto-os quanto à desastrosa matéria publicada na revista Playboy, edição de abril de 2007, intitulada Ranking Playboy da cachaça, onde o meu nome aparece como um dos “treze especialistas” ou “jurados” que opinaram e construíram o famigerado “ranking”.

Nada é legível ou digno de apreensão na matéria, nada se aproveita nela, nem uma linha. Trata-se de um amontoado de equívocos e asneiras. A estrutura da matéria é canhestra, as fontes estranhas, o tratamento inadequado, os comentários medonhos e impróprios, as informações erradas, daí o trágico pseudo-ranking e o texto bisonho, tonto, pleno de tolices e de barbaridades, que denigre e prostitui a nossa amada cachaça, que assusta quem conhece e ama a bebida brasileira.

No início de março, fui, sim, entrevistado pela revista, por telefone e por e-mail, respondi a um questionário do “jornalista”, fornecendo-lhe dois rankings, um de cachaça e outro de cachaça envelhecida. Ambas as classificações foram construídas com base na minha sabedoria crítica e reconhecida autoridade de cinqüenta e um anos de pingofilia e degustação, de minhas vivências e convivências, de realizações no universo da cachaça, e mais de quatro décadas como cachaçólogo que estuda, escreve e publica sobre o tema. A pedido da revista, enviei, também por e-mail, o capítulo A degustação passo a passo, do meu último livro Cachaças bebendo e aprendendo (Mauad), lançado em dezembro de 2006, o primeiro do mundo de degustação de cachaças. Nem uma só palavra do que passei ou disse à revista foi publicada, ao menos considerada. E mais, fui apresentado aos leitores encabeçando uma lista de “jurados” como “autor do livro Cachaça – Prazer Brasileiro”. Ora, o livro que se vinculava, que se colocava jornalisticamente adequado e oportuno à consulta para a elaboração da matéria era Cachaças bebendo e aprendendo, que trata dos elementos sensoriais da cachaça, revelados na arte e técnica de uma degustação, e não o livro citado, uma obra de 2004, também de vanguarda, é verdade, mas genérica quando a finalidade é julgar a qualidade sensorial das cachaças fabricadas no País.

Por que tanta tolice impressa em papel couché, em policromia?

Duas são as causas:

1º) Dos ditos “treze especialistas” – além de mim, criador das normas e critérios sensoriais de degustação da bebida e o primeiro e único degustador profissional de cachaças em atividade no País – identifico, na lista, apenas dois bebedores habituais de cachaça. Isto não significa afirmar que eles estejam aptos a se manifestaram sobre aspectos sensoriais da bebida. Os outros dez “especialistas” são químicos (que fazem análise química, em laboratório, e não sensorial de cachaças), comerciantes, prestadores de serviço do setor, curiosos, neófitos, animadores (ou desanimadores) da cachaça, alguns sem ofício e sem emprego, e, ainda, profissionais e amadores que habitam os territórios do vinho, da cerveja, do uísque e de outros destilados. São pessoas que não têm conhecimento, vivência ou experiência alguma no universo cultural, sócio-antropológico e econômico, da cachaça, muito menos autoridade e respeitabilidade comprovada para avaliar sensorialmente cachaças, objeto da matéria. E, no Brasil, centenas existem habilitados para o mister.

2º) a outra causa do besteirol deve-se ao despreparo e à irresponsabilidade do escrevinhador da matéria.

Sorte minha não ver meu pensamento sobre a cachaça, minha opinião responsável, minhas críticas profissionais misturadas a tanta bobagem e mal editadas na revista. Estaria muito mais comprometido com a insensatez e a patranha.

Mas, quando sou incluído numa lista de amadores, entusiastas e conhecedores de ocasião, quero deixar bem dito e bem claro que nada tenho a ver com o tal ranking, que mistura duas bebidas diferentes, cachaça nova e cachaça envelhecida, e, na sua quase totalidade, enobrece pingas medianas e ruins. Também não assino ou ratifico uma só palavra do texto do “repórter”, nem concordo com as informações errôneas, as risíveis orientações e os ridículos comentários dos denominados “especialistas”.

Marcelo Câmara

Rio de Janeiro, 11 de abril de 2007.


OS OITENTA ANOS DE NEWTON MENDONÇA
E A MORTE DE NORMA

Aos 81 anos, faleceu, na noite de 26 de fevereiro de 2007, vítima de infarto, Norma Ferreira de Mendonça, única irmã do genial músico e compositor de vanguarda Newton Mendonça. Carioca, nascida a 22.1.1926, era a única filha do tenente do Exército Miguel Ferreira de Mendonça Júnior e Celeste Carvalho de Mendonça. Newton nascera no ano seguinte, a 14 de fevereiro, e partiu a 22 de novembro de 1960, aos 33 anos, no terceiro infarto. O irmão caçula, Wilson, nasceu em 1928, e morreu precocemente logo depois de Newton, também de infarto. Manicure, solteira, moradora de Ipanema, apaixonada por Newton, dedicou grande parte da sua vida à defesa da memória e da divulgação da obra do irmão, artista sempre ignorado, reduzido, deformado ou marginalizado por uma "história oficial da Bossa Nova", segundo o jornalista Marcelo Câmara, único biógrafo de Newton. Voluntariosa, de temperamento difícil, a sua intransigência em nada ceder ou tolerar quando a causa era a música do irmão causou-lhe muitos conflitos, desavenças e dor durante toda a vida. Norma foi a primeira e essencial fonte do livro Caminhos cruzados - a vida e a música de Newton Mendonça (Mauad, 2001), de Marcelo Câmara, onde ela é descrita como uma personagem severa, implacável, truculenta, obcecada em fazer justiça ao nome e à arte de Newton, a quem ela definia como "o homem mais importante da minha vida". Norma morreu no Hospital Central do Exército e o sepultamento ocorreu na manhã de quinta-feira, 1º de março, no Cemitério São João Batista.

Newton Mendonça foi o criador de Desafinado, Samba de uma nota só, Meditação, Discussão, Foi a noite, Caminhos cruzados, entre outros clássicos da MPB, hinos e matrizes da Bossa Nova, em parceria com Tom Jobim, de quem foi o primeiro e fundamental parceiro, com quem formou a parceria New-Tom, a dupla mais importante do movimento. Maior amigo de Tom, Newton, também de formação musical erudita, porém órfão, pobre e introvertido, foi quem o conduziu para a Música Popular e com quem começou a compor por volta de 1952. Newton Mendonça se profissionalizou como pianista da noite carioca antes de Tom, em 1950; teve música sua gravada antes de Tom, em 1952; e morreu antes de Tom, em 1960, trinta e quatro anos antes de Tom. Os aquarianos Newton Mendonça e Tom Jobim se conheceram em 1942, quando ambos tinham com quinze anos, em Ipanema, onde moravam.

No dia 14 de fevereiro de 2007 completaram-se oitenta anos do nascimento de Newton Mendonça. Nenhum registro da mídia, nenhuma lembrança ou celebração na Música Brasileira ou por parte dos poderes públicos. Ao contrário, no aniversário de oitenta anos de Tom Jobim, irmão xifópago de Newton, ocorrido dias antes, a 25 de janeiro de 2007, o País todo, com muita justiça, reverenciou a memória de Tom, com programas especiais no rádio e tv, matérias e cadernos especiais nos jornais. O silêncio, mais esta omissão criminosa em relação a Newton Mendonça abalou muito a saúde já fragilizada de Norma, que como o pai e os dois irmãos, falece de uma cardiopatia hereditária, familiar, agravada por problemas pulmonares e anemia. O comportamento dos músicos e compositores e a hipocrisia da mídia em relação a Newton Mendonça não surpreendem Marcelo Câmara. Para ele, “o silêncio, a omissão, a covardia, o cinismo é normal, uma vergonhosa e infame tradição. Lembrar Newton, divulgar a sua obra, contraria interesses vis, atinge mesmices e invencionices, desmonta ficções e mentiras cristalizadas de uma história oficial da Bossa Nova, que quer vê-lo bem morto e esquecido, ignorado por todos do seu real e verdadeiro papel, revolucionário, transgressor, na Música Popular Brasileira”. Além do livro sobre Newton lançado em 2001, Marcelo Câmara produziu o CD Cris Delanno canta Newton Mendonça (Ilha Verde/Nikita) em 2002, com obras solitárias e inéditas do compositor e músicas raras, desconhecidas, da dupla New-Tom. Passados quarenta e sete anos da morte de Newton, nunca foi montado um show com as suas músicas. Marcelo Câmara tentou levar para o palco um espetáculo escrito por ele e que iria dirigir. Mas não conseguiu: “Durante anos, busquei apoio público e privado para viabilizar o projeto, e desisti. Nenhuma inteligência ou sensibilidade, nenhuma adesão, nenhum apoio. Não há interesse em conhecer Newton Mendonça, a sua pequena e ousada obra musical. Mudaria quase tudo o que se tem escrito sobre Bossa Nova. Isto é muito perigoso.”


Romance do sururu

Marcelo Câmara recomenda aos amigos, parceiros e clientes, o livro O sururu que virou ostra (Scortecci), romance-denúncia, ecológico e político, do cientista alagoano Luiz Ferreira da Silva. O livro trata do sururu, molusco que é alimento e renda de milhares de nordestinos, ao contar a saga de Belarmino, um sururuzeiro, no belo sistema flúvio-marinho-lagunar da grande Maceió, que, milagrosamente, resiste à degradação ambiental e à incompetência dos governos. Literatura leve, gostosa, necessária, com muita informação e humor. Este é a quarta obra literária de Luiz Ferreira, engenheiro agrônomo, pesquisador, especialista em solos, consultor científico de prestígio internacional.


Cachaça na Universidade

Cachaça - uma dose de Brasil é título e assunto do vídeo dirigido por Tatiani Costa e Andréia Benite, da turma de Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo, da Uniara - Centro Universitário de Araraquara, SP, trabalho de conclusão de curso que acaba de receber a nota 10 da banca examinadora. O vídeo, com 43'12" de duração, tem o seu texto extraído do livro Cachaça - Prazer Brasileiro (Mauad), do jornalista e consultor cultural Marcelo Câmara, considerado o maior especialista na matéria, e aborda aspectos históricos, sócio-antropológicos e econômicos da bebida nacional. Além dos depoimentos de Marcelo Câmara que roteirizam o trabalho, dezenas de alambiqueiros, comerciantes, pingófilos e pesquisadores de universidades brasileiras testemunham sobre a realidade da nossa pinga no País e no mundo.


Marcelo Câmara em Cabo Verde

A revista Artiletra, a mais importante publicação de educação, ciência e cultura de Cabo Verde, publicou, em seu número 68, de 2005, uma extensa entrevista com o jornalista, escritor e consultor cultural Marcelo Câmara. A entrevista, sob o título Cachaça também é literatura, mereceu chamada de capa da revista, e foi conduzida por Céres Vidal e Veladimir Romano, grande jornalista caboverdiano e intelectual de prestígio internacional, filho de B. Léza, principal músico e compositor daquele país. B. Léza, cujo centenário foi celebrado a 3 de dezembro último, é o criador da maioria dos sucessos, que correm mundo, da grande musa da canção de Cabo Verde, Cesária Évora.

Na entrevista, ilustrada com fotos de Marcelo Câmara degustando a boa pinga e conversando com Jô Soares, o autor fala de questões históricas e sócio-antropológicas levantadas no seu último livro, Cachaça - Prazer Brasileiro (Mauad), apresenta uma síntese do seu pensamento sobre o destilado nacional e discorre sobre as identidades e diferenças entre a nossa pinga e o grogue, aguardente de cana-de-açúcar de Cabo Verde, nascida ainda no século XVI, pouco depois da nossa amada cachaça.






Cachaça no Canal Futura

Desde setembro de 2005, o programa Sala de Notícias, do Canal Futura, uma emissora educativa, vem reprisando, com grande audiência e sucesso, uma longa reportagem especial sobre a cachaça, tendo como principal entrevistado e condutor do roteiro, o cachaçólogo, pingófilo e degustador Marcelo Câmara. A última exibição ocorreu a 23 de janeiro de 2006. No site do Canal Futura, a emissora sintetiza o programa especial:

CACHAÇA

Uma história que se mistura com a própria história do Brasil. Em quase quinhentos anos de vida, a brasileiríssima cachaça já freqüentou senzalas, palácios, botequins e hoje é apreciada por paladares exigentes em restaurantes sofisticados. A bebida mais querida do país, depois da cerveja, é também um dos destilados mais consumidos do mundo. No programa de hoje, você vai conhecer os segredos da boa cachaça. O ritual de fabricação do produto artesanal. A produção nas indústrias e o desafio da exportação. E ainda: o aroma que deve guiar o consumidor na hora de escolher uma cachaça de qualidade.





Jornal do Brasil
Segunda-feira, 28/NOV/2005

Coluna Hilde
(Hildegard Angel)

Aula de pinga

O cachaçólogo e pingófilo Marcelo Câmara, único degustador profissional de cachaças em atividade no país, foi procurado para fazer uma degustação pedagógica para o presidente Lula, sua comitiva e exportadores brasileiros, na visita que ele fez ao Rio semana passada. Seria no Hotel Glória, no Encontro Nacional de Comércio Exterior...
As pingas servidas ao presidente seriam a Coqueiro e Corisco, ambas da terra da cachaça, Paraty, o mais tradicional (450 anos) centro produtor e de excelência da bebida. Misteriosamente, na última hora, a contratação de Marcelo foi suspensa. A recomendação anterior era de que ele deveria passar para Lula, em alguns minutos e com boa didática, muita informação cultural e econômica sobre o produto e a arte de beber com sabedoria e prazer. Seria uma bela aula para Lula pois, segundo o degustador, ''pelo que se noticia, o presidente bebe mal, não conhece cachaça e não sabe escolher as raríssimas marcas de qualidade superior'', ai, ai...

Com Sylvia de Castro e Andréa Cardoso




Jornal do Brasil
Quinta-feira, 24/NOV/2005

Coluna Boechat
(Ricardo Boechat)

Pinga vetada

Contratado para conduzir uma degustação pedagógica de cachaças tradicionais brasileiras no Enaex, ontem, no Hotel Glória, o especialista Marcelo Câmara acabou fora no evento.
A apresentação - para Lula e empresários - foi cancelada em cima da hora, sem explicação: - Pelo que se noticia, o presidente bebe mal - reclamou o especialista. - E, pelo visto, continuará assim.

Com Ronaldo Herdy





Bebidas

MODA ORGÂNICA CHEGA TAMBÉM ÀS BEBIDAS

FOLHA DE SÃO PAULO
27/10/2005

Rachel Botelho
Colaboração para a Folha

A onda dos orgânicos já atingiu as bebidas. A inauguração do Empório Siriuba (al.Franca, 1.590), em setembro, trouxe mais variedade para o copo de adeptos de bebidas feitas sem adição de substâncias químicas. Desde março, freqüentadores do restaurante Deloonix (r. Bela Cintra, 1.709) também podem provar quatro marcas de cachaças orgânicas.

A cachaça, aliás, lidera este segmento. Produzidas com cana-de-açúcar livre de agrotóxicos, as marcas da bebida se espalham por locais como a Casa Santa Luiza - que vende a Ypióca orgânica (R$ 6,20) - e o empório Santa Maria - onde a Tiquara sai por R$ 32,28.

Na nova loja, além da Tiquara (R$ 40), é possível encontrar a "premium" Terra Vermelha (R$ 74) e a cerveja Eisenbahn (R$ 4,90). Coquetéis e caipirinhas também são preparados com ingredientes orgânicos.

Nas mesas do Deloonix, os clientes encontram outras opções. As cachaças Terra Vermelha e Tietê, além da bidestilada Matraga, são servidas puras ou em caipirinhas - como a de manga e capim-santo (de R$ 16 a R$ 20). "Tem muita saída, principalmente pelos estrangeiros, que conhecem e valorizam os orgânicos", diz a sócia Marta Batilany.

Ressalva

O "cachaçólogo" Marcelo Câmara faz um alerta. Para ele, o fato de a lavoura de cana não receber agrotóxicos, defensivos ou estimulantes químicos não garante qualidade Pa bebida. "Fundamental é ter ciência, fazer arte, aplicar sabedoria, ser generoso em todas as fases da produção", diz.




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