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Na Cultura todo investimento é lucro
Marcelo Câmara elabora cartas de cachaças
Cachaçólogo há mais de quarenta anos, pingófilo e degustador, o primeiro a se profissionalizar no mundo, MARCELO CÂMARA é considerado, internacionalmente, o maior conhecedor do assunto "cachaça", unindo sabedoria, ciência, técnica, vivências e convivências. Autor de dois livros de vanguarda, únicos na bibliografia especializada, com múltiplas ações exitosas realizadas e de centenas de trabalhos publicados no universo da bebida brasileira, o especialista - dentro dos múltiplos serviços de consultoria que, há décadas, presta a empresas, instituições, eventos e personalidades, nos setores privado e público - vem, atualmente, se empenhando na elaboração de CARTAS DE CACHAÇAS para os mais importantes e conceituados hotéis, restaurantes e bares do País e do exterior.
Juquinha Stockler:
No último 16 de dezembro, faleceu, anonimamente, na sua residência no bairro do Leblon, Zona Sul carioca, aos 80 anos, um dos maiores músicos brasileiros: Juquinha Stockler (João Baptista Stockler Pimentel), "o baterista da Bossa Nova", o preferido de João Gilberto, Newton Mendonça e Tom Jobim. Somente um site de jazz de Nova Iorque noticiou a sua morte, um dia depois. Soube, agora, que Tárik de Souza, crítico de estofo e proeminente historiador da nossa Música Popular, com base no site norte-americano, foi o único no País a registrar a partida de Juquinha na sua categorizada coluna Supersônicas, na edição de 1º de janeiro de 2010, do Jornal do Brasil. O meu amigo Tárik de Souza integra comigo o pequeno grupo de estudiosos que constroem a História Real da Bossa Nova e da Música Brasileira, longe da famigerada estória oficial, que predomina na mídia e em grande parte da bibliografia existente, cheia de ficções, mentiras e desvios de toda ordem.
De 1950 até 1980, Juquinha, músico de jazz e também compositor, artista versátil, dono de um ouvido absoluto, de primorosa e personalíssima técnica, gravou com os maiores nomes da música brasileira. De Waldir Azevedo a Eumir Deodato, de Elizeth Cardoso a Martinho da Vila, passando por Menescal, Lúcio Alves, Luiz Bonfá, Billy Blanco, Tito Madi, Dorival Caymmi, Dalva de Oliveira, Carlos Lyra, Marcos Valle, Elza Soares, Agnaldo Timóteo, Paulinho da Viola, Clara Nunes, Beth Carvalho, entre outros. Gravou também com astros internacionais como Nat King Cole, Paul Anka, Roy Hamilton, Billy Eckstine, Teddy Randazo, Lucho Gatica, Sarita Montiel, Armando Manzanero, Gregório Barrios e com as orquestras de Roberto Inglez e de Noro Morales, com as quais excursionou na América do Sul. Nos últimos anos, integrou o Stockler Trio, que acompanhava, na noite carioca, o excelente cantor Edson Vaz, seu fiel e leal amigo nos últimos quinze anos. Vaz, que preparava um documentário audiovisual sobre a vida e a carreira de Juquinha, com depoimentos de grandes bateristas em atividade e de outros músicos, cantores e compositores, guarda gravações preciosas de Stockler, tocando jazz e música brasileira contemporânea, especialmente as feitas nos seus derradeiros anos de vida. O genial Johnny Alf
Com a partida do estelar Johnny Alf, com quem tive o privilégio de conviver e trabalhar no início dos anos 1970, escrevendo e produzindo shows, volta a se divulgar mais uma tolice, mais um falso bordão da famigerada "história oficial da Bossa Nossa", cheia de ficções, mentiras e deturpações de toda ordem. A reincidente besteira consiste em chamar Johnny Alf de "precursor" da Bossa Nova. Grave e medonho erro. O debate sobre o Gentileza
Depois do artigo crítico sobre o Gentileza, de autoria de Luiza Petersen e Marcelo Câmara, publicado em 21.2.2010 no Jornal do Brasil, o veículo exibiu uma réplica oito dias depois, que pode ser lido clicando-se no link: A verdade sobre o mito Gentileza Luiza Petersen Professora Marcelo Câmara Jornalista e escritor (Publicado no Jornal do Brasil, edição de domingo, 21.2.2010, com "chamada" de primeira página.)
Muito se tem escrito, falado e teorizado sobre o "Profeta" Gentileza, (José Datrino, 1917-1996), personagem errante no Grande Rio no final do último século. Artigos, reportagens, livros, filmes, Gentileza virou tema e motivo de produção cultural e até tese acadêmica em universidade. Hoje as palavras, frases, bordões, traços, linhas e desenhos, quase todos sem sentido, que criou, escreveu e portava em um estandarte e que também gravou em viadutos e muros do Rio de Janeiro, foram transformados em mensagens e design de produtos hoje largamente comercializados em shoppings e por camelôs da cidade. Gentileza virou interesse na universidade, diversão intelectual; produto, marca, negócio no mercado. "Profeta" Gentileza: uma criação acadêmica Luiza Petersen Professora Marcelo Câmara Jornalista e escritor (Publicado no Jornal do Brasil, edição de 8.3.2010, no Primeiro Caderno)
Na edição do último dia 8 do JB, o texto Sempre é tempo do poeta Gentileza tentou anular o nosso artigo A verdade sobre o Profeta Gentileza, publicado oito dias antes. A empreitada foi desastrosa. A réplica, além de não ferir minimamente as nossas informações e argumentos, ao contrário, os robustece. O nosso artigo mostrou o comportamento agressivo e dantesco, o discurso moralista, medieval, apocalíptico, durante as décadas de 1960 e 1970 em Niterói, RJ, e nas barcas da Baía da Guanabara, do andarilho psicótico Gentileza (José Datrino, 1911-1996), transformado, postumamente, pela academia e pela mídia, em "profeta" e "poeta", pessoa doce e equilibrada, arauto da paz e do amor, pregador de um novo "humanismo", construtor de uma nova ordem social e econômica. Angra:
Marcelo Câmara Metrô de Ipanema:
O governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, ignorou, não respondeu não comentou, nem ao menos considerou a solicitação do jornalista Marcelo Câmara, feita em setembro de 2009, por mais de uma vez, para que a Estação do Metrô de Ipanema, da Praça General Osório, na cidade do Rio de Janeiro, que foi inaugurada a 21 de dezembro de 2009, pelo presidente Lula, recebesse o nome do pianista e compositor Newton Mendonça (1927-1960), "o mais ipanemense dos artistas brasileiros". A proposta do biógrafo de Newton seria uma homenagem - ESTAÇÃO NEWTON MENDONÇA - à memória e à obra do artista carioca falecido prematuramente aos 33 anos, que não dá nome sequer a uma sala de aula na cidade. Pela verdade,
O portal paraty.com exibe, há anos, no link Rio de Janeiro, 8 de julho de 2008. A Senhora Lia Capovilla Portal paraty.com Senhora Editora, A matéria Diuner Melo resgata obra de Samuel Costa exibida no site possui diversos equívocos, desvios e omissões. Inicialmente, vamos aos equívocos, confusões e desvios: 1 - José Augusto da Câmara Torres (1917-1998), jornalista, educador, advogado e político, o maior líder comunitário e político de Paraty e do Extremo Sul Fluminense no Século XX, apesar de militar profissionalmente no Jornalismo por mais de vinte anos ininterruptamente, de 1930 (como editor de um jornal, em sua terra natal, quando contava apenas doze anos de idade) até o início da década de 1950 (como secretário e colunista da Folha de Angra) - nunca foi detentor de título de jornal ou proprietário de empresa jornalística em Paraty. Em 1922, quando os artigos de Samuel Costa foram publicados em A Razão, Câmara Torres não morava em Angra dos Reis. Era um menino de quatro anos e vivia em Caicó, RN. Somente em 1942, o jovem José Augusto, ainda acadêmico de Direito, depois de ser aprovado em concursos públicos, com defesa de teses, para Técnico de Educação e para Inspetor Escolar, foi nomeado Chefe da Inspetoria da Primeira Região Escolar, que abrangia Angra dos Reis, Paraty, Rio Claro e Mangaratiba. No final de 1942, Câmara Torres conhece Paraty e publica, no principal jornal do Estado, dois artigos sobre o Município. Câmara Torres somente ingressa na Política em 1954, quando se licencia do cargo de Inspetor Escolar e se elege Deputado Estadual pela primeira vez, cumprindo, a partir de então, sucessivos mandatos até 1970. Portanto, em síntese: Câmara Torres nunca foi dono de jornal em Paraty, muito menos em 1922. E jamais atuou simultaneamente como Chefe da Inspetoria Escolar e Deputado, o que era, e é, além de ilegal, impossível. 2 - As coleções de jornais antigos de Paraty, em 2001, ano de divulgação da matéria, não estavam em Niterói, mas no Rio de Janeiro desde 1996, com o filho do Doutor Câmara Torres, o jornalista, escritor, editor e consultor cultural Marcelo Câmara. As coleções foram construídas pelo Doutor Mário Moura Brasil do Amaral, e adquiridas pelo Doutor Câmara Torres da filha do primeiro, a Doutora Maria de Lourdes Amaral. Trata-se de um acervo único, valiosíssimo para a História de Paraty, um bem particular, de propriedade e em poder do Doutor Marcelo Câmara, que o guarda, o preserva e, atualmente, nele estuda e pesquisa, servindo-lhe de preciosa fonte para os seus trabalhos como historiador e intelectual que é, interessado na História e na Cultura de Paraty, com vasta produção publicada (vide www.ilhaverde.net). Marcelo possui, além do citado acervo, coleções de todos os jornais editados posteriormente em Paraty, dos anos de 1940 até hoje, material reunido por Câmara Torres e por ele próprio. Seguindo recomendação de seu pai, e obediente à sua consciência e responsabilidade, na condição de Cidadão Paratyense, amante e defensor da História e da Cultura de Paraty, Marcelo Câmara pretende doar a Paraty, para fins de digitalização, todos os volumes do antigo acervo, bem como as coleções de jornais dos últimos setenta anos, além dos documentos dos arquivos, dele e de seu pai, sobre a História recente de Paraty - material adquirido, reunido, classificado e conservado por ambos. Isto será feito, ainda por orientação de seu pai, somente quando Paraty possuir uma instituição cultural séria, respeitável, segura, dotada de sistemas de preservação e administração de arquivos, dirigida por profissionais honrados, habilitados e competentes, capazes de gerir, com eficiência e eficácia, todo o material. O desejo, o objetivo de Câmara Torres e de Marcelo Câmara, é que a população de Paraty, estudantes e profissionais, a cidadania sem restrições, toda a sociedade, estudiosos e pesquisadores de toda parte, tenham livre e democrático acesso a esse valiosíssimo acervo histórico e cultural, que, afinal, de direito e com justiça, pertence ao Povo de Paraty, que dele deverá ter a eterna guarda e administração. 3 - Câmara Torres não "se sentia guardião da história da cidade", como afirma leviana e ironicamente, o entrevistado travestido de "historiador". José Augusto da Câmara Torres, como Samuel Costa e Mário Moura Brasil do Amaral, não apenas "se sentia", mas ele foi, efetiva e indubitavelmente, um guardião da história, da cultura, dos direitos e dos interesses da Cidade, do Município, do Povo de Paraty. Câmara Torres, enquanto viveu e trabalhou em Paraty, foi o mais importante realizador, apoiador, animador da História e da Cultura de Paraty. Como educador de grandes obras, homem de pensamento e cultura, advogado militante por mais de cinqüenta anos, político leal e dedicado às comunidades do Município, lutou sempre e foi o mais intrépido e intransigente defensor dos valores, das referências, do patrimônio material e imaterial de Paraty, da memória e da identidade da gente paratyana. As suas realizações e conquistas em favor da História e da Cultura de Paraty estão detalhadas no perfil abaixo. E, também, na matéria intitulada Casa de Cultura Câmara Torres - Povo de Paraty homenageia o seu maior líder no Século XX (Jornal de Paraty, Ano XXI, nº 461, de 24 30 de maio de 2005.) Quanto às omissões da matéria. Sobre o livro, então lançado, Paraty no Anno da Independência - Outros Textos e Poemas (Seleção e organização de Diuner Mello), faltou à matéria informar que, pioneiramente, quem "resgatou" a figura, a obra, a vida pública, profissional, política, intelectual e literária de Samuel Costa foi Câmara Torres, que descobriu, elevou e apresentou Samuel Costa às gerações paratyenses que o sucederam. Câmara Torres lançou Samuel Costa para o mundo. Para citar apenas três fatos promovidos por Câmara Torres: - Construiu o Grupo Escolar da cidade denominando-o "Samuel Costa". Na inauguração, a 18 de novembro de 1948, data de aniversário de Samuel Costa, divulgou, numa belíssima oração, a primeira biografia do ilustre paratyense, escrita por ele. - Reuniu, editou e prefaciou, pela primeira vez, em 1973, os sonetos de Samuel Costa, escritos no final da vida do paratyense, de 1928 a 1930. - Como presidente da Subseção da Ordem dos Advogados - OAB - de Angra dos Reis, criou e instalou, nos anos 1980, a Subseção da OAB de Paraty, dando à nova unidade o nome de Samuel Costa, homenageando-o mais uma vez. A primeira e única biografia de Samuel Costa escrita por Câmara Torres está, na íntegra, no livro, objeto da matéria. E a matéria não informa. O livreto com os sonetos de Samuel Costa, editados e prefaciados por Câmara Torres, estão reproduzidos, na íntegra, no livro. E a matéria não informa. Era o que me cabia, por honra e dever, corrigir e a informar. Agradece, cordialmente, Marcelo Câmara CÂMARA TORRES E PARATY José Augusto da Câmara Torres (1917-1998), jornalista, educador, advogado e político, foi, do Século XX, o mais importante líder político e comunitário de Paraty e do extremo sul fluminense. Em quatro legislaturas consecutivas, e com votações crescentes, de 1954 a 1970, cumpriu mandatos na Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, representando, prioritariamente, o povo de Paraty, Angra dos Reis, Rio Claro e Mangaratiba. Ocupou, ainda, as Secretarias de Estado do Interior e Justiça e de Serviços Sociais, e foi membro do Conselho Estadual de Educação. Era considerado um dos maiores especialistas e executivos em Educação e um dos mais brilhantes advogados do País, destacadamente nas áreas do Direito Civil e do Direito Constitucional. Na sua carreira política, sempre recebeu votos em todos os municípios fluminenses, porém a sua base eram os municípios de Angra dos Reis e Paraty, onde Câmara Torres militou politicamente por mais de quarenta anos, recebendo dos paratyenses votações maciças, que chegaram a ultrapassar os 90 por cento dos votos válidos. Em toda a história constitucional do País, três deputados representaram Paraty: os dois primeiros foram os paratyenses de nascimento José Luiz Campos do Amaral no Império, e Samuel Costa na primeira República; o último foi o paratyense honorário José Augusto da Câmara Torres.Em Paraty, advogou por mais de meio século, trabalhou como Chefe da Inspetoria Regional de Ensino e como Técnico de Educação, sendo o responsável pela instalação e ampliação de toda a rede de educação pública do Município. De 1942 até a sua morte em 1998, ele foi o protagonista das grandes conquistas sócio-culturais e econômicas de Paraty e da região. Era aposentado como Consultor Técnico Estadual de Educação e como advogado, viúvo da professora Gertrudes Nóbrega da Câmara Torres - a Dona Tudinha - mestra de gerações de angrenses, falecida em 1989. Sua casa, primeiro em Angra, depois em Niterói, sempre foi chamada de "a embaixada de Paraty", aberta aos paratyenses de todas as classes sociais e cores políticas. Na cidade de Paraty, possuía uma casa onde, ele, juntamente com os filhos e netos, conviveu, até os seus últimos dias, com o povo de Paraty. Fiel e dedicadíssimo à comunidade paratyense, Câmara Torres, para desespero dos angrenses, dizia que o seu coração "era paratyense", entregando a este Município, com elevada dignidade e correção, mais de cinqüenta anos de vida pública. Durante todo esse tempo, não houve iniciativa ou conquista para o povo de Paraty e da região que não contasse com a sua liderança ou participação decisiva. Por isto, Paraty muito lhe deve como educador e político de muitas lutas e grandes realizações. Ergueu e inaugurou, em 1948, o Grupo Escolar Samuel Costa, na sede do município, e, de 1942 a 1953, além de construir toda a rede de educação pública do município, triplicou o número de escolas e de matrículas do ensino fundamental. Criou a merenda escolar em Paraty e em todo o sul do Estado, e participou decisivamente da implantação dos cursos de segundo grau no município e na região. Levou a Educação aos pontos mais distantes de Paraty e de todo o extremo sul fluminense, legislando intensa e continuadamente na Assembléia Legislativa nas áreas da Educação, da Cultura e da Ecologia. Pugnou, com altivez, pelo ensino público de qualidade e pela valorização dos professores. Até a sua morte, foi "o deputado das professoras", "o político da educação pública", um batalhador pelo ensino público de qualidade e por condições dignas de trabalho para os profissionais da educação. Por sua obstinada e desvelada dedicação ao povo paratyense, a Imprensa algumas vezes o criticava pejorativamente como sendo "o faz-tudo do povo de Paraty". EDUCAÇÃO E CULTURA Nascido em Caicó, no Rio Grande do Norte, José Augusto da Câmara Torres chegou a Niterói com 13 anos, já com experiências no jornalismo, revelando-se precocemente um intelectual de talento, orador, ensaísta e líder estudantil católico. Na juventude, fundou e editou jornais e dirigiu instituições culturais em sua terra natal e em Niterói. Foi aluno do Colégio Salesiano Santa Rosa e do Liceu Nilo Peçanha, formando-se pela Faculdade de Direito de Niterói. Lecionou História do Brasil, Língua Portuguesa e Literatura nos Colégios Salesiano, Icaraí e Nossa Senhora das Mercês. Em 1939, foi aprovado em rigoroso concurso público de provas e títulos, quando defendeu tese, escrita e oral, sob o tema Educação Moral e Cívica, sendo nomeado Inspetor Regional de Ensino, e designado, em 1942, para a chefia da 1ª Inspetoria Estadual de Ensino, no extremo sul fluminense, com sede em Angra dos Reis, onde, recém-casado, foi residir. Dois anos depois, é novamente brilhantemente aprovado, também com defesa de tese, oral e escrita, sob o tema A Inspeção Escolar na Escola Primária, em concurso público de provas e títulos para as funções de Técnico de Educação do Estado do Rio de Janeiro. Em poucos anos, revoluciona a educação em Paraty e em todo o extremo sul do Estado, construindo e ampliando toda a rede pública de ensino, introduzindo uma moderna gerência de administração escolar, novas técnicas de ensino e metodologias didático-pedagógicas de vanguarda, que valorizavam o professor, as culturas locais e integravam a comunidade à escola. Introduziu a merenda escolar em toda a região, que encontrou com pouco mais de trinta escolas, deixando-a, em 1953, com mais de uma centena de unidades. Triplicou o número de crianças matriculadas na região, de 2 mil para 6 mil estudantes. Promoveu, ainda, um intenso movimento cívico e cultural em Paraty e em todo o litoral sul-fluminense, ajudando, decisivamente, na criação de ginásios, cursos de segundo grau, profissionalizantes e extracurriculares, além da realização de exposições, semanas de estudos pedagógicos, entre outros eventos que marcaram época. Nunca o ensino público atingiu níveis tão altos de qualidade, de proficiência e eficácia em Paraty e em todo o extremo sul fluminense. José Augusto da Câmara Torres foi, fundamentalmente, um homem de Cultura. Mais que isto, um homem da Cultura Fluminense, da Cultura Paratyense. Seu curriculum profissional nos apresenta um trabalhador intelectual fértil, produtivo e brilhante: jornalista profissional aos treze anos, liderança estudantil e tribuno desde os quinze, professor aos dezoito, escritor de obra reconhecida e técnico de educação aos vinte e dois anos. Depois, advogado, jurista, político. Câmara Torres não foi apenas um homem de Cultura, um homem da Cultura, uma personalidade do Jornalismo, das Letras, do Magistério, da Política, da Advocacia Fluminense. CÂMARA TORRES FOI UM HOMEM DA CULTURA PARATYENSE, um operoso criador, um notável agente que realizou, difundiu e desenvolveu a Cultura da terra de Samuel Costa. Seu espírito humanista, seu trabalho cívico, comunitário e político em favor da Cultura em Paraty, estão em cada rua da cidade, em cada praia, nas matas, lavouras e grotões do município, onde, semeou fé e esperança, plantou escolas, alfabetizou, formou e ensinou cidadania a milhares de crianças e jovens. Cada escola que construiu transformou-se em um centro de realização e promoção cultural, onde a história, o patrimônio, as referências, o homem paratyense eram valorizados e promovidos, em sintonia com a história do Estado e da Nação. No Estado do Rio e em Paraty, Câmara Torres empreendeu inúmeras ações culturais, associando-se a instituições e lideranças da terra para atuar como o estudioso, o professor, o administrador, o político, que empreendeu, gerenciou e sustentou inúmeros projetos culturais. Na sua condição de educador e político, idealizou e apoiou muitos eventos, foi um ágil e produtivo animador cultural, um realizador bem sucedido, catalizando interesses, sentimentos e aspirações da gente paratyense, transformando sonhos em obras, em fatos culturais de relevância. Câmara Torres foi um estudioso e um tenaz defensor, como educador, advogado e político, do patrimônio cultural de Paraty. Por mais de cinqüenta anos, ele foi o grande incentivador e apoiador das manifestações populares e folclóricas em Paraty, suas festas e celebrações religiosas e profanas. Câmara Torres foi o interlocutor, antes de 1950, do grande Luís da Câmara Cascudo, membro ilustre de sua família, promovendo o diálogo entre o Governo do Estado do Rio de Janeiro e a União, visando aos primeiros apoios e estímulos à pesquisa e aos estudos do Folclore fluminense, que resultaram na criação da Comissão Fluminense do Folclore. Na década de 1960, Câmara Torres trouxe a Paraty o seu amigo e grande folclorista Edson Carneiro, liderando um grupo de pesquisadores de prestígio nacional, para conhecer in loco expressões do Folclore Paratyense, depois registradas em artigos e ensaios editados em revistas especializadas. Em 1960, afirmou-se como o grande apoiador das comemorações dos Trezentos Anos de Paraty, e, também, em 1967, como um dos principais realizadores dos festejos do Tricentenário da Vila de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty. Por iniciativa de Câmara Torres, nasceram o brasão e a bandeira do município, criações do seu amigo e famoso heraldista Alberto Lima. Todas as instituições sócio-culturais e esportivas de Paraty sempre tiveram nele um amigo valioso, um apoiador incansável. O seu notável trabalho como técnico de educação em Paraty, o seu fecundo munus político de deputado estadual e dirigente partidário, fizeram de Câmara Torres o orador dos grandes eventos, das inesquecíveis efemérides. Foi o grande incentivador dos estudos sobre a História e a Cultura de Paraty, sobre nós mesmos, sobre o nosso lugar, o nosso papel na vida nacional, os fatos e processos acontecidos na terra de Domingos Gonçalves de Abreu. A inauguração de cada uma das dezenas de escolas que construiu em Paraty traduzia-se numa festa cultural, popular, democrática, onde Câmara Torres ministrava uma aula sobre o patrono de cada unidade, convocava os paratyenses para a sua História, para o exercício da cidadania social e política, práticas tecidas na pesquisa, na reflexão e na ação, a partir de Paraty, a partir da sua gente e da sua História. No seu tempo, cada escola de Paraty, era um centro comunitário de atividades culturais, a célula de uma biblioteca e espaço para as atividades artísticas e profissionalizantes. Câmara Torres criou a rotina de trazer personalidades da Cultura Brasileira para falar ao povo, aos estudantes, aos professores. O seu objetivo era estimular o conhecimento e a auto-estima dos paratyenses, favorecer a consciência e a responsabilidade sócio-cultural e política de cada um e de todos. A partir de 1942, o tema "Paraty" vai ocupar, prioritária e majoritariamente, a agenda de Câmara Torres, vai habitar toda a sua obra divulgada e publicada, no Jornalismo, na Educação, na Ensaística, na Política. Isto porque, naquele ano, ele visita Paraty pela primeira vez, se apaixona pela terra, e publica em sua coluna Hora Fluminense, em O Estado, de Niterói, o mais importante jornal à época, um denso e informativo artigo, tratando da problemática sócio-econômica do município, das suas belezas e das potencialidades de Paraty, antevendo-lhe um destino promissor nos campos cultural e turístico. É de sua autoria o primeiro e mais importante perfil biográfico de Samuel Costa, a belíssima e memorável oração que pronunciou quando da inauguração do Grupo Escolar, a 18 de novembro de 1948, na condição de Técnico de Educação e Chefe da Inspetoria Regional de Ensino, no 66º ano de nascimento do ilustre paratyense. Publicou na revista literária Bando, de Natal, Rio Grande do Norte, a única e histórica crônica que narra a morte, em 1944, em Angra dos Reis, do grande Alberto Maranhão, estadista da Primeira República, que após a Revolução de 1930, vive em Paraty, por longos anos. Reuniu e editou, pela primeira vez, em 1973, os poemas de Samuel Costa, escrevendo a introdução à antologia. Também prefaciou as obras Paraty - Caminho do Ouro, de Heitor Gurgel e Edelweiss Amaral, e Silvio Romero, Juiz, de José Alberto da Silva, livro que narra a vida do grande sergipano como "Juiz Municipal do Termo de Paraty", de 1877 a 1879. Como jornalista, professor, advogado e político, em toda a sua vida acadêmica e profissional, em mais de setenta anos de ininterrupta atividade intelectual, publicou livros e centenas de artigos e ensaios nas áreas da Literatura, da História, da Educação e do Direito, além de trabalhos nos campos do Folclore, da Sociologia e da Política. Até a sua morte, participou, ativamente, de diversas instituições e movimentos culturais que agitaram Paraty, muitas vezes fundando entidades e dirigindo campanhas comunitárias. DOAÇÃO E SERVIÇO Afora o seu ingente trabalho, por mais de quarenta anos, como líder e arauto das grandes causas da gente paratyana, não há cidadão ou família em Paraty que não reconheça e não deva a Câmara Torres, uma atitude, um empenho, um gesto, pelo menos uma palavra de compreensão e apoio, em defesa de um direito ou benefício pessoal ou coletivo. Em Paraty, os órgãos e os serviços públicos devem muito à ação contínua e persistente de Câmara Torres, tanto na Assembléia Legislativa, como junto a órgãos estaduais, federais e internacionais. Durante o tempo em que foi deputado, viabilizou os governos dos prefeitos de Paraty, municipalidade pobre, sem recursos, prestando-lhes toda a assistência e apoio, para bem e produtivamente desempenharem os seus mandatos. No final da década de 1960, o Projeto Turis, da Embratur, que tratava da ocupação racional e ecológica do litoral do Rio a Santos, teve em Câmara Torres um defensor corajoso e tenaz. O Plano Integrado de Paraty patrocinado pela União Federal, germinado na Unesco, órgão da ONU, nasceu das idéias e das ações de Câmara Torres em vários fóruns regionais e nacionais nos anos sessenta e sessenta, resultado do seu trabalho contínuo pela integração do município ao Estado do Rio e pelo desenvolvimento auto-sustentável de Paraty. Lutou, politicamente, sem pausa, por mais de três décadas, inicialmente pela abertura, depois pela conservação, tráfego regular e pavimentação da estrada Paraty-Cunha. Lutou, incansavelmente, nos níveis estadual e federal, mobilizando até organismos e recursos internacionais, para o asfaltamento da estrada, chegando mesmo a obter compromissos formais de governadores, ministros de Estado e a celebração de contratos entre o Governo do Estado e construtoras, os quais sucessivos governos federais não permitiram que fossem cumpridos. Foi o grande responsável pela abertura da Estrada Angra dos Reis-Paraty e, depois, pela Rodovia Rio-Santos, com outro traçado, é verdade, mais inteligente e preservacionista. Dedicou-se, também, durante toda a sua vida pública, pela manutenção do Serviço de Navegação Sul Fluminense, que oferecia transportes às comunidades da Baía da Ilha Grande. Criticou, durante anos, o funcionamento do presídio na Ilha Grande, que segundo ele, "contrariava as vocações ecológicas e preservacionistas daquele patrimônio, expondo-o a toda sorte de perigos e agressões". Como parlamentar, atuou e legislou destacadamente na área social, em favor da região que representava, especialmente na Educação, Cultura, Saúde, Saneamento, Transportes, Turismo e Ecologia. Promoveu esforços bem sucedidos para implantação e melhoria dos serviços de saúde, saneamento, energia elétrica, transportes e telecomunicações em Paraty e em toda a região. Planejou e viabilizou, como Secretário do Interior e Justiça, a construção do Fórum Silvio Romero, cujo nome foi dado por ele. Criou a Subseção da Ordem dos Advogados de Paraty, instalou-a no edifício do Fórum, dando-lhe o nome de Samuel Costa. Empenhou-se pela manutenção e melhoria do campo de aviação de Paraty, pois foi um pioneiro do transporte aéreo no extremo sul do Estado, construindo, inclusive, com recursos próprios, o Aeroporto de Angra dos Reis. Idealizou e coordenou, em 1970, a Operação Trindade, primeira ação integrada do Estado no sentido da integração e desenvolvimento sócio-econômico sustentado da comunidade da Praia da Trindade. Foi o autor da lei que remunerava e dava tratamento especial aos profissionais da Educação designados para trabalhar nas escolas oceânicas, de difícil acesso de Paraty. Irmão e Procurador da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Paraty, era, também, membro da Associação de Caridade São Vicente de Paulo, que mantém o Asilo de amparo à velhice. Cristão e solidário, generoso em todos os seus atos, Câmara Torres jamais deixou de ouvir ou atender qualquer um do povo que o procurasse, fosse ou não seu eleitor ou amigo. Na política, teve adversários, jamais inimigos. Na advocacia, contendores que o admiraram, nunca debatedores odientos. Morreu pobre, sendo visto por correligionários e adversários políticos, como "uma legenda moral de honestidade e trabalho, de doação às causas populares, que fazia dele um homem público por excelência, honrado, leal, destemido e produtivo, com inestimáveis serviços prestados à Paraty e ao Estado do Rio de Janeiro". Os cientistas políticos poderão ver Câmara Torres como "um homem público com uma inexcedível capacidade de doação, um político com uma dimensão humana e social insuperável". Deixou oito filhos, quatorze netos e uma legião de amigos e admiradores no Estado e no País. Entre os seus filhos estão o jornalista, escritor, consultor cultural e consultor legislativo do Senado Federal (aposentado), Marcelo Câmara, considerado um paratyense, tamanha é a sua identidade com a gente e a cultura do lugar, e o arquiteto, Marcos Câmara, servidor da Prefeitura de Niterói. Marcelo Câmara, que sempre desenvolveu intensa e múltipla atividade intelectual, herdou, ainda em vida do pai, a rica biblioteca de Câmara Torres, com importantes e raras obras jurídicas, de História, Educação, Literatura, Ciências Políticas e Sociais, e o seu monumental arquivo profissional e pessoal, onde está registrada toda a sua vida como jornalista, educador, advogado e político, inclusive a sua correspondência com líderes e famílias de Paraty, da região, e com personalidades da vida fluminense e nacional, estas desde os anos vinte até a sua morte. LIDERANÇA POLÍTICA Em meados da década de 40, Câmara Torres já era uma vigorosa e irreversível liderança regional. Com a redemocratização do País, em 1945, ingressa no Partido Social Democrático - PSD, e, cinco anos depois, é um dos fundadores e dirigente do Partido Social Progressista - PSP, elegendo-se, por essa legenda deputado estadual em 1954 e, por mais doze anos consecutivos. Funda os diretórios municipais do PSP em Paraty, Angra dos Reis, Rio Claro e Mangaratiba e é eleito Secretário-Geral do partido no Estado do Rio. Em 1958, foi um dos principais articuladores da coligação PSP-PTB-UDN, que levou o amigo e companheiro de lutas estudantis e políticas, Roberto Silveira, ao Governo do Estado. Em 1959, exerce as funções de Primeiro Secretário da Assembléia Legislativa. No Governo de Geremias de Matos Fontes, ocupa, por alguns meses, a Secretaria de Estado do Interior e da Justiça, onde realiza profícua administração, erguendo fóruns em vários municípios, assistindo e modernizando as prefeituras municipais e revolucionando o sistema penitenciário, com a implantação de projetos pioneiros da educação formal e profissional nos presídios. Em sua gestão, obteve, pela primeira vez, em mais de sessenta anos de tentativas frustradas de tantos governos, a devolução, por parte do então Estado da Guanabara, das áreas, prédios e benfeitorias, onde funcionavam o Presídio do Abraão e a Colônia Penal Dois Rios, na Ilha Grande, não se concretizando a transação, por conta da sua saída da Secretaria, e de sua volta à Assembléia Legislativa. Mesmo ingressando na Aliança Renovadora Nacional - ARENA, após o golpe de 1964, lutou, durante o regime militar, contra a instalação da usina nuclear na Praia da Itaorna, em Angra e esteve preso no Colégio Militar, sendo libertado após dez dias de detenção, sem qualquer acusação formal, com um pedido de desculpas do então comandante da unidade. Antes, fora acusado em Inquérito Policial Militar, por ter intervindo em favor da liberdade e integridade de líderes políticos e comunitários de Paraty, uns presos, outros perseguidos pela Ditadura, a maioria deles, seus adversários políticos. Em 1970, foi o único deputado estadual da ARENA a concorrer a uma vaga na Câmara Federal, não logrando êxito, apesar de expressiva votação, o que o colocou numa primeira suplência por quatro anos, levando-o a um longo jejum eleitoral. Em 1971 assumiu a Secretaria de Estado de Serviços Sociais, iniciando um trabalho em várias frentes, de grande repercussão, com projetos de vanguarda dirigidos aos marginalizados, crianças e idosos, aos portadores de deficiência física e mental, apoiados por governos e instituições estrangeiras e internacionais. Isto provocou inveja e intriga em setores do poder, sendo demitido por exigência da chamada "linha dura" do regime que infelicitava o País. Em 1986, após dezesseis anos afastado das disputas eleitorais, amigos de Angra e de Paraty lançam o seu nome à Assembléia Legislativa pelo Partido Democrático Social - PDS. Obtém 5 mil votos, é o candidato à Assembléia Legislativa mais votado em Paraty. Entretanto, não se elege, abandonando definitivamente a Política. Com sabedoria e prudência, presidiu o PSP, a ARENA e o PDS, de Angra dos Reis. Do início dos anos 40 até a década de oitenta, não houve empreendimento público, comunitário ou privado em Paraty e no extremo sul do Estado no qual a competência de Câmara Torres não estivesse presente. Visionário, homem de vanguardas, espírito empreendedor, de convergências e de conciliação, sempre liderou ou, pelo menos, influiu, decisivamente, no progresso de Paraty e de toda a região. Mesmo nas iniciativas privadas, onde o interesse e os direitos do povo da região estiveram em jogo, como a instalação dos Estaleiros Verolme, em Angra dos Reis, ou os grandes projetos turísticos na Costa Verde, lá estava a presença dinâmica e articuladora de Câmara Torres resolvendo, incentivando, apoiando, realizando, sempre zelando pelas comunidades, seus valores, direitos e patrimônios. Além de criar e expandir toda a rede de educação pública no sul fluminense, a região lhe deve a edificação das matrizes do seu desenvolvimento sócio-econômico, político e cultural, além de conquistas na saúde, nos transportes, no saneamento, na preservação ambiental, no turismo e outras áreas de atuação do Poder Público. Entre aos benefícios regionais alcançados graças ao trabalho incansável de Câmara Torres, além daquelas já apontadas, está a conservação das estradas Paraty-Cunha e Rio Claro-Mangaratiba. Sócio Remido e Vice-Presidente do Aero-Clube do Estado do Rio de Janeiro, foi um pioneiro do transporte aéreo no Sul Fluminense, onde realizou os primeiros vôos em Angra dos Reis e em Paraty, para acudir a população que precisava de atendimento médico de urgência, favorecendo, também, a ida constantes de servidores e autoridades públicas ao município. JORNALISTA E ESCRITOR Aos onze anos de idade, José Augusto da Câmara Torres já era um jornalista profissional, quando fundou e dirigiu o veículo estudantil O Ideal da Juventude, em sua terra natal. Mais tarde, também fundou e dirigiu, em Niterói, os jornais Espumas e A Ordem. Antes, no Colégio Marista, em Natal, colaborou no Sete de Setembro. Jovem, militou politicamente ao lado de Alceu de Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, Dayl de Almeida, José Arthur Rios, os irmãos Badger e Roberto Silveira, Celso Peçanha, Anselmo Macieira, Vasconcelos Torres, entre outros. Em Niterói, pertenceu ao Centro de Cultura José de Anchieta, do Colégio Salesiano Santa Rosa, e foi um dos fundadores da Congregação Mariana, presidindo a Academia São Francisco de Sales, braço cultural da Congregação. Escreveu em jornais e revistas, entre eles, Taba, O Gládio e Ariete. Assinou, na década de 40, a coluna Hora Fluminense, espaço nobre na primeira página do diário O Estado, então o maior jornal da Velha Província. Foi redator do antigo Serviço de Propaganda e Turismo do Governo do Estado e da Revista Potiguar, no Rio. Foi membro da Associação Fluminense de Jornalistas e da Associação de Imprensa Periódica Paulista. Em 1939 e em 1944, respectivamente, circulam, com tiragens restritas, nos meios acadêmicos e técnicos da Educação, as duas monografias, teses de sua autoria, apresentadas em concursos públicos: Educação Moral e Cívica e A Inspeção Escolar na Escola Primária. Aos 22 anos publicou, com Dayl de Almeida, Imortais, livro de ensaios, com prefácio de Alcebíades Delamare. Publicou, ainda, diversos trabalhos de História, Ciência Política, Educação, Folclore e Crítica Literária. Entre esses, destacam-se os estudos pioneiros sobre o paratyense Samuel Costa (1948), já citado, e sobre o angrense Lopes Trovão (1953). Pertencia ao Instituto Histórico e Artístico de Paraty. Era Membro Correspondente da Academia Fluminense de Letras e do Ateneu Angrense de Letras e Artes. Integrava a Academia Valenciana de Letras, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, a Associação Brasileira de Escritores, entre outras entidades culturais. Possuía os títulos de Cidadão Paratyense, outorgado em 1960; de Cidadão Fluminense, do antigo Estado do Rio de Janeiro, de Cidadão Honorário do Estado do Rio de Janeiro, do atual Estado do Rio de Janeiro, e de outros cinco outros municípios fluminenses. Foi agraciado com a Medalha do Centenário de Silvio Romero (1939), pelos seus trabalhos sobre o escritor, com a Medalha do Cinqüentenário da República, e com a Medalha Tiradentes, da Assembléia Legislativa do atual Estado do Rio de Janeiro, entre dezenas de outras insígnias. Em Angra dos Reis, presidiu a Subseção da OAB e foi eleito pelos seus colegas de profissão "O Advogado do Ano" por mais de uma vez. Pertenceu a entidades religiosas de Paraty e de Angra dos Reis, sendo, também, Benemérito de dezenas de instituições sócio-culturais, filantrópicas e desportivas. Foi, enfim, um importante e luminoso personagem da Educação, da Cultura, da História Política Fluminense nos últimos sessenta anos do século XX MC A dipirona e as Olimpíadas
Na última sexta-feira, dia 2 de outubro, o Rio de Janeiro carnavalizou-se. Ansiedade e catarse, alegria e samba, travestismo e delírio. A dinamarquesa Kopenhagen anunciava: o Brasil hospedaria os jogos olímpicos e paraolímpicos de 2016. A festa inundou zonas sul, norte, oeste, subúrbios, arrabaldes rurais.
Esporte e inserção social
Chegou às livrarias uma obra de vanguarda, única no continente americano: Dinastia Paraolímpica (Ed. Senac-DF), do jornalista Sérgio Siqueira, especialista em esportes de alto-rendimento para atletas com deficiência, com fotografias de Mike Ronchi e Graziella Milettie. O livro, lançado na Bienal do Rio, trata das vinte modalidades esportivas praticadas nos Jogos Paraolímpicos, suas regras, sua história, como cada uma surgiu no mundo, como chegaram ao Brasil, os feitos de seus principais atletas, os rankings nacionais e internacionais. Informativo, de caráter educativo e forma didática, com fotos fortes, de grande impacto, e textos leves, saborosos - o livro pretende dar a partida em um movimento nacional de promoção do esporte como o mais ágil e saudável fator de inserção social de 26 milhões de pessoas que em nosso país apresentam algum tipo de deficiência, e é dedicado "aos pais, amigos, poetas, seresteiros, namorados" desses brasileiros. Em outubro, o livro terá lançamento em Brasília, no Espaço Cultural da Caixa Econômica Federal, durante o seminário Inserção Social em Movimento. Sérgio e Mike são os autores de um outro livro, Deuses Paraolímpicos - Atenas 2004, uma coletânea de fotos das Paraolimpíadas realizadas na Grécia.
Mérito Fagundes Varela
No último 17 de agosto, Marcelo Câmara esteve na bela e serrana cidade de Rio Claro, RJ, pérola verde cravada na Serra do Mar, à beira do Rio Piraí. Em sessão solene da Câmara Municipal, recebeu uma bela homenagem e a Medalha do Mérito Fagundes Varela, a mais alta comenda do município. O prefeito Raul Machado, ao comunicar a indicação de Marcelo para recebê-la escreveu que, com a insígnia, "o povo rioclarense homenageia os cidadãos que, de maneira marcante, na área de sua atuação, destacam-se a ponto de ter da nossa gente o aplauso e o reconhecimento". Acrescentou que Rio Claro é beneficiário das suas ações nos campos da Comunicação e da Cultura. Junto com a preciosa Medalha, em ouro e cores, que traz a cabeça do genial poeta romântico Luiz Nicolau Fagundes Varela, "o cantor da natureza e da liberdade", o mais ilustre filho do município, um Diploma. Nele é registrado que o Mérito Fagundes Varela é conferido a Marcelo Câmara como uma "justa homenagem aos relevantes serviços prestados à comunidade rioclarense, contribuindo, efetivamente, para o desenvolvimento da nossa cidade". Segundo Câmara, os serviços citados são, na verdade, um dever a ser feito, por tudo que Rio Claro lhe deu e fez por ele, "este pobre e teimoso trabalhador intelectual", na sua auto-avaliação. "Rio Claro me deu olhos para ver o mundo", afirma Marcelo. Há muitos anos o jornalista e escritor não ia a Rio Claro, lugar, nas palavras dele, "que está no meu coração desde a infância e tenra juventude, estações onde lá amei, cresci e fui feliz". Para o agraciado, "foi uma viagem rápida, de horas, à delicada e deliciosa Rio Claro. Afetos, ternuras, emoções várias. Revi amigos, abracei-os e chorei. De júbilo e gratidão. E, também, de saudade. Das belas e ricas fazendas, dos tempos de sonho e festa que lá vivi e dos amigos que partiram", concluiu Marcelo Câmara.
de infância, os quais não via há 44 anos: Jorge Quintino (à dir.) e Pedro Quintino, o Pedroca. Nesse lugar encantador, os três viveram os melhores anos de suas vidas na década de 1960. (Foto Edvandro Ribeiro Quintino) Desmistificando as cachaças de Minas
O cachaçólogo Marcelo Câmara recebeu e-mail indignado do Sr. Roberto Carlos Morais Santiago, pessoa que ele não conhece, fabricante da Cachaça Anísio Santiago (antiga Havana), de Salinas, MG, afirmando que o especialista, por criticar a marca, não era "uma pessoa sensata". Marcelo Câmara não respondeu. Em seguida, recebeu outra mensagem de uma terceira pessoa do setor de bebidas de Minas Gerais, solidarizando-se com o Sr. Roberto e registrando ofensas a Câmara. Foi, então, que o crítico descobriu que a mensagem do Sr. Roberto havia sido enviada não só para ele, mas também para "n" pessoas, dezenas de empresários, autoridades, políticos de Minas Gerais, numa tentativa de, falando o que queria, sozinho, sem interlocutor, desmoralizar, antipatizar, incompatibilizar o cachaçólogo com a cachaça de Minas e com os seus produtores. Assim, Marcelo Câmara não teve alternativa se não responder cabalmente ao Sr. Roberto. 1) Mensagem do Sr. Roberto: Prezado historiador eescritor Marcelo Câmara, Navegando pela internetencontrei texto seu referente matéria sobre cachaça publicada na Revista História da Biblioteca Nacional(edição 29). Tece severas críticas à cachaça de Salinas e, em especial, à cachaçaHavana-Anísio Santiago, desqualificando-a como cachaça de qualidade. Vejamos oseu comentário: 6ª) A cachaça Anísio Santiago (ex-Havana), de Salinas, MG, não é uma das mais antigas e tradicionais do Brasil. Quem escreveu isto sabe de cachaça tanto quanto o sertanejo de Bebe-Mijo, no Piauí, sabe de esqui no gelo. Leitura de mídia superficial, errônea e leviana. Para uma bebida que está fazendo 475 anos de vida, uma cachaça de quatro, cinco décadas não significa coisa alguma. Além de não ser cachaça, mas apenas uma cachaça mal envelhecida, filha de uma desconhecida cachaça ruim - a Anísio Santiago não possui excelência sensorial alguma. Trata-se de bebida apenas ingerível por quem conhece cachaça, mas nunca saborosa, com qualidade sensorial superior. Minas consome cachaça desde a descoberta do ouro, porém fabrica há menos dois séculos. Salinas, por outro lado, não tem cachaça nem tradição. Produz, há algumas décadas, e em quantidade, cachaça envelhecida de má qualidade, tingidas em madeiras agressivas, oriundas de pingas ruins que não chegam ao mercado, que são escondidas pelos seus fabricantes. Se a Revista quisesse ilustrar o texto com algum rótulo deveria fazê-lo com o de alguma cachaça de Paraty, RJ, o mais antigo centro produtor de cachaça do mundo, que exibe mais de quatrocentos anos de tradição, ciência, arte, excelência na fabricação de cachaça. A Coqueiro e a Corisco, ambas de Paraty, por exemplo, as melhores cachaças que existem, são feitas por famílias que produzem cachaça, no mínimo, há mais de duzentos anos, ininterruptamente, de pai para filho. Sabedoria e mestria entre gerações. A cachaça Havana-AnísioSantiago é a marca mais importante do município do ponto de vista histórico equalidade (referência aos produtores do município). Em 2006, teve oreconhecimento de Patrimônio Cultural Imaterial de Salinas (Decreto Municipalnº. 3728). A marca representa a história, pioneirismo e qualidade que a cachaçade Salinas conquistou nas últimas décadas. Se tivesse conhecido Anísio Santiago(1912-2002), certamente teria outra opinião sobre ele e a sua fantásticacachaça. A Havana-Anísio Santiago é mais que uma marca debebida respeitada em todo o país. É uma lenda que foi forjada por umpequeno produtor de cachaça que sempre privilegiou a qualidade emdetrimento da quantidade. Se tivesse a oportunidade de conhecer a FazendaHavana teria constatado que o "modusoperandi" da Havana-Anísio Santiago é absolutamenteartesanal cujo método de produção é o mesmo desde 1943. O envelhecimentomédio da marca é 10 anos em dornas de bálsamo antigo. A produção média anual(safra) é de 12 mil litros. Respeito, mas nãoconcordo com sua opinião. Desqualificar Salinas e a marca Havana-AnísioSantiago não é uma atitude de pessoa sensata. Atualmente, o municípioé a principal referência nacional na produção de cachaça artesanal. Sãomais de sessenta marcas e produção estimada em cinco milhões de litros porsafra. As marcas mais tradicionais do município são Havana-AnísioSantiago, Canarinha, Indaiazinha, Lua Cheia, Salineira, Seleta, Boazinha, Beija-Flor, dentre outras. Todas são sucesso de venda em todo o país. O município é responsávelpor cerca de 45% do ICMS recolhido ao erário mineiro sobre a comercialização decachaça de estabelecimento produtor em Minas Gerais. O Festival Mundial da Cachaça de Salinas vem fazendo sucesso desde 2002 quando foi lançado. O eventotem média de público de mais de 20 mil pessoas todos os anos. O governo mineiro estáinvestindo 7 milhões de reais na construção do Museus da Cachaça de Salinas comprevisão de inauguração em 2010. É o reconhecimento do povo mineiro do "modus operandi" da cachaça deSalinas. Todos sabemos que a suaquerida Paraty (RJ) é uma região que tem suma importância na história dacachaça brasileira. Tanto que conquistou, com mérito, a IndicaçãoGeográfica. Porém, outras regiões têm o direito de fazer história. É o que Salinas está fazendo. Queira ou não, Salinas já faz parte da história da cachaça brasileira e a sua Indicação Geográfica é só uma questão de tempo. Cordialmente, Roberto Carlos Morais Santiago www.robertosantiago.blogspot.com rcmsantiago@gmail.com Salinas - MG 2) A resposta de Marcelo Câmara ao Sr. Roberto: Prezado Roberto, sensatez, assim como inteligência, saber (humilde e sempre provisório), senso e exercício crítico nunca me faltaram, graças a Deus, em mais de meio século de produção intelectual, vivências e convivências, no universo da cachaça. Convido-o a visitar o meu site - www.ilhaverde.net - para certificar-se disto. Nunca ignorei ou desprezei a importância econômica do município de Salinas, e de todo o Estado de Minas Gerais, como grande centro produtor de cachaças artesanais. Lamentavelmente, de cachaças com pouca ou nenhuma excelência sensorial. Salinas é um recente produtor, de décadas, pujante, admirável, de cachaças, na sua maioria, ruins, e de uma ou duas marcas apenas razoáveis, bebíveis. Salinas, quase toda Minas Gerais, com raras e preciosas exceções, não produzem cachaças, mas cachaças ditas "envelhecidas", que, na verdade, são pingas ruins e medíocres, mascaradas por um falso envelhecimento, que as torna comercializáveis, palatáveis ao consumidor médio, padrão, que, normalmente, não conhece a excelência sensorial da cachaça. Lembro-lhe que cachaça envelhecida não é cachaça. Cachaça envelhecida é cachaça envelhecida. Uma outra bebida, que Minas muito produz, com defeitos, pois não sabe e nunca soube fabricá-la sob boa técnica e com esmero. Não sou um inimigo das pingas mineiras, nem desafeto de seus produtores. Ao contrário. Aprecio algumas marcas e tenho alambiqueiros amigos, competentes, nas Gerais. Prova disto é que aquelas a que me referi, as tais raras e preciosas, habitam os rankings de meus dois livros sobre cachaça, bem como a página Rankings de Cachaças, do meu site. Sempre que sou questionado ou provocado sobre as cachaças de Minas, especialmente sobre as de Salinas, exponho, com ampla e profusa argumentação, as razões científicas e técnicas que provam a sua inferioridade quanto à excelência sensorial. Não falo de processo artesanal quase correto, honesto e bem intencionado. Ou de boa e ambiental gestão dos engenhos. Nem de qualidade físico-química, o que até as cachaças industriais possuem. Não é isto. Falo de excelência sensorial, riqueza e exuberância sensorial, aroma e gosto agradáveis, sabor delicioso, sempre com primazia e prevalência da cana, tanto nos tipos nova (branca, crua, fresca) e descansada, como no tipo envelhecida, onde a cachaça de qualidade sensorial é modificada, apenas temperada pela madeira apropriada, sem corromper a natureza da bebida, sem estuprar a alma da cachaça. Não irei aqui, numa curta mensagem, apresentar toda a minha argumentação que critica a cachaça de Salinas. Não há tempo, disposição, conveniência ou oportunidade para isto. É matéria para um alentado trabalho ou, no mínimo, para uma longa palestra. A minha ciência, a minha sabedoria, a minha ideologia sobre a cachaça - conhecimento, críticas, propostas - estão nos meus dois livros publicados sobre a bebida brasileira: Cachaça - Prazer brasileiro (Mauad, 2004), o primeiro livro dirigido ao mercado, ao consumidor real e potencial do destilado, e Cachaças bebendo e aprendendo - Guia prático de degustação / drinking and learning - Practical guide to tasting (Mauad, 2006), o primeiro livro do mundo (bilíngue port/inglês) sobre degustação do destilado brasileiro, o único a tratar exclusivamente dos aspectos sensoriais da cachaça, o qual, certamente, você ainda não leu. Nesta obra você encontrará os valores, conceitos e características, perfis e parâmetros da excelência sensorial da cachaça. Enfim, toda a minha ciência sobre o assunto e as razões das minhas críticas. Em síntese, posso lhe adiantar: 1) Salinas, como quase toda Minas Gerais, com poucas e dignas exceções, repito, não produz cachaça - branca, nova e fresca ou mesmo "descansada" - mas oferece ao mercado cachaças ditas "envelhecidas", que são, na realidade, as chamadas "pingas de pau", isto é, cachaças ruins, que são consumíveis após serem tingidas e amadeiradas violentamente no seu gosto com lenhos agressivos, como o bálsamo, por exemplo, por um incorreto, imperfeito processo de "envelhecimento"; 2) A cachaça Anísio Santiago é uma loção de barba, uma Acqua Velva, um líquido de álcool, água e óleo de bálsamo, que engana qualquer um que não conhece cachaça e só bebe pingas industriais e artesanais nauseabundas e vomitativas; 3) Envelhecimento é uma arte tal qual fazer cachaça e beber cachaça, o que é diferente de degustar e bebericar; envelhecer não é tingir cachaça ou transformá-la em um extrato de madeira com baixo, médio ou alto teor alcoólico. Reitero que as afirmações acima feitas estão tecnicamente desenvolvidas nos meus livros, especialmente no que trata dos aspectos sensoriais da bebida: Cachaças bebendo e aprendendo - Guia prático de degustação. Se ainda bebesse, gostaria de degustar a Anísio Santiago nova, sem "envelhecimento", a verdadeira e pura cachaça Anísio Santiago, que nunca será oferecida ao mercado, porque, certamente, é imbebível. Cordialmente, Marcelo Câmara 3) A nota da AMPAQ:
4) A resposta de Marcelo Câmara ao Presidente da AMPAQ: Rio de Janeiro, 4 de maio de 2009. Ao Sr. Alexandre Wagner da Silva Presidente da AMPAQ Senhor Presidente, Através de um amigo de Minas, chegou aos meus olhos teor de carta que circula pela Internet, de autoria de Vossa Senhoria, endereçada ao Sr. Roberto Carlos Morais Santiago, proprietário da Cachaça Anísio Santiago, pessoa que não conheço, na qual são feitos julgamentos sobre a minha pessoa e ao meu trabalho profissional de mais de quatro décadas como estudioso do destilado brasileiro. A missiva de Vossa Senhoria, que também não me conhece, nem tão pouco o meu trabalho, afirma que a minha resposta ao senhor Roberto deriva de reações pessoais, provocativas, desprovidas de conhecimentos, e que, portanto, não devem ser levadas em consideração" (sic). Também insinua que não conheço cachaça, e afirma que eu necessito "repetir a cada instante pseudo dotes intelectuais para justificar posicionamentos" (sic). Tais julgamentos tortos são justificáveis e provam que Vossa Senhoria, tal qual o Sr. Roberto, realmente, nada sabem sobre o meu trabalho no universo da cachaça, trajetória e realizações na Cachaçologia, todas publicamente exibidas há anos em meu site - www.ilhaverde.net - e não tem o mínimo respeito por elas, muito menos pelo estudioso, pingófilo e degustador profissional. Surpreendo-me com o tom, o conteúdo e o caráter da carta de Vossa Senhoria, pois, além de desconhecer a íntegra do texto que enderecei a Revista, os seus motivos e objetivos, tenho certeza de que o Presidente nunca leu o que escrevo e o que digo a mestrandos e doutorandos que me procuram, muitos deles de Minas Gerais, o que declaro em palestras e em entrevistas à Imprensa sobre as cachaças de Minas, especialmente sobre a Ampaq, desde o seu nascimento em 1988. Primeiramente, convém afirmar que, mesmo lamentando o equívoco da sua manifestação, não concordando com a sua desinformada, ofensiva e injusta crítica, registro e defendo o lídimo e incontestável direito em fazê-la, porque se apresenta como um ato legítimo da liberdade de expressão, do exercício de crítica de qualquer cidadão, ainda mais quando, não obstante mal influenciado e circunstancialmente sem nenhuma razão, Vossa Senhoria dignamente preside uma instituição altiva e honrada, disposta a defender os direitos e os interesses de um importante segmento dos produtores de cachaça de Minas Gerais. O Sr. Roberto invadiu a minha caixa postal, me qualificando de "ignorante" e "insensato". A fúria do Sr. Roberto decorre de carta que remeti em fevereiro de 2008 à Revista de História da Biblioteca Nacional, na qual, de passagem, teço rápida crítica à ausência de tradição e de excelência sensorial no produto que ele fabrica. Trata-se de uma opinião profissional minha, construída, serenamente, tecnicamente, a partir do momento que provei, pela primeira vez, ainda em 1992, a então Havana. Contratado profissionalmente, durante anos, por dezenas de fabricantes de cachaças artesanais e industriais, de vários Estados brasileiros, para proceder a análises sensoriais de inúmeras marcas, emitindo laudos técnicos assinados sobre suas qualidades e defeitos sensoriais, nunca assisti a uma reação desarrazoada, patológica, a uma campanha tão bizarra, insólita e canhestramente orquestrada, envolvendo tantas instituições e personagens, como esta do Sr. Roberto. Cumprindo estratégia involuntária e ingênua de marketing do puro, singelo e simplório Anísio Santiago ao lhe conferir preço absurdamente excessivo, não contestado ou rejeitado por aturdidos e iludidos; canonizada pela mídia superficial e veloz; falsamente valorizada, laureada, sim, por pseudo-especialistas; festejada pelo consumidor comum sem crivos, e não por conhecedores ou bebedores sábios e experientes - a famigerada marca do Sr. Roberto quer permanecer eternamente como uma fraude de excelência sensorial que deu certo e convenceu a todos, indene a qualquer crítica ou reparo, invulnerável a qualquer análise ou julgamento, colocando-se como um produto metafísico, sobrenatural, acima das outras marcas, entronizada como excelência perfeita e máxima. Mentira. Farsa. Fraude. Além de corromper intensamente a cachaça ruim com madeira agressiva ou por longo período de armazenamento, ou utilizando os dois recursos, minimizando, mascarando, ao máximo, a má qualidade sensorial, e fixar um preço irreal, absurdo, para o produto - outras duas estratégias de marketing de empresas que fabricam cachaças com falsa excelência, de excelência fictícia, com a finalidade de vender mais, persuadindo o consumidor comum, são: 1) o uso de embalagens luxuosas; e 2) criação de tipos de cachaça ditas "especiais, "reserva especial", com "envelhecimento" excessivo (cinco, oito, dez anos...) em carvalho inadequado, bálsamo, amburana etc. ou em várias madeiras, a fim de tirar a identidade, o caráter da bebida que se apresenta como "cachaça envelhecida". O consumidor não saberá o que está bebendo. Quem produz cachaça de qualidade, com excelência sensorial, exibe, com orgulho, a nova (branca e fresca), pingada na ponta do alambique, a descansada em madeiras quase neutras e a envelhecida em madeiras adequadas, com disciplina e esmero, sob as rigorosas normas físico-químicas e ambientais da boa técnica do envelhecimento. Tudo isto sem temores, sem subterfúgios, sem tergiversações, sem ladinagens. Onde está a Cachaça Anísio Santiago? É temeroso apresentá-la. Certamente é ruim, imbebível. Qualquer alambiqueiro sábio, competente e honesto sabe que nenhuma cachaça armazenada por mais de três ou, no máximo, quatro anos, especialmente em madeiras agressivas, como o aromático bálsamo, não permanece cachaça, e não se torna, verdadeiramente, cachaça envelhecida. O resultado são extratos de madeira com álcool, aquelas às quais um mestre alambiqueiro chamou de "pingas de pau". E isto é o que acontece com quem não obtém uma cachaça com excelência sensorial, pura e limpa, de aroma agradável, saborosa, de boa degustação e digestibilidade. A saída, o recurso, é mascarar a sua má qualidade sensorial, maquiá-la com a madeira que fascina e engana o consumidor comum, acostumada a beber cachaças ruins, nauseabundas, artesanais ou industriais, amadeirá-la rápida e intensamente com lenhos agressivos e crus, ou, lenta e excessivamente, com qualquer madeira, mesmo as agressivas curtidas, que tenham hospedado exclusivamente cachaça por décadas. Quando descobri que a solitária mensagem privada do Sr. Roberto, que julgava individualizada, dirigida unicamente a mim, Marcelo Câmara, havia sido, numa atitude aética e suspeita de criminalização, distribuída a diversas pessoas, numa tentativa de, falando sozinho, dizendo o que queria, me desmoralizar, me antipatizar, me incompatibilizar com os produtores mineiros e outras personalidades das Minas Gerais, as quais respeito e muito prezo, alternativa não tive se não a de respondê-la a todos os destinatários do Sr. Roberto, empresários, autoridades, políticos e dirigentes associativistas e sindicais. O mesmo faço agora ao remeter esta mensagem a todas as pessoas a quem Vossa Senhoria endereçou a sua carta, repetindo a atitude deplorável do Sr. Roberto. O Sr. Roberto, num desvario, e Vossa Senhoria, de afogadilho, provam que, além de não conhecerem o inteiro teor da carta de fevereiro de 2008 à Revista (bem como a resposta da revista e a minha tréplica, cujos três textos podem ser lidos no meu site), ignoram o meu pensamento e as minhas críticas, eminentemente técnicas, embasadas cientificamente, sobre temas, conceitos e aspectos da bebida, amplamente desenvolvidas em meus dois livros e nas centenas de palestras que proferi e degustações que dirigi nos últimos quinze anos em todo o País. Nada há de subjetivo, pessoal, passional ou idiossincrático nelas. Degustação e Análise Sensorial são atos culturais objetivos, práticas profissionais objetivas, que levam em conta elementos exclusivamente objetivos. Nada há de subjetivo ou pessoal nesses exercícios. Gosto se discute porque gosto se forma, se constrói, se educa. E os elementos que compõem o gosto, que formam as avaliações visual, olfativa e gustativa, são igualmente objetivos, concretos, reais, palpáveis, sentidos e medidos. Como eu disse ao Sr. Roberto, e agora repito a Vossa Senhoria: nada tenho, em tese ou preconceituosamente, contra o produto mineiro. Nem motivos teria para tal. Ao contrário, reitero, algumas marcas habitam os cumes dos rankings dos meus dois livros sobre cachaça e são apresentadas no meu site. Tenho, entre meus amigos, muitos alambiqueiros de Minas, honestos e competentes, dos quais louvo as suas atividades. Tranquilize-se, Vossa Senhoria: em qualquer lugar, município, estado e no Brasil todo, de norte a sul, de leste a oeste, a excelência sensorial da cachaça é uma raridade, uma exceção, um milagre. Isto é próprio da arte e da técnica de fazer cachaça, de descansar cachaça, de envelhecer cachaça. Atente-se que esses fazeres nada tem a ver com os universos de outras bebidas como o irmão rum, o vetusto vinho e outros destilados como o uísque, o bourbon, o gin, a vodca, a tequila etc. São outros universos, com outras culturas, outras histórias e latitudes, outras tecnologias, outros modos e regimes de produção, outras maneiras de consumir. Das seis mil marcas de cachaça e de cachaça envelhecida que estão no mercado (dois tipos de bebida, previstos na própria legislação), pelo menos das cerca de 1 mil cachaças e cachaças envelhecidas que eu tive oportunidade de degustar profissionalmente (avaliar, julgar, diferente de beber e bebericar), apenas, no máximo, quinze marcas, puderam merecer, de mim, notas de 8 a 10. A excelência sensorial é a minoria da minoria da minoria. Centenas de cachaças são medianas, regulares (de 6 a 7.9, "dão p'ra tomar") e milhares são ruins (de 0 a 5.9), imbebíveis. Isto ocorre em qualquer parte: em todo o Estado das Minas Gerais; no Estado do Rio de Janeiro, em Santa Catarina, São Paulo, Bahia, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Espírito Santo, Rio Grande do Norte (todos estes Estados com mais tradição do que Minas); no Paraná, no Rio Grande do Sul e... na quatrocentenária Paraty. Paraty fabrica quase uma dezena de marcas, legalizadas e clandestinas, mas apenas duas possuem excelência sensorial, são dignas da sinonímia de maior lastro histórico e cultural: "paraty". As outras são medianas ou são ruins, nauseabundas. Na esmagadora maioria das regiões brasileiras, como em Salinas, não há excelência sensorial. Em todos os pólos de produção, existem certas cachaças medianas, com alguma ou algumas virtudes sensoriais, e pululam, em excesso, as de má ou sem qualquer qualidade sensorial. Em alguns Estados, não há nenhuma marca com excelência. Em outros, há uma ou duas nessa categoria. Já as marcas medianas são numerosas e habitam todo o País. E as cachaças ruins, industriais (todas) e artesanais (grande parte delas), são maioria em qualquer lugar. Quanto à Ampaq, saudei entusiasticamente a sua criação e desenvolvimento, qualificando-a, sempre, como "a mais importante revolução que os mineiros fizeram depois daquela que glorificou Tiradentes". Publiquei isto nos meus dois livros e isto repito, em alto e bom som, há anos. A Ampaq, não me canso de declarar, é um modelo sério, inteligente, eficaz e exitoso, sempre a ser seguido, ao menos considerado, para a agroindústria brasileira da cachaça. É certo que houve tropeços, desvios, erros. É natural a uma instituição integrada por homens. E a crítica, positiva ou negativa, é sempre edificante, necessária, útil. A Ampaq já mereceu um texto meu inteiro, vibrante, de elogios, na coluna Prazer Brasileiro, que, em 1997, assinava no Jornal do Commércio, do Rio de Janeiro, a primeira e única especializada já publicada no País. Acompanho atento, interessado, o admirável trabalho da Ampaq, desde antes das presidências do Walter Caetano e dos irmãos Rodrigo e Alexandre, da excelente Tabaroa. Várias cachaças de Minas já foram, e são, exaltadas por mim, em textos que publiquei em jornais, revistas e no meu site, em entrevistas a emissoras de rádio e de tv, inclusive na famosa entrevista que dei, em rede nacional, ao Jô Soares em 2004, com estrondoso sucesso, reprisada em 2005. Poucas cachaças mineiras desceram no meu ranking, (Germana, Vale Verde). Algumas continuam excelentes, com notas entre 8 e 10, como a cachaça Aroeirinha e as cachaças envelhecidas Tabaroa, Velha Aroeira e Biquinha, entre outras. Entretanto, em Salinas, nunca vislumbrei cachaça com virtudes sensoriais máximas, capazes de acolher o atributo da "excelência". Só acredito em trabalhos críticos. Em qualquer ramo ou área da atividade humana. E a minha crítica é profissional, fundamentada, objetiva, honesta, independente, respeitosa. E sempre com propostas. Nela nada há de passional, pessoal, subjetivo, emocional, irresponsável. Assumo-as e as sustento com argumentação, humildade e provisoriedade. Estou longe dos parti-pris, dos jargões e dos doestos, das ofensas de qualquer natureza. Não pratico o opróbio, o deboche, o escárnio. Isto pertence ao terreno da vileza e da estupidez, do qual não faço parte ou frequento. Vossa Senhoria poderá ler Humor literário, sutil, inteligente, precioso, nos meus textos e falas, pois fui profissional do riso por mais de dez anos. Poderá perceber neles severidade, crítica lancinante, radicalidade (do latim radice, raiz, ir às raízes, às causas primeiras, aos fundamentos de um tema ou questão, e não ficar na superficialidade, na sintomatologia), ao contrário da leviandade, porém jamais verá achincalhe, chacota, virulência vã, sem direção ou propósito em minhas manifestações. A exceção, evitável o quanto possível, pode acorrer quando sou, aética, covarde ou estupidamente, agredido, sem motivos ou de maneira asnal, insana, desarrazoada. Em consequência, ajo em legítima defesa. Não estou ligado a nenhuma empresa ou grupo, não produzo ou represento nenhuma marca de cachaça. Não sou arauto, acecla, cordeiro ou acólito de fabricante, doutrina ou associação. Por outro lado, ninguém é obrigado a pensar como eu, aplaudir e se solidarizar com os meus julgamentos ou aderir às minhas opiniões. Somente a respeitá-las. Contestar ou calar. Aprovar ou não. Não sou dono da verdade, tenho a posse ou propriedade dela. Apenas procuro estar sempre com ela, próximo dela. Parafraseio uma escritora norte-americana: "A verdade não é uma estação para a qual viajamos. Mas, o modo de viajar". Meus caminhos são éticos e profissionais. Meus compromissos são com a Cultura Brasileira e com a Minha Pátria. O diálogo, a crítica, a discussão são exercícios férteis, produtivos, enriquecedores. O resto é, intelectualmente, indigente, desprezível, descartável. Muitas vezes, ignóbil, pútrido, abjeto. Respeitosa e cordialmente, Marcelo Câmara Carta enviada por Marcelo Câmara a O Globo, a 16.3.2009,
As opiniões expostas na matéria Na sintonia das batidas perfeitas, sobre música nas academias de ginástica, publicada na edição de domingo, 15.3.2009, são uma reunião de frivolidades, ditas por gente que não conhece, se nega a estudar o assunto ou se encontra, patológica e comercialmente, engajada numa moda generalizada, burra, tola e nociva. O barulho de um motor de caldo de cana, quase sempre ensurdecedor, denominado "música", nas academias, é uma prática insana, maciça, predominante em todo País. Uma droga perturbadora, adotada sem prescrição médica, sem nenhum fundamento técnico ou base científica. Cada indivíduo tem o seu próprio ritmo orgânico e mental, cada exercício tem, também, o seu próprio ritmo e determinado exercício praticado por determinada pessoa tem um terceiro ritmo. Não existe uma música ritmada que marque todos os exercícios aeróbicos e de musculação de todas as pessoas, dentro ou fora piscina. Ginástica exige atenção, disposição, concentração e realização responsável, sintonia, ritmo, harmonia entre mente e corpo, orientação, obediência às regras da sua execução. Esse som que transforma academia em boate de meretrício e botequim desprezível, com cerveja quente e música alta, apenas aliena o indivíduo de si mesmo, afasta o praticante da ginástica do seu exercício, dispersa os sentidos, o desconcentra, "distrai" como admite um dos entrevistados, quando a sua mente, o seu corpo, postura, respiração, todos os sentidos deveriam estar dirigidos e empenhados no próprio exercício. O barulho na academia, que os seus adeptos chamam de "música", e geralmente da pior qualidade, só faz entorpecer e imbecilizar ainda mais os alunos de academia. Música é uma arte para ser ouvida, tocada ou dançada em lugar e momento apropriado. E música-ambiente ritmada não se adequa a um lugar multidisciplinar, onde diversas pessoas devem estar concentradas, executando as lições de diversos exercícios com diversas durações e de diversos ritmos, alguns alongando músculos e tendões, outros em práticas aeróbicas (esteira, bicicleta etc.), e terceiros fazendo musculação. A rigor, a princípio, em tese, nenhuma música - de excelência, mediana ou ruim, popular, folclórica ou erudita - deveria estar em espaço multidisciplinar, plural, de academia alguma. A música era, outrora, seletiva e específica marcando os pontos dos exercícios da milenar calistenia, da ginástica de solo clássica, com ou sem halteres, barras e bastões, e hoje, também seletivamente, pode fazer parte dessa ginástica marcada, e, ainda, da ginástica artística e de certos exercícios da ginástica olímpica. Os compêndios e manuais clássicos da matéria, os livros de Educação Física e de Ginástica de autores de prestígio internacional, editados nos EUA, na Europa e Oriente, recomendam a prática da ginástica sem música. Entre nós, o consagrado Nuno Cobra orienta no mesmo sentido. A música ouvida por um atleta individualmente no seu treinamento, e na ginástica, também individualizada de uma pessoa, é válida, estimulante, até útil, necessária. Da mesma forma, um grupo praticando exercício único, coletivo, ritmado, com um guia, professor ou orientador, tem na música um auxiliar didático-pedagógico válido, importante. "Eliminar o baticum irracional e torpe das academias parece impossível, a reação contrária é quase absoluta" - justificam-se os professores. Quando, milagrosamente, a aparelhagem de som pifa e os sons e ruídos são apenas das pessoas, professores e alunos, já ouvi algumas pessoas, uma minoria, é claro, exclamarem: "Que bom sem música, parece que tudo sai melhor, com mais acerto e rendimento..." Mas estamos numa democracia, o regime das maiorias que crucificaram Cristo, glorificaram Hitler e elegeram, duas vezes, Bush. E, infelizmente, enquanto não prevalece a razão, reina "o melhor critério": o das maiorias, mesmo que insanas. O escapismo irracional do falso bordão "gosto não se discute", e se discute sim, em todos os campos do pensamento, da arte e do comportamento humano; e a resposta vazia e irresponsável dos donos de academia e seus professores "Não se pode agradar a todos, cada um tem um gosto..." - apenas confirma a asneira segundo a qual o aluno de academia é quem deve determinar o que deve ser feito e como deve ser feito. Seria como um paciente dizer ao médico que quer tomar tal remédio, fazer tal terapia, durante o período "x" e na forma "y". O barulho nas academias é um instrumento a transformar alunos de educação física em consumidores tontos, alienados e dóceis, que cumprem séries de exercícios sob intenso e desconcertante barulho, suam, falam alto para serem ouvidos, suam mais um pouco e vão para casa esgotados, meio surdos, certos de que fizeram bem ao corpo, à mente, melhoraram a saúde. Realmente, apenas e literalmente, "malharam", agrediram bastante o corpo, se esgotaram, como estivessem num trânsito engarrafado, sob um buzinaço. Mas não praticaram ginástica de forma inteligente, segura, responsável e saudável.
O prefeito de Paraty comete crime há quatro anos
O prefeito municipal de Paraty, RJ, José Carlos Porto Neto, vulgo Zezé, que acaba de ser reeleito, prossegue, impune, há mais de quatro anos, ininterruptamente, cometendo crime de responsabilidade ao negar-se a cumprir a Lei Municipal 1414, de 2004, que denominou Casa de Cultura Câmara Torres a Casa da Cultura de Paraty. A Lei está em pleno vigor desde junho de 2004, mas é ignorada pelo Poder Executivo do Município. O prefeito comete crime de ordem pública, sujeito ao julgamento do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, ao infringir o Art. 1º item XIV, do Decreto-Lei nº 201, de 27.2.1967, punido com pena de detenção de três meses a três anos, por "negar execução a lei municipal". O decreto que dispõe sobre os crimes de responsabilidade dos Prefeitos Municipais, estabelece que a condenação definitiva do prefeito "acarreta a perda do cargo e a inabilitação, pelo prazo de cinco anos, para o exercício de cargo ou função pública, eletivo ou de nomeação". O Decreto-Lei determina, ainda, que durante a instrução criminal, o prefeito deverá se afastar do cargo. Nos últimos dois anos, o Ministério Público, na pessoa do Procurador-Geral da Justiça do Estado do Rio de Janeiro, Marfan Martins Vieira, recebeu duas representações noticiando o delito continuado e requerendo a denúncia e instauração de processo criminal contra o prefeito por crime de responsabilidade, mas, surpreendentemente, a autoridade nada apurou e determinou o arquivamento de ambos os pedidos. A Casa da Cultura de Paraty está instalada num sobrado de mais de duzentos anos, de propriedade da Prefeitura Municipal de Paraty, com cessão informal de uso a uma ONG que a administra. No prédio funcionou uma escola estadual, um clube e, ultimamente, a Secretaria Municipal de Turismo e Cultura.
Um escândalo:
"Um escândalo! Verdadeiramente um escândalo. Benfazejo e venturoso, no melhor e mais positivo sentido que a exclamação possa ter". Assim, o jornalista e consultor cultural Marcelo Câmara resume a emoção, ao folhear o fascículo da Coleção BRAVO! 50 ANOS DE BOSSA NOVA, Newton Mendonça - O personagem oculto, de André Ciasca, que acompanha a edição de outubro da revista Bravo!. Numa iniciativa pioneira, corajosa, única na mídia brasileira, a revista Bravo! acaba de editar e colocar nas bancas de todo o País, um bem construído e honesto perfil biográfico, jornalístico e crítico, do pianista de vanguarda e genial compositor carioca Newton Mendonça (1927-1960), primeiro e principal parceiro de Tom Jobim, com quem formou a mais importante dupla da Bossa Nova. Marcelo Câmara se diz "honrado e orgulhoso", com o trabalho do jornalista e produtor cultural André Ciasca. Isto porque Ciasca teve como fontes principais: o livro Caminhos cruzados - a vida e a música de Newton Mendonça (Mauad), de Marcelo Câmara; o álbum Caminhos cruzados - Cris Delanno canta Newton Mendonça (Ilha Verde), idealizado e produzido por Câmara; as recentes pesquisas do biógrafo; e as entrevistas que concedeu a Ciasca. Newton Mendonça é o criador, com Tom Jobim, de Desafinado, Samba de uma nota só, Meditação, Discussão, Foi a noite, Só saudade, O domingo azul do mar etc., e de composições exclusivas como Você morreu p'ra mim, O tempo não desfaz, Verdadeiro amor, O mar apagou, Seu amor, você, Canção do azul, Nuvem, entre outras - qualificadas como obras-primas, hinos e matrizes da Bossa Nova.
Marcelo Câmara critica ausência de Newton Mendonça
Marcelo Câmara escreve à editora que produziu a Coleção Folha 50 anos de Bossa Nova (livreto e CD) e ao jornal Folha de São Paulo para lamentar a ausência, entre os artistas selecionados, do pianista e compositor Newton Mendonça (1927-1960). A Coleção foi lançada no dia 10 de agosto de 2008 e é vendida todos os domingos nas bancas. Marcelo Câmara faz severa crítica aos critérios de seleção dos eleitos, apontando o erro como mais um golpe da famigerada "história oficial da Bossa Nova" contra a Música Popular Brasileira. A editora, depois de entrar em contato com o planejamento e redação da Coleção, informou a Marcelo Câmara que o profissional responsável pela Coleção "também tem enorme respeito e admiração por Newton Mendonça, mas a Folha privilegiou os intérpretes da Bossa Nova e Newton Mendonça não é interprete e sim compositor". O editor acrescentou: "Se notar, em vários discos foi feita a escolha de musicas em que Newton é o Autor, exatamente pra realçar sua veia de Bossa Nova e não deixar passar esse grande compositor despercebido". Diante da injustificável resposta, Marcelo Câmara enviou outro e conclusivo protesto à editora.
Uma polêmica impossível: Não deu outra. A Revista História da Biblioteca Nacional publicou, parcialmente, em sua edição nº 33, de junho de 2008, o texto Fantasia não eliminada que Marcelo Câmara enviou ao Editor em fevereiro último. Entretanto, além de editar o que dele quis, divulgou, na revista e no site da revista, uma inqualificável resposta, tola, diversionista e fugitiva dos auto-proclamados "historiadores", Luciano Figueiredo e Marcelo Scarrone. Sem conhecer o trabalho intelectual de Marcelo Câmara, e nenhuma história da cachaça, tentam desqualificá-lo acusando-o de "não ser historiador". Diplomado. Segundo eles, Marcelo, formado em Direito e em Comunicação Social, não lê, não pesquisa, não publica História. Por não ser bacharel em História, não poderia fazer História. Não sabem que Marcelo Câmara produz e publica História há quarenta anos, não apenas no terreno da cachaça, mas também da Música, da Política, da Cultura, da Educação, entre outros. Que foi editado por historiadores como Darcy Ribeiro, Emmanuel de Bragança Macedo Soares, Alípio Mendes, respeitáveis historiadores brasileiros, entre outros, todos sem diploma. Mas, para os dois, "istoriadô só com diproma". Ilustres historiadores brasileiros e estrangeiros, do passado e contemporâneos, não tiveram formação específica em História e nem por isto deixam de ser historiadores. A dupla cita fontes secundárias, suplementares, acessórias, relativas e não fundamentais, não seminais, no que se refere à história da cachaça. E livro recente de um deles, sem nenhuma importância ou interesse, apenas oportunista, que nada acrescenta à pequena, erudita e preciosíssima bibliografia existente, onde Câmara Cascudo e Gilberto Freyre pontificam como raros mestres e descobridores. Fontes de inteligência e interpretação valiosas, específicas, do universo da cachaça são, é claro, totalmente desconhecidas dos curiosos. As fontes a que referem apresentam-se ora como periféricas ou peremptas, ora ultrapassadas em significado ou quilometricamente vencidas por outras mais relevantes. A incipiente resposta dos indigitados apresenta-se como uma redação ginasiana, palavrosa e empulhativa: cheia de contornos, fugas, variantes, arabescos. Diante de tanta asneira, presunção, escapismo e arrogância, Marcelo Câmara não teve outra alternativa se não remeter àqueles "especialistas" a mensagem abaixo. Desta vez, conclusiva e cabal, espera. E, claro, não publicada.
Carta de Marcelo Câmara corrige Revista de História da BN. A Revista História da Biblioteca Nacional, em sua edição nº 30, de março de 2008, não publicou a carta que Marcelo Câmara enviou corrigindo os erros, desvios e imprecisões da matéria A pinga que pingava, publicada na edição de fevereiro de 2008. O jornalista e escritor afirma que não se surpreendeu com a atitude da revista: “Ignorar e censurar a crítica fundamentada de um leitor qualificado é um comportamento normal, esperado, de quase todos os veículos da Imprensa brasileira. Seria um gol ético contra a sua soberbia e fragilidade editorial”, comenta. Eis a íntegra do texto que a revista não teve seriedade nem segurança para publicar: Na matéria A pinga que não pingava, de Luciano Figueiredo e Marcello Scarrone, in Cadê a história que estava aqui (Edição nº 29, fev. 2008), a fantasia, a ficção foi apontada mas, não de todo, desmascarada, demolida, eliminada. A baboseira intitulada A origem da cachaça, atribuída ao Museu do Homem do Nordeste, da Fundação Joaquim Nabuco (Gilberto Freyre e Mario Souto Maior estão revirando-se nas sepulturas...), circula em arquivo anexado a mensagens na Internet há alguns anos. Ainda não consegui descobrir qual inventivo e desocupado indivíduo construiu tanta asneira. Localizei, sim, o webdesigner que colocou imagem e som na falsa narrativa. Este, por sua vez, desconcertado, comigo desculpou-se, prometeu denunciar o erro ao redator do indigitado texto, mas não me informou o nome do criador da medonha estória. Tudo é ficção tola e inservível, fantasia para encantar, para enganar curiosos, gente interessada, até bem intencionada. A versão não tem fato, documento ou testemunha de onde pode originar-se. E não passa disto. Exaure-se em si mesmo, isto é, na sua própria inconsistência, em nada. Nenhum fundamento histórico ou científico. Nenhuma palavra, linha ou idéia se aproveita no tal arquivo que circula nos computadores. Por outro lado, a matéria da Revista é falha, não é conclusiva e desinforma, porque: 1º) Portugueses, e outros povos, fabricavam, sim, aguardentes, mas jamais “cachaça”, o destilado do mosto fermentado do caldo, do melado, da rapadura ou do melaço da cana-de-açúcar (hoje, por lei, “cachaça” é apenas o destilado do mosto fermentado do caldo da cana-de-açúcar). O texto indecente que circula na Internet intitula-se A origem da cachaça (sic) e não da aguardente. Bebida da espécie “destilado” e pertencente à categoria das “aguardentes”, a Cachaça foi inventada no Brasil entre 1533 e 1534 pelo colonizador Martim Afonso de Souza e seus quatro sócios (três lusos e um holandês), em plena Mata Atlântica, nos três primeiros engenhos de açúcar construídos pelos cinco no Brasil (as primeiras indústrias do País), em São Vicente (hoje o local pertence a Santos): Madre de Deus, Santo Antônio e São Jorge, este conhecido, também como "dos Erasmos" ou "do Governador", único do qual restam ruínas. Martim Afonso trouxe o primeiro alambique para a terra recém-descoberta, engenhoca utilizada na Península Ibérica desde o início da Idade Média, e destilou a cana, cujas primeiras mudas chegaram à nova terra pelas mãos de Gonçalo Coelho em 1502. 2º) Antonil, no clássico Cultura e Opulência do Brasil, descreve, passo a passo, o fabrico seiscentista e primitivo do açúcar, mas em nenhum momento trata de “cachaça” na acepção que temos, para designar a bebida nacional, que conhecemos e amamos. Ele emprega o termo para designar outra bebida, ou melhor um subproduto, um resíduo descartável do processo de fabricação do açúcar. Quando ele escreve “cachaça” está se referindo à escuma (espuma) eliminável, descartável, da primeira fervura do caldo no início do processo. E por que ele usa “cachaça”? Porque “cachaça”, apesar de ser uma palavra da língua portuguesa, termo generalizado na fala do povo do Brasil na segunda metade do Setecentos, não obstante um termo que denomina a bebida nacional, mesmo sendo uma criação linguístico-cultural genuína e absolutamente brasileira, brasílica – origina-se do espanhol “cachaza” que, na Península Ibérica, designava uma “bagaceira popular ou de baixa qualidade”. Sites e arquivos habitam a Internet oferecendo outras versões fantasiosas sobre a origem da palavra “cachaça”, todas ineptas. Os colonizadores e os primeiros brasileiros importaram a palavra e sua semântica para designar algo inferior, desprezível, no caso a escuma da primeira fervura que era dada às animálias. Observe-se que a palavra “cachaça” antes de denominar a nossa emblemática bebida, um símbolo nacional, serviu para chamar o lixo, o resto, a sobra. Compreenda-se a origem espúria que lhe foi dada através da diacronia da palavra. “Cachaza” nasceu e era usada no Velho Mundo, e depois foi aplicada aqui, para designar um produto inferior, pobre, subalternizado na cadeia industrial e na escala de valoração cultural. Eis uma das raízes, uma das causas histórico-culturais de discriminação, pré-conceituação, criminalização e patologização da cachaça na nossa sociedade. Antonil emprega fartamente mel, mel de cana, meles, garapa, melado, açúcar, água ardente (a nossa cachaça, palavra composta, escrita sem aglutinação) e nomes de outros produtos e subprodutos da indústria açucareira, para descrever processos e regimes, explicar fabricos, registrar produção e comércio. Porém “cachaça” ele escreve apenas e tão somente para denominar essa escuma residual, não alcoólica, destinada aos currais, jamais no sentido e na aplicação que foi generalizada a partir do Século XVIII e que temos hoje. Para não dizer que Antonil foi absolutamente coerente em toda a sua obra nesse mister, uma única vez ele escreve “cachaça” para não se referir a tal escuma, mas, sim, à “cachaça azeda” ou garapa azeda ou garapa doida ou cerveja de cana, que é o que conhecemos como mosto, mucungo ou quira, isto é, o caldo fermentado da cana-de-açúcar, que tem em torno de 12% de álcool ao volume a 20o Celsius. Entretanto, ainda não temos a “água ardente” com o nome de “cachaça”, referenciada por Antonil, resultado do ato de “estilar” (destilar) de que nos fala o jesuíta italiano. 3º) Demolindo o estapafúrdio texto que circula na Internet: “Pinga”, palavra já empregada muitas vezes por Antonil, antes dele já designava “porção ou parcela mínima de líquido que escorria, que gotejava, gota, gole, trago”, não só do caldo da cana ou de seus derivados, mas de qualquer líquido, alcoólico ou não. “Pinga” como sinônimo de cachaça aparece na fala do povo e nos documentos dos escrivães e cronistas desde a invenção da cachaça. Diz-se “pinga” porque pingava, e pinga, escorre, goteja, na ponta do alambique, e não do telhado, das ripas de senzala alguma, pois em senzala nunca se fabricou melado, açúcar, muito menos cachaça. O composto “Aguardente” ou “água ardente” é palavra medieval, pretérita ao surgimento da cachaça, porque já existiam outras aguardentes, como a bagaceira, o korn, o schnapps, a vodca, o gim, a genebra, a aquavita, o quirche, a cidra, o poteen, o arac, o uísque e as aguardentes vínicas como o conhaque, o armanhaque, o brandy, o ouzo, a mastika, o pisco e outras, antes da bebida brasileira. Portanto a origem da palavra “aguardente” nada tem a ver com açoite de escravos com lombo molhado de cachaça. Pura fantasia inverossímil, implausível. 4º) “Cachaça” e “garapa” são termos falados e escritos no Brasil, em várias acepções, desde o Século XVI, a partir das atividades dos primeiros engenhos e da invenção da bebida. A palavra “cachaça”, a nossa aguardente de cana-de-açúcar, não começa a circular apenas “até a terceira década do século XVII, quando surgem as primeiras notícias da aguardente da cana-de-açúcar destilada em alambiques”, como afirma, equivocadamente, o artigo. Encontramos a palavra “cachaça” escrita designando a nossa aguardente de cana-de-açúcar, no início do século XVII nos Anais da Câmara de Salvador, Bahia. Antes disto, Gabriel Soares de Sousa, no seu Tratado Descritivo do Brasil em 1587, registra uma “casa de cozer meles com muita fábrica” também na Bahia, onde se produzia açúcar, melado, rapadura e cachaça. Outrossim, aguardente de cana-de-açúcar só poderia ser destilada em alambiques e não por qualquer outro processo. Ademais, “agoa ardente”, “água ardente”, “aguardente” sempre foi dito e escrito desde o Descobrimento. “Aguardente da terra” em oposição à “aguardente do reino” ou “aguardente de fora” antecedeu à “geribita da terra” ou ”giribita da terra” (ou jeribita ou jiribita... existem diversas outras formas) com a mesma antítese, ainda no Século XVII, é verdade. Antes de aguardente, geribita e cachaça, mais precisamente nos séculos XVI e XVII, muito mais se falou e se escreveu mel de cana, vinho de cana, vinho de mel, vinho de mel de cana. 5ª) Outra conclusão vesga do artigo da revista: Tomás Antônio Gonzaga não criou expressão “cachaça ardente”. Quando nos versos da 5ª Carta , da obra Cartas Chilenas (1788-9) – “Pois a cachaça ardente que o alegra, / Lhe tira as forças dos robustos membros” – o bardo mineiro não criou neologismo ou sinonímia alguma para a cachaça. Apenas expressou-se poeticamente, sem metáfora, adjetivando sem originalidade a bebida, repetindo um julgamento comum e indestrutível: Cachaça é uma água ardente saborosa, que arde, que queima prazerosamente, pelo volume de álcool que contém e pela sua acidez natural e necessária, e que, entretanto, desce macia, sem queimar, deliciosamente pela garganta e esôfago até o estômago. Gonzaga antecipa-se ao comerciante inglês John Luccock que publica em Londres, em 1818, o que viveu no Brasil dez anos antes: “Provei e adorei as águas de fogo de Paraty”. A cachaça não apenas esquenta o corpo e o espírito, provoca “sensação de calor” como informa o artigo. Antes de aquecer o corpo e o coração, antes de alimentar a alma, cachaça, na boca, quando inunda a boca, arde realmente. E assim deve ser. E essa doce e orgástica ardência é uma das suas mais sublimes e misteriosas virtudes. 6ª) A cachaça Anísio Santiago (ex- Havana), de Salinas, MG, não é uma das mais antigas e tradicionais do Brasil. Quem escreveu isto sabe de cachaça tanto quanto o sertanejo de Bebe-Mijo, no Piauí, sabe de esqui no gelo. Leitura de mídia superficial, errônea e leviana. Para uma bebida que está fazendo 475 anos de vida, uma cachaça de quatro, cinco décadas não significa coisa alguma. Além de não ser cachaça mas apenas uma cachaça mal envelhecida, filha de uma desconhecida cachaça ruim - a Anísio Santiago não possui excelência sensorial alguma. Trata-se de bebida apenas ingerível por quem conhece cachaça, mas nunca saborosa, com qualidade sensorial superior. Minas consome cachaça desde a descoberta do ouro, porém fabrica há menos dois séculos. Salinas, por outro lado, não tem cachaça nem tradição. Produz, há algumas décadas, e em quantidade, cachaça envelhecida de má qualidade, tingidas em madeiras agressivas, oriundas de pingas ruins que não chegam ao mercado, que são escondidas pelos seus fabricantes. Se a Revista quisesse ilustrar o texto com algum rótulo deveria fazê-lo com o de alguma cachaça de Paraty, RJ, o mais antigo centro produtor de cachaça do mundo, que exibe mais de quatrocentos anos de tradição, ciência, arte, excelência na fabricação de cachaça. A Coqueiro e a Corisco, ambas de Paraty, por exemplo, as melhores cachaças que existem, são feitas por famílias que produzem cachaça, no mínimo, há mais de duzentos anos, ininterruptamente, de pai para filho. Sabedoria e mestria entre gerações. A Revista já havia publicado, em 2006, artigo sobre a cachaça prenhe de equívocos e imprecisões de toda ordem. A brasileira Cachaça é desejo de bilhões de terráqueos, bebida de milhões de consumidores, curiosidade de milhares de habitantes, interesse de centenas de intelectuais. Mas assunto para muito poucos. Cordialmente,Marcelo Câmara (*) MARCELO Nóbrega da CÂMARA Torres, 58, jornalista, escritor, editor e consultor cultural. Cachaçólogo, é autor de Cachaças bebendo e aprendendo – Guia prático de degustação / drinking and learning – Practical guide to tasting (Mauad, 2006), primeiro e único livro de degustação de cachaças, e de Cachaça – Prazer Brasileiro (Mauad, 2004), primeira obra dirigida ao mercado, ao consumidor real e potencial da bebida nacional. Pingófilo por mais de cinqüenta anos, foi o primeiro degustador de cachaças a se profissionalizar, exercendo o ofício de 1994 a 2007.Show Caminhos cruzados
Casa cheia, aplausos continuados, muitos elogios, sucesso. Esses os resultados do show do violonista e cantor Alan Vergueiro, Caminhos cruzados – a música de Newton Mendonça, o primeiro espetáculo com a obra do primeiro e fundamental parceiro de Tom Jobim, quarenta e oito anos após a morte do pianista e compositor. Newton Mendonça (1927-1960) e Tom Jobim (1927-1994) formaram a mais importante dupla da Bossa Nova. O show, escrito, dirigido e apresentado por Marcelo Câmara, aconteceu a 8 de abril último, no Vinicius Show Bar, em Ipanema, Rio de Janeiro, espaço considerado o “templo da Bossa Nova”, e foi assistido por quase uma centena de pessoas. Juquinha Stockler, “o rei da vassourinha”, considerado “o baterista da Bossa Nova”, que gravou, com João Gilberto, Desafinado, Samba de uma nota só e Chega de saudade e outros clássicos, prestigiou o acontecimento em companhia do cantor Edson Vaz, e considerou o evento “verdadeiro, providencial, excelente”.
Música contemporânea Marcelo Câmara deixa a pingofilia e a degustação. Na Mensagem de Natal, endereçada aos seus clientes, parceiros, amigos, colegas, colaboradores e aos milhares de internautas que visitam mensalmente este site, o cachaçólogo Marcelo Câmara desejou a todos “um Natal Verdadeiro, Feliz, de Fé, Fraternidade e Esperança, com Cristo. E um Novo Tempo de Paz, Alegrias, Felicidades, Saúde e Sucesso!” Ao fazer um balanço do ano de 2007, concluiu que trabalhou muito, publicou e viajou bastante, para, em seguida, comunicar que, em agosto último, encerrou carreira de mais de meio século como pingófilo e a de quase vinte como degustador profissional de cachaças, o primeiro a se profissionalizar no mundo. (clique http://www.ilhaverde.net/iv/rankings.htm para saber mais). Acrescenta que não dirige mais sessões de degustação, como realizava em todo o País, não constrói mais rankings de cachaças, nem faz mais análises sensoriais para fabricantes: “Só opino sobre aspectos sensoriais de pingas degustadas até agosto de 2007” – enfatiza. “A mudança, explica, nada tem a ver com problemas ou impedimentos de saúde ou de natureza religiosa. Foi uma decisão eminentemente existencial, integrante de um amplo ‘pacote’ de mudanças de hábitos, alimentares inclusive, de ritmos, de jornadas de trabalho, de horários e rotinas cotidianas”. Apesar de se tornar abstêmio, Marcelo afirma que continua cachaçólogo, amante da bebida brasileira, atuando intelectualmente no Universo da Cachaça, nos segmentos da História, Sociologia, Antropologia, Economia e Estética da Cachaça. Aos incrédulos, aos que duvidam da mudança em sua vida, o especialista lembra que Mário Souto Maior, ilustre cachaçólogo pernambucano, que publicou vários livros sobre cachaça, alguns que se tornaram clássicos, nunca ingeriu uma gota do destilado brasileiro, nem de qualquer outra bebida alcoólica. Marcelo Câmara finaliza anunciando que prossegue como criador e consultor, também, nas diversas outras áreas da Cultura, onde produz há quase cinqüenta anos. Marcelo Câmara assina a primeira página do Paladar, do Estadão Marcelo Câmara foi o autor do texto de abertura da edição nº 100, do Caderno Paladar, Especial sobre Cachaça, do jornal O Estado de São Paulo , que circulou a 16 de agosto de 2007. Abaixo, o texto na sua versão original. Autor dos livros: Cachaças bebendo e aprendendo – Guia prático de degustação e Cachaça – Prazer Brasileiro, ambos da Mauad Editora. Sucesso na Avenida Paulista Cerca de oitenta pessoas assistiram à palestra com degustação de cachaças do jornalista e escritor Marcelo Câmara na noite de 9 de agosto no importante Fórum de Eventos Culturais da Livraria Fnac, na Avenida Paulista, em São Paulo, SP. O autor percorreu o universo da cachaça e discorreu sobre temas e questões do seu último livro Cachaças bebendo e aprendendo - Guia prático de degustação / Cachaças drinking and learning - Practical guide to tasting (Mauad), a primeira obra do mundo a tratar dos aspectos sensoriais do destilado brasileiro. Cachaçólogo, pingófilo e degustador profissional, Marcelo dialogou com leitores, respondeu a perguntas e demoliu ficções e mentiras que circulam na mídia e na Internet acerca da cachaça. Além de dirigir uma sessão didática de degustação de pingas novas e envelhecidas, ele autografou os seus livros. Presentes ao evento, empresários, profissionais liberais, intelectuais, universitários, leitores fiéis como o baterista Miltinho, do Sexteto Jô Onze e Meia, e estrangeiros interessados na bebida brasileira, como a jornalista norte-americana Grace Fan, correspondente em São Paulo da agência norte-americana DowJones, do grupo do Wall Street Journal, e o alemão Hans C. Heuberer, consultor de informática radicado na capital paulista. Foram degustadas as marcas de excelência sensorial: Coqueiro, de Paraty, RJ; Samanaú, de Caicó, RN; e SalvaGerais, de João Pinheiro, MG.
![]() Marcelo Câmara recebeu Hans C. Heuberer na Fnac Paulista. Cachaça SalvaGerais vence no Rio Cerca de quarenta pessoas participaram no último dia 31 de maio, na Saraiva MegaStore Rio Sul Shopping Center, na cidade do Rio de Janeiro, do Bate-papo com degustação de cachaças com o jornalista e escritor Marcelo Câmara, dentro do projeto Papos & Idéias da rede de Livrarias Saraiva. O autor, que é cachaçólogo, pingófilo e degustador profissional de cachaças, conversou durante duas horas e meia com um grupo de leitores interessados em conhecer as características sensoriais da bebida brasileira, além dos seus aspectos históricos, sócio-culturais e econômicos. Marcelo dirigiu uma sessão de “degustação passo-a-passo”, respondeu a perguntas dos presentes e discutiu questões relacionadas à produção e ao consumo da cachaça. Ao final do encontro, antes de Marcelo autografar os seus livros Cachaças bebendo e aprendendo e Cachaça – Prazer Brasileiro, ambos editados pela Mauad, a Cachaça SalvaGerais-Prata, de João Pinheiro, MG, foi aclamada como a melhor pinga envelhecida da noite, entre as três marcas de excelência degustadas. As outras duas marcas foram a Samanaú, de Caicó, RN, e a Coqueiro, de Paraty, RJ, esta a única cachaça nova e branca provada no evento. ![]() Marcelo Câmara (à extrema dir.), ao final da degustação na Saraiva, Para você entender A Indicação de Procedência Marcelo Câmara
Muita gente não entendeu bem o que aconteceu no último dia 8 de maio no Rio de Janeiro, quando a Associação dos Produtores e Amigos da Cachaça de Paraty – Apacap – recebeu do Instituto Nacional da Propriedade Industrial – INPI – o Certificado de Indicação Geográfica, na modalidade Indicação de Procedência, da Cachaça de Paraty. Os meios de comunicação vêm reproduzindo erros e imprecisões, palpites de oportunólogos, de especialistas de ocasião, de pessoas pouco informadas sobre o assunto. E pior: bebedores que nunca reconheceram a superioridade da Cachaça de Paraty, mas, ao contrário, sempre a denegriram, e, agora, posam de “profundos conhecedores das pingas de Paraty”, prosélitos do que nunca acreditaram. Afirma-se que “a Indicação de Procedência da Cachaça de Paraty equivale as Denominações de Origem cognac e champagne, na França”. Não é verdade, não é isto.
Paratyense, na condição de estudioso, de divulgador e defensor, quase que solitário, por mais de cinqüenta anos, da excelência e primazia da Cachaça de Paraty, autor de dois livros de vanguarda e de mais de uma centena de trabalhos publicados sobre a bebida brasileira, onde elevo a Cachaça de Paraty, e, ainda, apesar de não ter sido convidado para a cerimônia de entrega do Certificado, nem ao menos avisado sobre o evento – sinto-me participante dessa conquista. Além desse meu trabalho ininterrupto de estudo e de realizações por meio século em favor da Cachaça de Paraty, distinguindo a sua primazia e excelência, lembro-me de que, nos anos de 1998 e 1999, dialoguei muito com Casé Miranda, jovem que se iniciava no universo da cachaça, como sócio do saudoso Príncipe Dom João de Orleans e Bragança, na fabricação da Maré Alta. Insistia com ele e com os mestres alambiqueiros Eduardo Mello (Coqueiro) e Aníbal Gama (Corisco), meus amigos de infância, que a revitalização e afirmação da Agroindústria da Cachaça em Paraty começaria com a organização dos produtores, com a criação de uma entidade classista que os reunisse em torno de idéias, interesses, objetivos e propostas pela recuperação e desenvolvimento do setor. Argumentava que o Estado, paternalisticamente, não cederia ou concederia nada à cachaça. Tudo teria de ser conquistado com bandeiras e luta. A entidade seria indispensável, fundamental, seria o primeiro passo, antes de se falar em aumento da produção e da produtividade, padrão de excelência, incentivos, exportação etc. Conversei bastante com eles sobre o belo exemplo de Minas Gerais. Ofereci, então, além de conhecimento e informação, os meus serviços profissionais para elaborar o estatuto da entidade, registrá-la legal e juridicamente. Casé, à época, após uma sondagem, me respondeu que não havia sensibilidade, união e recursos para o surgimento de uma associação. Após reduzir a minha remuneração pela metade, me dispus a fazer tudo gratuitamente. Cheguei a ir a Paraty para convocar uma reunião com os produtores. Não houve interesse, não tive sucesso. Lamentei. Anos depois, com as bênçãos de São Benedito, nasceu a Apacap.
Hoje, posso afirmar que 8 de maio de 2007 foi um dia muito importante não apenas para o Município de Paraty, para a Agroindústria da Cachaça, para o Estado do Rio de Janeiro, para o País. Nasce como uma data histórica para a nossa Economia, para a Cultura Brasileira.
Há 474 anos a cachaça era inventada na Capitania de São Vicente, e, décadas depois, em 1600, Paraty, sesmaria na mesma Capitania, já era o centro de excelência, lugar onde nos seus engenhos se fabricava o melhor “vinho de mel de cana”, a melhor “jiribita da terra”, a melhor aguardente de cana-de-açúcar do mundo. A palavra “cachaça” só foi generalizada na fala do povo próximo a 1800. Porém antes de 1700 a palavra “paraty” já designava não apenas o “vinho de cana”, a “aguardente da terra”. “Paraty” era traduzida como a melhor, a mais pura, a mais nobre aguardente de cana-de-açúcar. Em todo o Século XIX e na primeira metade do Século XX, na maioria das províncias e estados do Brasil, e nos países estrangeiros, mais se falou e se escreveu “paraty” do que “cachaça”, “cana” ou “pinga”. A comprovação disto está no Jornalismo, na Literatura, na Historiografia, nos registros dos cronistas e viajantes de todo o mundo, na nossa Cultura Popular, no nosso Folclore. Até meados do século passado, em muitos rótulos das pingas de Paraty, o uso da palavra “paraty” prevaleceu sobre “cachaça”. Eu possuo a maior e mais completa coleção de rótulos de cachaças de Paraty, identificação que surgiu na década de 1930. Vários desses rótulos não trazem a palavra “cachaça” e sim “paraty” seguida da marca, da fazenda ou engenho de origem, ou do nome do seu fabricante. São mais de quatro séculos de sabedoria e tradição, de ciência e arte, de conhecimento empírico, de tecnologia eficaz e verdadeira, excelência confirmada e aprimorada, a cada dia, pelas universidades e instituições de pesquisa. São mais de quatro séculos de alquimia, de amor, preservação e veneração a uma bebida, símbolo da nacionalidade, que encharca toda a História e a Cultura do Povo Brasileiro.
Da riquíssima sinonímia da palavra “cachaça”, acervo de mais de mil termos, a palavra “paraty” é a que possui maior lastro cultural e histórico, nacional e internacionalmente. Hoje, em 2007, a maioria dos habitantes de qualquer país do mundo com mais de sessenta anos de idade pode não conhecer a palavra “cachaça”, mas sabe, ou já ouviu dizer, que “paraty” significa um primoroso destilado brasileiro feito da cana-de-açúcar, de qualidade superior, de excelência sensorial superior.
Reconhecimento e proteção
A Indicação Geográfica – IG – constitui um instituto jurídico, previsto na nossa Lei da Propriedade Industrial, de 1996, que visa reconhecer e proteger o nome geográfico de pais, região ou localidade, que identifique algum produto ou serviço típico. Na Europa, existem mais de 3 mil produtos agropecuários com certificados de IG. No Brasil, a certificação é recente. A IG resulta na fidelização do consumidor, que saberá que, sob a etiqueta da Indicação Geográfica, vai encontrar um produto de qualidade e com características locais, peculiares a um determinado lugar. A Indicação Geográfica também favorece a melhoria da comercialização, facilitando o acesso aos mercados através da propriedade coletiva. O produto com Indicação Geográfica ganha maior competitividade nos mercados interno e internacional, uma vez que o certificado projeta imagem associada às virtudes e à tipificação, promovendo uma garantia institucional da qualidade, reputação e identidade.
A IG realiza-se através de um registro junto ao INPI, que expede um Certificado específico. Entre nós, existem dois tipos de Indicação Geográfica: a Indicação de Procedência e a Denominação de Origem. São dois registros diversos, com implicações e conseqüências jurídicas e econômicas diferentes. A Indicação de Procedência traduz-se no “nome geográfico de país, cidade, região demarcada ou localidade de seu território, que se tenha tornado conhecido como centro de extração, produção ou fabricação de determinado produto ou de prestação de determinado serviço”. Na embalagem do produto estará gravado “Indicação de Procedência”. Já a Denominação de Origem se dá quando o nome geográfico de país, cidade, região demarcada ou localidade de seu território, designa produto ou serviço cujas qualidades ou características se devam exclusiva ou essencialmente ao meio geográfico, incluídos “fatores naturais e humanos”. A embalagem do produto trará a inscrição “Denominação de Origem”.
Note-se que um produto que goze da Indicação de Procedência terá o direito exclusivo de utilizar o nome geográfico onde é fabricado. Porém, um produto que detenha a Denominação de Origem não anunciará, com exclusividade, apenas o nome geográfico. O nome geográfico denominará o produto, como ocorre, por exemplo, com dois produtos da França: o brandy fabricado na região de Cognac se denomina “cognac”, e o vinho branco espumante fabricado na região de Champagne se denomina champagne. O brandy fabricado na região de Cognac ostenta qualidades e características únicas, peculiares, diferenciadas dos outros brandies fabricados no mundo, características estas devidas exclusiva e essencialmente àquela região, incluídos os fatores naturais e humanos. Esses fatores são o solo e o clima, o conhecimento, a tecnologia, o modo de fazer peculiar, a sabedoria pertinente, as práticas, a tradição, a cultura que gravita em torno da atividade e do produto. Na Denominação de Origem não basta que o nome geográfico seja famoso, que o lugar tenha se tornado conhecido como centro de produção de determinado produto. Aliado aos “fatores naturais e humanos”, um outro elemento é indispensável: a qualidade. Mas não é apenas a “qualidade legal”, ou seja, que o produto cumpra as especificações e exigências da lei. Se for bebida, por exemplo, não basta que apenas seja resultado de um determinado processo de produção, possua uma determinada composição química, tenha um determinado envasamento, que a sua ingestão normal não seja prejudicial, nociva ou letal à saúde e à vida humana. Esta qualidade não basta. Isto é como o político ser honesto. Não passa de uma obrigação. A qualidade que diferencia e denomina, por exemplo, as bebidas cognac e champagne é a qualidade sensorial, a superioridade e excelência na aparência, cor, consistência, textura, aroma, sabor e digestibilidade. Esta excelência sensorial é comprovada por bancas sensoriais formadas por degustadores profissionais, por provadores formados e treinados que atestam se aquele brandy feito na região de Cognac é realmente cognac ou se não passa de um simples brandy como tantos outros; se aquele vinho branco espumante feito na região de Champagne é champagne ou não passa de um simples espumante feito em tantos outros lugares do mundo.
A Denominação de Origem
O Certificado que a Cachaça de Paraty recebeu do INPI foi o de Indicação de Procedência, isto é, o direito exclusivo de somente as pingas fabricadas no município exibirem em seus rótulos a indicação: Cachaça de Paraty, seguida da expressão “Indicação de Procedência”. Somente as cachaças fabricadas em Paraty poderão usar o nome geográfico “Paraty” em seus rótulos, quando se sabe que várias marcas de cachaça, em diversos Estados, usam o nome “paraty” para denominar cachaça . Mas este direito não é exatamente o mesmo que ocorre com as bebidas cognac e champagne. Qualquer pinga fabricada em Paraty, seja ela de excelência, mediana ou ruim, cumpridas as exigências legais, independente da sua qualidade sensorial, poderá usar em seu rótulo a inscrição “Cachaça de Paraty”, seguida da expressão “Indicação de Procedência”. Trata-se, apenas, de uma Indicação Geográfica, na modalidade Indicação de Procedência. Mesmo havendo “uma estrutura de controle sobre os produtores” de Paraty, para a concessão da Indicação de Procedência, conforme exigiu a lei para a concessão do Certificado, nenhum crivo sensorial, nenhuma banca sensorial de degustadores atestou ou atestará o padrão de excelência sensorial das cachaças de Paraty, padrão este cujas marcas de tradição Coqueiro e Corisco são exemplos cabais.
O Registro é justíssimo, resultado de uma atividade econômica primacial e emblemática na vida de um dos mais belos sítios da Terra, Paraty, Município Monumento Nacional, dono do mais harmonioso conjunto arquitetônico colonial do País. O Registro vem consagrar mais de quatrocentos anos de história de uma bebida que antes de se chamar “cachaça” foi chamada de “paraty”. Ainda hoje, a Cachaça de Paraty continua única, inigualável, sem similares, sendo feita artesanalmente com os mesmos fundamentos e segredos exclusivos e invioláveis que fazem dela um produto diferenciado na cor, no aroma e no sabor. Há mais de quatro séculos, a bebida denominada “paraty” gera riqueza, arte, beleza, é centro difusor e polarizador de Cultura nas suas mais diversas áreas e expressões.
A Indicação de Procedência da Cachaça de Paraty irá distingui-la de outras cachaças, será, mais que uma impressão digital, uma carteira de identidade para o produto, proclamando a sua origem, o lugar onde ela é feita. A Cachaça de Paraty estará protegida das fraudes, irá aumentar o seu valor agregado. A ela está conferido um diferencial de mercado, em função das características e da cultura própria do seu local de origem, preservando-lhe as suas belíssimas particularidades. Irá, também, incentivar novos investimentos, elevando o padrão tecnológico dos engenhos, multiplicando os empregos e favorecendo o turismo.
Paraty, mesmo em meados do século XVIII, quando possuía mais de uma centena e meia de alambiques, engenhocas destiladoras de aguardente de cana-de-açúcar, sempre se distinguiu pela qualidade insuperável, jamais pela quantidade, pela grande produção. E Paraty continua, com uma modesta produção de 200 mil litros anuais, a fabricar a melhor cachaça do mundo, cachaça de caráter, primorosa, quimicamente perfeita, de aroma rústico e sedutor, sabor pleno e inigualável. Atualmente, somente quatro empresas estão, legal e juridicamente, autorizadas a fabricar cachaça em Paraty: a Destilaria Engenho d’Água, na Fazenda Cabral, de Eduardo Mello, onde nasce a Coqueiro; a Destilaria Corisco de Paraty Ltda., na localidade do Corisco, de Aníbal Gama, onde é feita a Corisco; a empresa Morycana Indústria de Bebidas Ltda., na Fazenda Bananal; e a empresa Paulo Eduardo G. Miranda ME, no Sítio Pedra Branca, na Ponte Branca. Desses quatro engenhos, apenas dois estão em atividade regular e contínua, isto é, fabricam cachaças atualmente: a Coqueiro e a Corisco. Paraty possui apenas seis marcas de cachaça registradas no Ministério da Agricultura, marcas que não são clandestinas: Coqueiro, Corisco, Murycana, Paratiana e Labareda.
A Indicação Geográfica da Cachaça de Paraty, na modalidade Indicação de Procedência, é o quarto registro conferido pelo INPI a um produto nacional, das dezenas de pedidos feitos a partir do ano de 2000. Os três primeiros foram para: os Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos do Rio Grande do Sul, o Café do Cerrado de Minas Gerais e a Carne do Pampa Gaúcho. É, também, o primeiro passo para a concessão futura do Registro de Denominação de Origem para a Cachaça de Paraty. Isto será possível? Creio que sim. Até hoje, o INPI não concedeu nenhum Certificado de Denominação de Origem a qualquer produto nacional. Por enquanto, teremos o direito do uso exclusivo da identificação “Cachaça de Paraty” para as cachaças fabricadas no município. Mas a Cachaça de Paraty já possui todos requisitos, ou seja, já apresenta, em sua fabricação, todos os “fatores naturais e humanos”, dos quais trata a lei e aos quais me referi, para requerer a Denominação de Origem “Paraty”, que deverá ser usada para a cachaça fabricada em Paraty. Então, com a Denominação de Origem “Paraty”, poderemos ter impressos nos rótulos, se os produtores desejarem, “Paraty Coqueiro” e “Paraty Corisco”, seguidos das expressões “Denominação de Origem” e “Cachaça de Paraty”. Com a Denominação de Origem será reconhecida e protegida uma bebida de características singulares, cujo processo de produção é peculiar, próprio, exclusivo dos produtores de Paraty. Essa sabedoria, essa tecnologia, é um patrimônio cultural imaterial de mais de quatrocentos anos, de valor inestimável, patrimônio herdado, teluricamente, entre gerações, hoje propriedade de algumas famílias paratyenses. Porém, para a expedição do Certificado da Denominação de Origem da Cachaça de Paraty, quando o nome geográfico “Paraty” será identificador da cachaça produzida no município, além daqueles “fatores naturais e humanos”, a questão da qualidade sensorial continuará pendente, pois, infelizmente, não existe lei ou ato normativo prevendo a utilização de banca sensorial, capaz de comprovar a singularidade e excelência sensorial de uma bebida, como acontece com as Denominações de Origem “cognac” e “champagne”. O advogado brasileiro Marcos Fabrício W. Gonçalves, mestre em Direito pela Universidade de Lisboa, especialista na matéria, autor de tese única sobre Indicações Geográficas, em fase de publicação, considera importante a alteração ou regulamentação da lei com o objetivo de sanar esta lacuna, criando-se mecanismos, como a banca sensorial, para viabilizar as Denominações de Origem. A teoria e a experiência de outros países indicam que, obtida a Denominação de Origem “Paraty”, ela somente deveria ser exercida com a participação indispensável de uma banca sensorial de degustadores profissionais, de provadores formados e treinados para avaliar se determinada cachaça fabricada em Paraty possui a singularidade e excelência da bebida “Cachaça de Paraty”, segundo a sua tradição, o seu padrão sensorial superior, consagrada há mais de três séculos.
Como vimos, nem todo o brandy feito na região de Cognac, na França, recebe a denominação “cognac”. Nem todo o vinho branco espumante fabricado na região de Champagne, na França, é “champagne”. Não bastará que uma cachaça seja fabricada no município de Paraty, para receber o direito do uso exclusivo da Denominação de Origem “Paraty”. As características, segundo o padrão tradicional de qualidade sensorial de cor, aroma e sabor da Cachaça de Paraty, é que concederão, aos produtores de Paraty, o direito do uso exclusivo da expressão “Denominação de Origem”. Interessante notar que os produtores de vinhos do Vale dos Vinhedos, mesmo possuindo apenas a Indicação Geográfica, mantém bancas sensoriais que atestam o padrão de excelência sensorial dos seus produtos. Com a futura Denominação Geográfica “Paraty”, todas as cachaças fabricadas no Brasil serão cachaças, mas somente aquela fabricada em Paraty, com um específico padrão e excelência sensorial, se chamará “Paraty”. Hoje, se indaga: - O senhor deseja brandy ou cognac? – O senhor vai escolher um espumante ou prefere champagne? Com a Denominação de Origem “Paraty”, o balconista do bar ou o garçon do restaurante perguntará: - O senhor vai beber cachaça ou paraty?
Conquista
Está de parabéns pela conquista da Indicação de Procedência a APACAP, na pessoa de Eduardo Mello, ex-presidente e atual vice-presidente que liderou o processo que culminou com a Certificação. Considero Eduardinho o melhor alambiqueiro do mundo, o artesão que personaliza “o modo paratyense de fazer cachaça”. Sua família inventa cachaça há trezentos anos. Eduardo Mello sintetiza sabedoria, esmero, trabalho, amor, generosidade, doação, humildade para aprender e ética para não transigir com a ilicitude, com a má qualidade, a falsificação e o lucro fácil. A Cachaça Coqueiro, que ele fabrica, e que considero a melhor do mundo, foi a primeira do Brasil a receber o “Selo de Cachaça de Excelência” do Ministério de Agricultura.
A Indicação de Procedência da Cachaça de Paraty não é só uma vitória dos produtores de Paraty, daqueles poucos que mantêm as suas empresas legalizadas, as suas marcas registradas e ativas, as suas atividades de acordo com a lei e sob competente fiscalização federal. Constitui uma vitória de uma admirável e produtiva parceria entre os produtores, o Ministério da Agricultura e o Sebrae-RJ. Neste sentido, vale registrar a boa administração do Superintendente Federal da Agricultura no Estado do Rio de Janeiro, Pedro Cabral, e de sua competente equipe de técnicos tendo à frente os Doutores Celso Merola, Alfredo Morandini e Sérgio Nicolau. Para Cabral, os produtores de cachaça de Paraty “terão que continuar trabalhando muito para honrar o selo de Indicação de Procedência e aumentar a respeitabilidade dele”. Destaque, ainda, para o dedicado trabalho da responsável pelo Balcão do Sebrae em Paraty, a Dra. Maria Auxiliadora Silva, incansável lutadora pela organização dos produtores, a eficácia da parceria, o reconhecimento da singularidade e excelência da Cachaça de Paraty, recebendo a brilhante consultoria técnica do Doutor Ricardo Zarattini, da Fundação Bio-Rio. Por fim, louve-se a seriedade e inteligência do INPI que soube interpretar e aplicar a Lei de da Propriedade Industrial.
Um brinde à permanente e eterna excelência, à indiscutível superioridade da Cachaça de Paraty, sua história, seu prestígio, sua glória.
Saúde! Felicidades a todos! Os dois rankings de cachaças a) cachaças maravilhosas, raríssimas e insuperáveis, que você bebe poucas vezes na vida: nota 10; pingas do céu b) cachaças de excelência, de qualidade superior, muito poucas, raras: notas de 8 a 9,9; pingas do altar c) cachaças medianas, com qualidade, apenas bebíveis (existem centenas no mercado, a maioria de MG: de 6 a 7,9; pingas da prateleira d) cachaças ruins, sem qualidade (existem milhares, a maioria do mercado): de 0 a 5,9; pingas destinadas a certas elites; Ou seja: 1 ) se a cachaça alcançou a nota máxima, 10 (dez), você bebeu uma cachaça maravilhosa, raríssima, preciosa, sublime, insuperável, divina, um néctar, que se degusta uma ou duas vezes na vida. Uma cachaça do céu. 2) se a cachaça ficou com nota entre 8 e 9, 9, você bebeu uma cachaça de excelência, de qualidade superior, perfeita na estrutura química e de virtudes sensoriais primorosas, deliciosa, saborosíssima, prazerosíssima. Uma cachaça do altar. 3) se a cachaça recebeu nota entre 6 e 7,9, você bebeu uma cachaça com qualidade, mediana, com algumas virtudes, bebível, classificável entre o medíocre e o satisfatório. Uma cachaça da prateleira 4) se a cachaça foi avaliada com nota abaixo de 6, isto é, com nota de 0 a 5,9, você bebeu uma cachaça ruim, sem qualidade, com aroma e sabor desagradáveis, sem virtudes, classificável entre o vomitativo e o sofrível, que vai do péssimo ao não-prazeroso. Uma cachaça das destinada a certas elites brasileiras, que odeiam o nosso povo e desprezam a nossa Cultura. Uma cachaça das elites. Fonte: Cachaças bebendo e aprendendo - Guia prático de degustação (Mauad). RANKINGS DA CACHAÇA (situação em março de 2007) - Classificação construída a partir da degustação das marcas ativas que provou, que são produzidas e estão no mercado, segundo avaliação crítica do cachaçólogo, pingófilo e degustador MARCELO CÂMARA, primeiro e único degustador profissional de cachaças em atividade no País, criador das normas e critérios sensoriais para a degustação do destilado nacional, autor dos livros Cachaça - Prazer Brasileiro (Mauad, 2004), primeiro livro dirigido ao mercado, ao consumidor real e potencial da bebida, e Cachaças bebendo e aprendendo - Guia prático de degustação (Mauad, 2006), primeiro livro do mundo de degustação de cachaças, a primeira obra a tratar exclusivamente dos aspectos sensoriais da bebida brasileira. Final infeliz “Um desfecho funesto, uma covardia” – assim definiu o jornalista, escritor e consultor cultural Marcelo Câmara o seu diálogo com um dos editores da revista Playboy, da Editora Abril, que na sua edição de abril publicou a reportagem Ranking Playboy da Cachaça, considerada pelo cachaçólogo, pingófilo e degustador, “uma matéria desastrosa, farta de equívocos, asneiras e barbaridades”. O editor Jardel Sebba havia prometido publicar, na seção de cartas da edição de maio, devida e corretamente identificados, os dois rankings construídos por Marcelo, a pedido da revista. O editor também solicitou a Marcelo que indicasse quais “os erros (objetivamente) para que possamos dar uma nota corrigindo na próxima edição”. O especialista, atendendo à revista, preparou então um longo texto apontando, direta e explicitamente, todos os tropeços e tombos, um a um, todos os equívocos, asneiras, ficções, mentiras e barbaridades, demolindo, linha a linha, a infausta matéria. Com a alegação insólita e duvidosa, segundo a qual “a edição de maio da revista foi fechada na última terça-feira, logo será impossível incluir esse comentário que você acaba de mandar na seção de cartas” – o trabalho de Marcelo Câmara foi, mais uma vez, como foram os seus rankings, ignorados e descartados. O editor informou que apenas o seu protesto inicial será publicado na seção de cartas “com a nossa devida resposta” (sic) e que os rankings estarão somente no site da revista. Quanto às indicações que Marcelo fez dos erros e asneiras, todas fundamentadas no seu conhecimento técnico e científico, estas foram para a lata de lixo. No ano passado, Marcelo também concedeu entrevista e construiu rankings justificados solicitados pela Playboy, que também não foram publicados, mas apenas colocados no referido site, ao qual só tiveram acesso os seus assinantes da revista. URGENTE
Minhas amigas, Alerto-os quanto à desastrosa matéria publicada na revista Playboy, edição de abril de 2007, intitulada Ranking Playboy da cachaça, onde o meu nome aparece como um dos “treze especialistas” ou “jurados” que opinaram e construíram o famigerado “ranking”. Nada é legível ou digno de apreensão na matéria, nada se aproveita nela, nem uma linha. Trata-se de um amontoado de equívocos e asneiras. A estrutura da matéria é canhestra, as fontes estranhas, o tratamento inadequado, os comentários medonhos e impróprios, as informações erradas, daí o trágico pseudo-ranking e o texto bisonho, tonto, pleno de tolices e de barbaridades, que denigre e prostitui a nossa amada cachaça, que assusta quem conhece e ama a bebida brasileira. No início de março, fui, sim, entrevistado pela revista, por telefone e por e-mail, respondi a um questionário do “jornalista”, fornecendo-lhe dois rankings, um de cachaça e outro de cachaça envelhecida. Ambas as classificações foram construídas com base na minha sabedoria crítica e reconhecida autoridade de cinqüenta e um anos de pingofilia e degustação, de minhas vivências e convivências, de realizações no universo da cachaça, e mais de quatro décadas como cachaçólogo que estuda, escreve e publica sobre o tema. A pedido da revista, enviei, também por e-mail, o capítulo A degustação passo a passo, do meu último livro Cachaças bebendo e aprendendo (Mauad), lançado em dezembro de 2006, o primeiro do mundo de degustação de cachaças. Nem uma só palavra do que passei ou disse à revista foi publicada, ao menos considerada. E mais, fui apresentado aos leitores encabeçando uma lista de “jurados” como “autor do livro Cachaça – Prazer Brasileiro”. Ora, o livro que se vinculava, que se colocava jornalisticamente adequado e oportuno à consulta para a elaboração da matéria era Cachaças bebendo e aprendendo, que trata dos elementos sensoriais da cachaça, revelados na arte e técnica de uma degustação, e não o livro citado, uma obra de 2004, também de vanguarda, é verdade, mas genérica quando a finalidade é julgar a qualidade sensorial das cachaças fabricadas no País. Por que tanta tolice impressa em papel couché, em policromia?
Duas são as causas: 2º) a outra causa do besteirol deve-se ao despreparo e à irresponsabilidade do escrevinhador da matéria. Sorte minha não ver meu pensamento sobre a cachaça, minha opinião responsável, minhas críticas profissionais misturadas a tanta bobagem e mal editadas na revista. Estaria muito mais comprometido com a insensatez e a patranha. Mas, quando sou incluído numa lista de amadores, entusiastas e conhecedores de ocasião, quero deixar bem dito e bem claro que nada tenho a ver com o tal ranking, que mistura duas bebidas diferentes, cachaça nova e cachaça envelhecida, e, na sua quase totalidade, enobrece pingas medianas e ruins. Também não assino ou ratifico uma só palavra do texto do “repórter”, nem concordo com as informações errôneas, as risíveis orientações e os ridículos comentários dos denominados “especialistas”.
Marcelo Câmara MARCELO CÂMARA EM NATAL O jornalista e escritor fluminense Marcelo Câmara, 57, ingressou a 29 de março último no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, com sede em Natal, como sócio correspondente, no dia que a mais antiga instituição cultural do Estado completou 105 anos de existência. Na Casa da Memória Potiguar tiveram assento Câmara Cascudo, Gilberto Freyre, Nestor Lima, Manoel Rodrigues de Mello, Américo de Oliveira Costa, e hoje atuam Diógenes da Cunha Lima e Enélio Petrovich, entre outros intelectuais brasileiros. No dia seguinte, Marcelo Câmara lançou na Livraria Siciliano, na loja do Natal Shopping, o seu último livro Cachaças bebendo e aprendendo – Guia prático de degustação (Mauad), o primeiro livro do mundo de degustação de cachaças. A presença do escritor na capital potiguar teve grande repercussão na mídia local. Marcelo Nóbrega da Câmara Torres, natural de Angra dos Reis, RJ, é filho de seridoenses, descendente de tradicionais famílias potiguares: Araújo de Açu, Nóbrega de Caicó, Câmara de João Câmara (antiga Baixa Verde) e Torres de Touros. Na noite de aniversário do Instituto Histórico, o novo sócio foi saudado por Dorian Gray Caldas, consagrado artista plástico e poeta. Após a sua investidura, Marcelo fez a conferência Câmara Torres: um homem público, sobre a vida e obra de seu pai, José Augusto da Câmara Torres (* Caicó, RN, 1917 – † Niterói, RJ, 1998), jornalista, educador, advogado e político, sócio do Instituto, que viveu a maior parte da vida no Rio de Janeiro. A edição de Cachaças bebendo e aprendendo teve o apoio cultural da Cachaça Samanaú, fabricada em Caicó, por Dadá Costa, considerada a melhor do Nordeste e que já tem ardorosos devotos no Rio de Janeiro e em outros Estados. Com quase duzentas páginas, belo formato portátil, primoroso projeto gráfico, a obra é ricamente ilustrada com fotos coloridas do Sítio Samanaú, de Caicó, onde é fabricada a Samanaú. A designer Marcela Petersen, filha de Marcelo Câmara, assina o projeto gráfico do livro, e as fotografias são do jornalista e fotógrafo caicoense Raimundo Melo e do fotógrafo carioca Bruno Lira, neto da caicoense Eulália Medeiros, radicada há muitos anos no Rio de Janeiro. Raízes potiguares Cachaças bebendo e aprendendo é o quinto livro de Marcelo Câmara, também consultor cultural, editor e consultor legislativo do Senado Federal (aposentado), onde assessorou Darcy Ribeiro. De ascendência e com grandes identidades no Rio Grande do Norte, Marcelo teve em Câmara Cascudo, desde a juventude, um mestre nos seus trabalhos nas áreas da Sociologia, Antropologia e Folclore. O pai, José Augusto da Câmara Torres, pertence aos Câmara do monumental Câmara Cascudo, e do senador João Severiano da Câmara. Era sobrinho do célebre advogado Aprígio Câmara, que fez importante carreira em São Paulo, e tinha parentesco com Aluísio Alves. A mãe, a professora Gertrudes Nóbrega da Câmara Torres, Tudinha (* Caicó, RN, 1919 – † Niterói, RJ, 1989), filha do patriarca Joaquim Gorgônio da Nóbrega, pertencia à estirpe de Janúncio da Nóbrega e era prima de Dinarte Mariz. No Rio, José Augusto chegou com quinze anos, depois de fundar e dirigir jornal em Caicó e integrar a turma de Eugênio de Araújo Sales, atual cardeal emérito do Rio de Janeiro, e do músico Túlio Tavares, irmão do grande maestro e compositor Mário Tavares, no Colégio Santo Antônio, dos Irmãos Maristas, em Natal. No Rio de Janeiro, fez carreira como jornalista, técnico de educação, advogado e político, com quatro mandatos de deputado estadual, duas vezes secretário de Estado, membro do Conselho Estadual de Educação, constituindo-se numa importante personalidade da história política e cultural do Estado do Rio de Janeiro. Marcelo Câmara é primeiro e único degustador profissional de cachaças em atividade no País e o criador das normas e critérios sensoriais para degustação da bebida brasileira. Pingófilo (amante e bebedor da boa pinga) há mais de meio século e cachaçólogo (estudioso) há mais de quarenta anos, com dezenas de trabalhos publicados sobre o tema, ele é o autor de outro livro também de vanguarda, Cachaça – Prazer Brasileiro (Mauad), o primeiro dirigido ao mercado, ao consumidor real e potencial do destilado nacional. OS OITENTA ANOS DE NEWTON MENDONÇA Aos 81 anos, faleceu, na noite de 26 de fevereiro de 2007, vítima de infarto, Norma Ferreira de Mendonça, única irmã do genial músico e compositor de vanguarda Newton Mendonça. Carioca, nascida a 22.1.1926, era a única filha do tenente do Exército Miguel Ferreira de Mendonça Júnior e Celeste Carvalho de Mendonça. Newton nascera no ano seguinte, a 14 de fevereiro, e partiu a 22 de novembro de 1960, aos 33 anos, no terceiro infarto. O irmão caçula, Wilson, nasceu em 1928, e morreu precocemente logo depois de Newton, também de infarto. Manicure, solteira, moradora de Ipanema, apaixonada por Newton, dedicou grande parte da sua vida à defesa da memória e da divulgação da obra do irmão, artista sempre ignorado, reduzido, deformado ou marginalizado por uma "história oficial da Bossa Nova", segundo o jornalista Marcelo Câmara, único biógrafo de Newton. Voluntariosa, de temperamento difícil, a sua intransigência em nada ceder ou tolerar quando a causa era a música do irmão causou-lhe muitos conflitos, desavenças e dor durante toda a vida. Norma foi a primeira e essencial fonte do livro Caminhos cruzados - a vida e a música de Newton Mendonça (Mauad, 2001), de Marcelo Câmara, onde ela é descrita como uma personagem severa, implacável, truculenta, obcecada em fazer justiça ao nome e à arte de Newton, a quem ela definia como "o homem mais importante da minha vida". Norma morreu no Hospital Central do Exército e o sepultamento ocorreu na manhã de quinta-feira, 1º de março, no Cemitério São João Batista. Newton Mendonça foi o criador de Desafinado, Samba de uma nota só, Meditação, Discussão, Foi a noite, Caminhos cruzados, entre outros clássicos da MPB, hinos e matrizes da Bossa Nova, em parceria com Tom Jobim, de quem foi o primeiro e fundamental parceiro, com quem formou a parceria New-Tom, a dupla mais importante do movimento. Maior amigo de Tom, Newton, também de formação musical erudita, porém órfão, pobre e introvertido, foi quem o conduziu para a Música Popular e com quem começou a compor por volta de 1952. Newton Mendonça se profissionalizou como pianista da noite carioca antes de Tom, em 1950; teve música sua gravada antes de Tom, em 1952; e morreu antes de Tom, em 1960, trinta e quatro anos antes de Tom. Os aquarianos Newton Mendonça e Tom Jobim se conheceram em 1942, quando ambos tinham com quinze anos, em Ipanema, onde moravam. No dia 14 de fevereiro de 2007 completaram-se oitenta anos do nascimento de Newton Mendonça. Nenhum registro da mídia, nenhuma lembrança ou celebração na Música Brasileira ou por parte dos poderes públicos. Ao contrário, no aniversário de oitenta anos de Tom Jobim, irmão xifópago de Newton, ocorrido dias antes, a 25 de janeiro de 2007, o País todo, com muita justiça, reverenciou a memória de Tom, com programas especiais no rádio e tv, matérias e cadernos especiais nos jornais. O silêncio, mais esta omissão criminosa em relação a Newton Mendonça abalou muito a saúde já fragilizada de Norma, que como o pai e os dois irmãos, falece de uma cardiopatia hereditária, familiar, agravada por problemas pulmonares e anemia. O comportamento dos músicos e compositores e a hipocrisia da mídia em relação a Newton Mendonça não surpreendem Marcelo Câmara. Para ele, “o silêncio, a omissão, a covardia, o cinismo é normal, uma vergonhosa e infame tradição. Lembrar Newton, divulgar a sua obra, contraria interesses vis, atinge mesmices e invencionices, desmonta ficções e mentiras cristalizadas de uma história oficial da Bossa Nova, que quer vê-lo bem morto e esquecido, ignorado por todos do seu real e verdadeiro papel, revolucionário, transgressor, na Música Popular Brasileira”. Além do livro sobre Newton lançado em 2001, Marcelo Câmara produziu o CD Cris Delanno canta Newton Mendonça (Ilha Verde/Nikita) em 2002, com obras solitárias e inéditas do compositor e músicas raras, desconhecidas, da dupla New-Tom. Passados quarenta e sete anos da morte de Newton, nunca foi montado um show com as suas músicas. Marcelo Câmara tentou levar para o palco um espetáculo escrito por ele e que iria dirigir. Mas não conseguiu: “Durante anos, busquei apoio público e privado para viabilizar o projeto, e desisti. Nenhuma inteligência ou sensibilidade, nenhuma adesão, nenhum apoio. Não há interesse em conhecer Newton Mendonça, a sua pequena e ousada obra musical. Mudaria quase tudo o que se tem escrito sobre Bossa Nova. Isto é muito perigoso.” Romance do sururu Marcelo Câmara recomenda aos amigos, parceiros e clientes, o livro O sururu que virou ostra (Scortecci), romance-denúncia, ecológico e político, do cientista alagoano Luiz Ferreira da Silva. O livro trata do sururu, molusco que é alimento e renda de milhares de nordestinos, ao contar a saga de Belarmino, um sururuzeiro, no belo sistema flúvio-marinho-lagunar da grande Maceió, que, milagrosamente, resiste à degradação ambiental e à incompetência dos governos. Literatura leve, gostosa, necessária, com muita informação e humor. Este é a quarta obra literária de Luiz Ferreira, engenheiro agrônomo, pesquisador, especialista em solos, consultor científico de prestígio internacional. Cachaça na Universidade Cachaça - uma dose de Brasil é título e assunto do vídeo dirigido por Tatiani Costa e Andréia Benite, da turma de Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo, da Uniara - Centro Universitário de Araraquara, SP, trabalho de conclusão de curso que acaba de receber a nota 10 da banca examinadora. O vídeo, com 43'12" de duração, tem o seu texto extraído do livro Cachaça - Prazer Brasileiro (Mauad), do jornalista e consultor cultural Marcelo Câmara, considerado o maior especialista na matéria, e aborda aspectos históricos, sócio-antropológicos e econômicos da bebida nacional. Além dos depoimentos de Marcelo Câmara que roteirizam o trabalho, dezenas de alambiqueiros, comerciantes, pingófilos e pesquisadores de universidades brasileiras testemunham sobre a realidade da nossa pinga no País e no mundo. Bebendo cachaça em rede nacional O cachaçólogo, pingófilo e degustador Marcelo Câmara esteve no último dia 8 deste mês de fevereiro no programa AO PONTO, do Canal Futura, em rede nacional, degustando as cachaças Coqueiro, de Paraty, RJ, e Samanaú, de Caicó, RN. Entrevistado pelo médico Jairo Bouer, que apresentou um programa sobre o álcool, Marcelo falou sobre como e quando beber, com sabedoria e prazer, a nossa amada pinga, o melhor destilado do mundo. Ele considera as marcas que degustou, insuperáveis em excelência sensorial quanto ao aroma e sabor. O programa foi reprisado, também em rede, nos dias 10, 11 e 12 de fevereiro.
Cachaça no Canal Futura Desde setembro de 2005, o programa Sala de Notícias, do Canal Futura, uma emissora educativa, vem reprisando, com grande audiência e sucesso, uma longa reportagem especial sobre a cachaça, tendo como principal entrevistado e condutor do roteiro, o cachaçólogo, pingófilo e degustador Marcelo Câmara. A última exibição ocorreu a 23 de janeiro de 2006. No site do Canal Futura, a emissora sintetiza o programa especial: CACHAÇA
Coluna Hilde
Aula de pinga Com Sylvia de Castro e Andréa Cardoso Jornal do Brasil Coluna Boechat
Pinga vetada Com Ronaldo Herdy
FOLHA DE SÃO PAULO Colaboração para a Folha A onda dos orgânicos já atingiu as bebidas. A inauguração do Empório Siriuba (al.Franca, 1.590), em setembro, trouxe mais variedade para o copo de adeptos de bebidas feitas sem adição de substâncias químicas. Desde março, freqüentadores do restaurante Deloonix (r. Bela Cintra, 1.709) também podem provar quatro marcas de cachaças orgânicas. A cachaça, aliás, lidera este segmento. Produzidas com cana-de-açúcar livre de agrotóxicos, as marcas da bebida se espalham por locais como a Casa Santa Luiza - que vende a Ypióca orgânica (R$ 6,20) - e o empório Santa Maria - onde a Tiquara sai por R$ 32,28. Na nova loja, além da Tiquara (R$ 40), é possível encontrar a "premium" Terra Vermelha (R$ 74) e a cerveja Eisenbahn (R$ 4,90). Coquetéis e caipirinhas também são preparados com ingredientes orgânicos. Nas mesas do Deloonix, os clientes encontram outras opções. As cachaças Terra Vermelha e Tietê, além da bidestilada Matraga, são servidas puras ou em caipirinhas - como a de manga e capim-santo (de R$ 16 a R$ 20). "Tem muita saída, principalmente pelos estrangeiros, que conhecem e valorizam os orgânicos", diz a sócia Marta Batilany. Ressalva O "cachaçólogo" Marcelo Câmara faz um alerta. Para ele, o fato de a lavoura de cana não receber agrotóxicos, defensivos ou estimulantes químicos não garante qualidade Pa bebida. "Fundamental é ter ciência, fazer arte, aplicar sabedoria, ser generoso em todas as fases da produção", diz. |
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